Política

Política precisa de espírito público

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 7 min

A presença do político com espírito público na história do Brasil praticamente inexiste. Com raras exceções, os representantes eleitos para exercerem mandatos voltados aos interesses da coletividade se prestam ao serviço de atender setores segmentados de uma elite que chegou no País com a Corte de Dom João VI e permanece impregnada no poder até os dias de hoje. A análise é do professor da disciplina de História da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Maximiliano Martin Vicente.

O trato da coisa pública no Brasil ainda é feito sem critérios. O dinheiro arrecadado dos impostos é aplicado no caminho de ralos que consomem o herário público sem apresentação de resultados práticos que favoreçam a sociedade como um todo. O cofre público representa um caixa forte alheio, sem dono, apossado pelos detentores de mandatos preocupados em atender a interesses particulares ou em grupos em detrimento da coletividade.

Para o professor da Unesp, nessa situação prevalece o fisiologismo, a falta de ética, de caráter e de compromissos sociais. “Eu, enquanto político, aproveito de uma situação na qual a sociedade não está preparada. E aí se cria uma dependência que é justamente o oposto do espírito público”, afirma Vicente. Na avaliação dele, pode-se afirmar que os políticos brasileiros não têm noção do que é espírito público.

“Temos avanços significativos”, reconhece. “Mas no conjunto, na totalidade, não chegamos nem mesmo no início do que é uma noção de espírito público. Basta pegarmos a trajetória do nosso País. É uma trajetória de elite. Na última Constituição, de 1988, é que se é aceito o voto universal. Quer dizer, se você não sabia ler não podia votar. O que é isso? Só faltava voltarmos à época da escravidão. Ainda temos muitas feridas abertas. Na verdade, não há interesse de se abrir mão de privilégios”, avalia.

A expressão espírito público é tão antiga quanto a história do homem contemporâneo. Surgiu na Grécia porque os assuntos de interesse da coletividade eram discutidos em público. Com a formação do Estado moderno, no século 18, o espírito público ficou sujeito a visões diferenciadas.

“Surgem os partidos, as tendências. E cada um tem uma visão do que é estar a serviço do público. Surgem as ideologias, o confronto do marxismo com o capitalismo. No século 20, chegamos a um ponto muito delicado. A partir da década de 70, há um consenso de que o público é o global, é o mundo”, conta Vicente.

Para ele, a Constituição de 88 limita demais as funções do Poder Legislativo. “O Legislativo, que é a instância que poderia provocar o debate, está atrelada a uma série de funções que impedem uma discussão mais particular do cotidiano, do que é a pertinência da cidade no seu dia-a-dia”, analisa.

Movimento mundial

Mas o Brasil não é o único País a ter carência de políticos com espírito público. Na opinião do professor de Filosofia da Universidade do Sagrado Coração (USC), Carlos Alberto Albertuni, essa constatação faz parte de um movimento da política moderna mundial. “Nem sempre é claro para a coletividade a diferença entre o público e o privado. Isso se reflete nas atividades do político profissional. Hoje, a esfera pública, numa sociedade capitalista, está a serviço do privado”, analisa.

Nesse contexto, basta observar os pretendentes a cargos políticos, muitos dos quais interessados apenas na sobrevivência. “Muitos acabam encarando a política, o serviço público, como um espaço para ter o seu sustento, a sua sobrevivência, na qual exercerá uma profissão voltada para a sua vida particular, para atender a seus interesses”, diz.

Albertuni avalia que a cultura brasileira sempre entendeu a política apenas como uma atividade exclusiva dos políticos. “A política não é entendida no Brasil como uma atividade de todo cidadão que participa de uma sociedade democrática. Por isso, podemos falar que estamos mesmo carentes de políticos que tenham espírito público.”

Ao traçar um perfil de um político ideal para a sociedade moderna, o professor aponta as qualidades. “Acima de tudo, acho que ele deve ser virtuoso. Deve ter um comportamento ético. Ele é uma das grandes referências educativas da população. A virtude máxima é a da justiça. Um político ético é aquele que exerce suas atividades tendo como horizonte maior a idéia da justiça. Um bom político deve ter a sabedoria, a sensibilidade diante dos problemas sociais”, finaliza.

Para políticos, País tem noção de espírito público

Na avaliação de alguns dirigentes políticos, a representação política no Brasil tem noção do que é espírito público. Eles reconhecem, porém, que no universo da classe não são todos que estão revestidos dentro da filosofia do espírito público, com intenções voltadas para atender o interesse da comum.

O vice-prefeito Dudu Ranieri (PFL), há 25 anos no convívio do mundo político, diz que tem experiências comprovadas de que nem sempre o interesse do coletivo está em primeiro lugar.

“Muitos só entram na política para resolver problemas particulares, individuais. Não é fácil ter espírito público. Isso demanda um altruísmo muito elevado. No Brasil, existe uma pequena porcentagem de políticos que está preocupada com a coletividade”, afirma.

Dudu conta que quando assumiu a Prefeitura de Bauru por um breve período no ano passado foi procurado por muitos vereadores interessados em indicar apadrinhados para os cargos comissionados. “Muitos não estão preocupados com a comunidade. Se tivessem, não fariam isso. Quer dizer, vai se onerar o herário público para resolver problema de ordem pessoal de uma minoria?”, questiona, em tom de crítica.

Mas a expressão espírito público tem significado de abnegação para alguns representantes políticos. É o caso de Estela Almagro, presidente da executiva municipal do PT. “É uma doação. Você passa a ser responsável não só pela sua vida e pelas suas demandas pessoais. O político lida com aquilo que não é seu. Portanto, é preciso muito zelo. Daí o pensamento e o compromisso de que os recursos são indispensáveis para milhares de pessoas.”

Na análise da dirigente petista, há, no Brasil, uma lista de pessoas que se enquadram nesse perfil mas que ainda não se dispuseram a disputar os Poderes Executivo e Legislativo. “Fora das esferas do poder, há muitos cidadãos que se acham simples demais ou ocupados demais com seus afazeres que são dotadas de espírito público”, diz.

Já o presidente da executiva municipal do PPS, Rubens de Souza, prefere personificar a expressão espírito público. “Acho que um político que resume bem essa expressão é o ex-deputado federal Ulysses Guimarães. Foi uma pessoa coerente, ética, transparente.”

Fala Povo

Quais são as qualidades

que um político com

espírito público deve ter?

“Honestidade, competência – Bauru, por exemplo, precisa muito – e dinamismo. Se avaliarmos bem, nós não temos políticos com esse perfil.” (Sandra Helena Rossi Pollice, professora)

“Tem que ser honesto, o que é muito difícil hoje. Trabalhador acima de tudo. Deve levantar de madrugada. E trabalhar para a sociedade, ter espírito público.” (Celso Lamônica, aposentado)

“Primeiro, a honestidade. Depois, acho que ele tem que ser uma pessoa de credibilidade. Aliada a essas duas características, cumprir corretamente aquilo que prometeu.” (Fabiano Garcia de Oliveira, promotor de vendas)

“O compromisso com a população é importante. Honestidade, empreendedorismo e muito espírito social. Tem que ser uma pessoa sensível aos problemas da comunidade.” (Léia Berriel Mercadante, aposentada)

“Sinceridade, determinação e honestidade, que, na minha opinião, é o que está faltando. Bauru é uma cidade carente de bons políticos.” (Elisangela da Costa Machado, promotora de vendas)

“Todo político deveria ter caráter em primeiro lugar. Tem que olhar pelo povo e não para interesses particulares, o que ocorre muito hoje na política brasileira”. (Rubens Fernando Saraiva, aposentado)

“A mais importante para mim é a honestidade. Depois, trabalhar para a comunidade e não para si próprio.O cara tem que ser empreendedor, administrador.” (Juraci Silva Filho, autônomo)

“Na minha opinião, a principal é a honestidade, fidelidade com os compromissos assumidos e, imprescindível, o seu caráter.” (Marcela de Almeida, enfermeira)

Comentários

Comentários