O pesquisador francês Jean-Pierre Pommereau, 56 anos, é um dos integrantes de uma equipe internacional que está em Bauru desde o começo deste ano para realizar pesquisas sobre o impacto ambiental do óxido de nitrogênio liberado pelas descargas elétricas durante as tempestades tropicais e pelas turbinas de aviões. Os cientistas, vindos dos Estados Unidos, Alemanha, Suíça, Inglaterra, Rússia, Itália, França, Dinamarca e Noruega, entre outros, estão sediados no Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e também na base aérea de Gavião Peixoto.
Pommereau explica que o projeto Hibiscus teve início em 1995, mas somente em 2001 a Comissão Européia de Pesquisas forneceu recursos para que os cientistas pudessem vir até Bauru e dar seguimento aos estudos. Atualmente, um grupo de 60 pesquisadores vem realizando o lançamento de balões estratosféricos equipados com aparelhos de medição, que vão permitir que os cientistas analisem a emissão de óxido de nitrogênio durante as tempestades e verificar se os impactos deste fenômeno podem ser prejudiciais ao planeta.
Nesta entrevista, o pesquisador francês comenta ainda sobre as mudanças no clima, a emissão de gases poluentes, o Protocolo de Kioto e o que a população pode fazer para não piorar a situação ambiental da Terra.
Jornal da Cidade - Por que Bauru foi escolhida para sediar os projetos?
Jean-Pierre Pommereau - Esta é uma cidade onde encontramos uma situação ideal, localizada entre os trópicos e subtrópicos, para lançarmos os balões de vôos longos, que chegam ao Pacífico, à Austrália. Temos aqui também uma grande quantidade de tempestades com raios, que permitem que estudemos se há interferência das tempestades na atmosfera. Isto tem a ver com o transporte vertical. E por último, temos a infra-estrutura necessária que não encontramos em outros locais, com a operação dos radares de Bauru e de Presidente Prudente. É importante ter as imagens dos radares para verificar onde estão as tempestades e o quão intensas elas são. Os pesquisadores procuram situações muito específicas. Por exemplo, onde há tempestades que possam ser sobrevoadas pelos balões, e os radares dão essa visão. Os projetos são muito amplos e aprofundados, envolvendo muitas pessoas, equipamentos, transporte, tecnologia. E o sucesso é difícil de ser alcançado, de vez em quando falhamos. Mas nós começamos. Estamos lançando os balões, estamos medindo os níveis na estratosfera e levando os trabalhos em frente.
JC - Por que a comunidade científica se preocupa com as tempestades de raios?
Pommereau - Primeiramente, para saber como alguns elementos químicos estão adentrando a estratosfera. Ela é muito seca, mas por razões ainda completamente desconhecidas, a quantidade de vapor d’água na estratosfera vem aumentando. Suspeitamos que alguma coisa que ocorre na atmosfera está causando este fenômeno, que é extremamente alarmante. O aumento do vapor d’água muda drasticamente a temperatura ao redor do planeta.
Todos os elementos químicos que estão destruindo a camada de ozônio, incluindo os buracos na Antártica e no Ártico, são lançados da superfície. Parte deles são provocados pelo homem, como os CFCs (cloro-flúor-carbono), metano, dióxido de carbono. E existem os óxidos de nitrogênio, que são produzidos por todos os motores - de carros, aviões, usinas - e que são quimicamente muito ativos. Em reações, eles produzem ozônio e são responsáveis por muitas mudanças na atmosfera. Mas estas substâncias também são produzidas naturalmente pelas tempestades de raios. E não sabemos o quanto é produzido pelos raios. Se a produção natural dos óxidos for maior do que a produzida pelo homem, não há porquê se preocupar. Mas se for menor, isto significa que as substâncias encontradas na atmosfera foram provocadas pelo homem e que nós estamos prejudicando o planeta. Mas não sabemos até agora. E com as pesquisas nosso objetivo é mensurar o quanto destas substâncias é produzido naturalmente. O transporte vertical das substâncias (da superfície para a estratosfera) ocorre muito rapidamente. Por isto, um dos balões com o qual trabalhamos é lançado exatamente dentro das tempestades. Assim, saberemos quanto está sendo emitido diretamente da superfície.
JC - Todos os anos, a população sente mudanças no clima, nas estações do ano. Temos cada vez mais dias de calor no inverno, por exemplo. Qual a relação disto com a emissão de substâncias poluentes?
Pommereau - Isto é a evolução da atmosfera com as mudanças globais. Sabemos que o planeta está mais quente devido às emissões de dióxido de carbono (CO2) e deve ficar mais quente no futuro, mas não sabemos exatamente a causa. Temos noção que a temperatura dos oceanos vai aumentar, o que provocaria maior evaporação de água e por conseqüência, mais chuvas. Assim, o transporte vertical também sofrerá crescimento e os raios também. Mas no momento, ainda não somos capazes de monitorar e controlar isto. Não são fenômenos locais, não adianta focarmos os estudos sobre Bauru ou Paris, pois são situações globais. Quando emitimos CFC na Inglaterra, a camada de ozônio é destruída na Antártica. Quando os Estados Unidos emitem dióxido de carbono, o impacto pode ser o aquecimento das águas do Oceano Pacífico. Se temos oito milhões de motores emitindo metano, o Alaska pode sofrer conseqüências. Não se pode isolar as peças, as regiões da Terra, pois todas sofrem as conseqüências, e é por isto que as pesquisas devem ser realizadas de forma global.
JC - Qual é a atual situação da camada de ozônio? Nós continuamos a destruí-la?
Pommereau - A cada ano, nota-se a redução do ozônio. Mas a diminuição ainda não é muito grande. Em 20 anos, notaram-se perdas localizadas de 6% a 7%, porém isto significa aumento de 12% a 14% nos raios ultravioletas (UV) que chegam à superfície. Além do câncer de pele, você também prejudica a vegetação, que sofre mutação com o aumento dos raios UV.
O que os cientistas vêm discutindo internacionalmente é que devemos parar agora com a queima de combustíveis e o desperdício de energia. As emissões de CFC já foram interrompidas pelos governos no final da década de 1990, mas o ozônio só deve parar de sofrer as conseqüências das emissões por volta de 2040 ou 2050, e isto considerando que o clima não mude. Somente depois disso, a camada de ozônio vai conseguir se restabelecer, quando o CFC desaparecer da atmosfera.
Agora, encaramos o mesmo problema com o dióxido de carbono e metano. Temos que convencer os governos e a população a mudar a forma como os combustíveis vêm sendo consumidos. É uma questão muito importante, abordada pelo Protocolo de Kioto, mas os Estados Unidos não o assinaram, a Rússia não assinou, entre outros. De longe, os mais importantes seriam os Estados Unidos, que são os maiores produtores destas substâncias.
JC - E qual a sua opinião sobre a decisão americana de não assinar o Protocolo de Kioto?
Pommereau - Eu conheço cientistas americanos que têm consciência de que seu país vai ter de assinar algum dia, e que os Estados Unidos devem reduzir o uso de petróleo como combustível. Mas a curto prazo, se eles querem ser relutantes, devem tomar esta decisão. Estamos pensando 50 anos adiante, e eles, seis meses, até a próxima eleição. Não estamos no mesmo tempo. Enquanto os cientistas pensam a longo prazo, os assessores do (George W) Bush não querem desagradar ninguém para que ele seja reeleito.
JC - E o que nós, pessoas normais, podemos fazer para tentar ajudar ou pelo menos não piorar a situação do planeta?
Pommereau - A chave é consumir menos energia, menos combustível. Todos sabemos que energia é necessária, mas você pode ter um carro pequeno para andar na cidade, ao invés de uma caminhonete 4x4. Outro aparelho que também consome muita energia são os aparelhos de ar condicionado, principalmente os grandes prédios que têm um aparelho central. Existem cidades onde você não consegue viver sem ar condicionado, mas há outras, como por exemplo, na Europa, onde você tem cinco dias muito quentes, mas no resto do ano, você não precisa! Os arquitetos devem renovar suas idéias para projetos inovadores, onde você não precise de tanto gasto de energia.
E mesmo porque especialistas dizem que o planeta tem petróleo para mais 50 ou 100 anos, se o consumo continuar como é feito hoje. Por isso, temos de aprimorar idéias para os equipamentos e veículos que podem ser usados sem combustível de petróleo. Os aviões não conseguem voar sem combustível de petróleo, mas os carros podem ter outras alternativas.