Grande parte dos mais de 200 trabalhadores em casas de bingo de Bauru estarão em férias coletivas a partir de segunda-feira. A decisão foi tomada pelos proprietários das casas para evitar demissões em massa, enquanto aguardam a tramitação no Congresso Nacional da Medida Provisória (MP) 168, editada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva no dia 21, e que proíbe o funcionamento de bingos e máquinas de caça-níquel em todo o País.
“Só temos a lamentar (a proibição). Isso pode causar um desemprego em massa. A maioria dos bingos de Bauru está dando férias coletivas”, afirma Francisco Pereira de Andrade, presidente do sindicato dos Trabalhadores em Hotéis e Similares de Bauru (Sechorbs), entidade que reúne trabalhadores do setor hoteleiro e agrega funcionários das casas de bingos, que não possuem um sindicato próprio na cidade.
Andrade afirma que a federação da categoria, da qual é diretor, ainda busca uma saída para minimizar o impacto do fechamento dos bingos nos empregados - estimados, segundo ele, em 300 mil em todo o País. Na semana que vem - para quando está prevista também uma grande manifestação dos trabalhadores do setor na avenida Paulista, em São Paulo - representantes de sindicatos de diversas regiões devem se reunir com a direção da Força Sindical para definir os próximos passos.
Na opinião do sindicalista, a MP que proíbe os bingos foi uma decisão radical do governo. “É preocupante. Foi uma medida trágica, brusca, não sei se o caminho deveria ser esse”, diz. Segundo Andrade, a relação do sindicato com os proprietários de bingos é tranqüila. “É uma área com pouca briga”, afirma.
A subdelegada do Ministério do Trabalho (MT) em Bauru, Maria Rita Maringoni, declara que, se caso houver demissão em massa no setor, os empresários do bingo deverão pagar os valores rescisórios a exemplo de uma empresa comum. “Isso é risco da empresa”, diz.
De acordo com a subdelegada, o MT pode mediar individualmente algumas demissões caso seja necessário postergar homologações. “Se não tiver como (pagar toda a rescisão), teria de ser feito um termo de ajustamento de conduta, tentar algum acordo com o Ministério Público do Trabalho ou em juízo”, afirma.
30 dias
Entre os trabalhadores, o clima é de ansiedade e tensão. Apesar das férias coletivas indicarem intenção dos proprietários em evitar demissões, a espera por uma definição pode ser prejudicial para os cofres dos bingos. “Até os 30 dias dá para a gente segurar. A partir daí, fica difícil”, afirma o gerente do Bingo Cidade, José Augusto Batistella.
Segundo ele, a casa emprega mais de 70 funcionários, com salários médios de R$ 500,00. “A preocupação é geral. Não temos uma posição concreta do governo, se realmente vai ser aprovada a MP, se vai haver alguma rejeição, alguma emenda”, diz. E acrescenta: “A gente permanece no escritório atendendo aos funcionários, na medida do possível ajudando alguns até financeiramente”.
Batistella afirma que a maioria dos trabalhadores na casa é casada ou tem família para sustentar - inclusive ele. “Eu tenho família, dependo desse emprego. Não tenho outra fonte de renda a não ser essa”, diz. Segundo o gerente, dois ônibus de Bauru devem seguir para São Paulo na segunda-feira, com o objetivo de engrossar o protesto contra a MP. Funcionários de bingos de Jaú, Pederneiras, Marília e outras cidades da região também devem participar.
Uma outra funcionária do Bingo Cidade, que preferiu não se identificar, afirma que os trabalhadores estão apavorados. “Não sabia que ele (o presidente Lula) ia levar o negócio ao pé da letra. O pessoal está apavorado”, diz. E questiona: “E se não reabrir? Conseguir emprego não está fácil”.
____________________
'Caixinha'
Maurílio Rodrigues Dias, 28 anos, conta que construiu “carreira” no setor de bingos, onde trabalha desde 1996. Foi gerente durante três anos do Bingo Plaza e hoje trabalha como uma espécie de consultor. Segundo ele, a renda de um vendedor de cartelas de bingo pode chegar na casa dos R$ 1.400,00 mensais.
Além do salário médio de R$ 500,00, o que engorda o rendimento são as caixinhas deixadas pelos freqüentadores. “Um cliente de mesa que bate um bingo de R$ 80,00, no mínimo é R$ 5,00 que o vendedor recebe de caixinha”, declara. Além de vendedores, as casas de bingo empregam garçons, copeiros, seguranças e locutores.
Dias critica a Medida Provisória (MP) que proíbe os bingos e espera que haja logo uma regulamentação para evitar o uso das casas para práticas ilícitas, como lavagem de dinheiro. “Está todo mundo em casa aguardando a boa vontade de alguém em Brasília, que ponha a mão na consciência para tentar criar um órgão que fiscalize, que regulamente o setor, para separar o joio do trigo”, declara.