Há aproximadamente dois meses, uma família de sem-teto vem passando pelo sofrimento de viver em um prédio em construção abandonado, na quadra 13 da avenida Nossa Senhora de Fátima, no Jardim Europa. Estes moradores são apenas três, dentro da realidade de um problema social que afeta milhares de famílias no País. Em Bauru, a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) não possui dados fechados do número de moradores sem-teto na cidade.
Na obra ocupada, as condições do abrigo são precárias, sem água encanada, energia elétrica ou banheiro adequado, e os moradores ainda estão à mercê do clima, enfrentando as chuvas e tempestades de verão, visto que o local não tem paredes nem teto pronto.
Geraldo Roberto dos Santos, 46 anos, mostrou-se apreensivo quando foi abordado pela reportagem do JC na última sexta-feira, pensando que seria obrigado a deixar o local. Mais calmo, depois de conversar com os outros moradores e com alguns amigos que os visitavam, ele relatou que vivia anteriormente em uma casa no Jardim Ivone, juntamente com sua companheira Edith Terezinha Silva Custódio, 36 anos, e o rapaz Wilson Ricardo Pereira, 32 anos.
“Moramos dois anos em uma casa abandonada, assim como está este prédio. Encontramos a casa aberta e adentramos a propriedade. Mas não somos invasores. A casa estava abandonada, com mato, e nós fizemos dela nossa casa”, conta.
Segundo ele, os três trabalhavam como guardadores de carro e também recolhiam materiais recicláveis e prestavam serviços no Centro da cidade, para onde iam à pé todos os dias. “A gente atravessava a pista ainda de madrugada, os policiais até conheciam a gente”, diz Santos.
No último Natal, os três foram convidados por um amigo a participar de uma reunião em sua casa, próxima ao Jardim Europa. “Passamos as festas com a família deste amigo nosso, e depois recebemos a notícia de que uma pessoa havia jogado nossas coisas para fora da casa e colocado fogo em tudo. Ficamos só com a roupa do corpo, tudo ficou na rua, destruído”, relembra Edith.
De acordo com Santos, eles já sabiam do prédio abandonado e tentaram se abrigar no local. “Viemos para cá depois de tirarem a gente da nossa casa no Jardim Ivone. Tinham alguns vagabundos morando aqui, e nós tiramos todos eles daqui.”
Sem paredes
O abrigo não possui paredes e um buraco nos tapumes permite a visão de quem passa pela rua e de possíveis invasores. No chão, alguns colchões velhos, um sofá rasgado e partes de móveis destruídos dividem o espaço coberto com placas de papelão e outros materiais recicláveis, recolhidos pelos três moradores. Em um pilar, um quadro de um palhaço triste e colorido contrasta com a crueldade da situação.
O mau-cheiro indica que um dos cantos da construção tem sido usado como banheiro. No centro, em um fogão improvisado com tijolos e uma grelha, Edith preparava o almoço: peixe frito e fubá. Santos comenta que os moradores e comerciantes da região têm ajudado a família com doações. “Tudo o que temos agora foi o pessoal aqui da frente que deu. Os colchões, algumas roupas, porque a gente perdeu tudo o que tinha”, lamenta Santos.
Serviços
Atualmente, além de tomar conta de veículos na região das Nossa Senhora de Fátima e Getúlio Vargas, principalmente à noite, os três continuam recolhendo recicláveis e prestam serviços a moradores, como limpeza de quintais, poda de árvore e retirada de entulho.
O proprietário de um bar próximo ao prédio, que pediu para não ser identificado, comenta que foi procurado por Santos, logo que a família ocupou o local. “A única coisa que ele me perguntou foi se faria mal se eles tomassem conta dos carros aqui na avenida. É claro que incomoda as pessoas que param aqui, porque ninguém fica à vontade quando é abordado, mas eles estão tentando sobreviver e nunca arrumaram confusão”, diz.
De acordo com Édith, até a última semana eles não haviam sido procurados por nenhum funcionário da prefeitura ou por representantes do proprietário da obra. A reportagem do JC tentou localizar o responsável pela construção, mas não obteve resposta das pessoas contatadas.
A titular da Sebes, Darlene Tendolo, afirma que ainda não havia tomado ciência da situação desta família, mas garante que eles devem ser procurados nos próximos dias por um assistente social da secretaria, a fim de receberem orientação e auxílio.
Segundo Darlene, ainda não existem dados fechados do número de famílias na mesma situação na cidade. “Estamos fazendo um mapeamento, juntamente com a Defesa Civil, dos moradores de favelas e de famílias desabrigadas ou em situação de dificuldade social, a fim de realizar o cadastramento único e incluí-los nos programas dos governos municipal e federal”, explica.