Em poucas semanas, o cenário político dos EUA diante das eleições presidenciais mudaram espetacularmente. Enquanto o otimismo professado pelos candidatos democratas sobreviventes aumenta, negras nuvens pairam no horizonte de Bush. Em um país tremendamente conservador e protetor de tradições, a mudança repentina e cíclica surge como força quando há as circunstâncias adequadas. O que ontem tinha consistência de granito, hoje não passa de ruínas.
Em outras épocas, o distanciamento da ordem estabelecida de Washington parecia ser a forma mais fácil de conseguir a atenção dos eleitores, um tanto desconfiados dos erros dos profissionais das negociações de corredores. Agora, optou-se pela experiência do contexto oficial e maturidade de John Kerry, rico senador, liberal e católico de Massachussets (suas iniciais são JFK), veterano do Vietnã. Na vala ficou o governador de Vermont, Howard Dean, preso em seu lema de “correr por fora”, cujo populismo, atraente para jovens e sindicalistas, Kerry tentará incorporar. Por isso, as fileiras democratas se preparam para combinar as qualidades mais destacadas de Dean e Clark, fundindo-as com a procedência mais modesta e sulina de John Edwards. Quando já não se precisar de Dean, se optará por Edwares. As carências de Kerry, paradoxalmente, podem se converter em valor agregado. Por exemplo, seu tom monótono, que algumas vezes dá a impressão de estar falando por um roteiro pré-estabelecido, pode ser uma vantagem em comparação à verbosidade direta e populista de Bush, que tão bons resultados lhe valeram depois do 11 de setembro.
Em um enfrentamento cara a cara, Kerry pode ser mais convincente para as pessoas, às quais não se deve mentir com documentação de inteligência falsa. Curiosamente, há meses os defeitos de Bush eram sua vantagem e agora podem se converter na causa de sua queda. De “mau conhecido” se tornou em “demasiado mau”. Falta apenas que Kerry o ataque pelo déficit e pela falta de geração de emprego. “É a economia, estúpido”, e não Saddam Hussein, lhe dirá Kerry. (O autor, Joaquín Roy, é catedrático da Universidade de Miami)