Cultura

A arte de construir

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

O arquiteto Riad Elia Said diz que está realizando um sonho de 33 anos com o lançamento do empreendimento residencial Arte Brasil de sua construtora. O projeto prevê a construção - num prazo de quatro anos - de duas torres de 25 andares cada, que homenageiam duas das maiores pintoras da história da arte no Brasil: Anita Malfatti e Tarsila do Amaral. A idéia de buscar inspiração modernista para suas obras vem desde os temos em que era aluno de pós-graduação na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, conta o arquiteto, formado pela Universidade Libanesa de Beirute, que é fascinado pelo movimento artístico de 1922. A seguir, ele fala sobre a obra e suas influências.

Jornal da Cidade - Quando surgiu a idéia de criar uma obra com inspiração na Semana de Arte de Moderna de 1922?

Riad Elia Said - Essa idéia existe na minha mente há 33 anos, desde a época em que eu fiz um estudo sobre a arquitetura no Brasil, na FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo), em São Paulo. Vim para o Brasil como ganhador de uma bolsa de estudos para realizar minha pesquisa de pós-graduação. Era um estudo comparativo de uma cidade brasileira com uma libanesa. Estudei um pouco de arte brasileira e a Semana de Arte Moderna de 1922 me chamou muito a atenção.

JC - Por quê?

Said - Foi uma metamorfose uma passagem da coisa acadêmica, copiada dos moldes europeus para uma coisa nacional, brasileira. Me interessei e comecei a estudar o tema com mais profundidade. Cada vez eu sentia mais a integração não só do ponto de vista artístico e arquitetônico, mas também literário, musical... Foi o movimento mais marcante da arte no Brasil. Tem outro detalhe, a semana foi realizada em fevereiro de 1922, então o Brasil já estava comemorando o centenário da independência. É uma coincidência porque os críticos consideram o que aquela moçada fez no Teatro Municipal de São Paulo o grito da independência da arte brasileira.

JC - O que o atraiu na Semana de Arte Moderna de 22?

Said - Simpatizei com o movimento modernista porque ele visa mais que uma ruptura, visa uma evolução com a vanguarda européia na arte mas com a presença genuinamente brasileira. Quem começou isso tudo foram Anita Malfatti, Mário de Andrade, Oswald, Brecheret, Di Cavalcanti, Villa-Lôbos, entre outros. A Semana reuniu os mais famosos. Nós buscamos nessas duas pessoas, Anita Malfatti, que já tinha idéias modernistas bem antes de 1992, e Tarsila do Amaral, que não participou diretamente da Semana, mas que depois se integrou e passou a ser considerada um dos pilares do movimento de 1992, a inspiração para o nosso empreendimento.

JC - Por quê as duas?

Said - Primeiro por serem duas famosas artistas que praticamente mudaram o conceito de arte no Brasil. Depois porque acreditamos que arte é cultura, arquitetura é cultura. A nossa proposta com o Arte Brasil, que é uma homenagem a essas duas artistas, é mostrar uma evolução, uma transformação, um empreendimento com aspecto escultural por fora e um conteúdo que expressa conforto e segurança.

JC - Por quê duas mulheres?

Said - É também uma forma de homenagear a mulher brasileira através dessas duas artistas. Todo mundo homenageia os homens, escolhemos duas mulheres de propósito.

JC - O projeto tem influência de alguma obra especificamente?

Said - Ele apresenta essa influência nas cores, na sinuosidade, no volume. O seu volume não é puramente redondo ou quadrado, é uma composição artística que une os dois volumes. Não é um empreendimento como se costuma ver, que tem uma linha reta em todos os elementos. De certa forma o desenho até lembra corpos humanos de braços abertos. É uma maneira de mostrar que a arte e a arquitetura se alinham diretamente ao social.

JC - O que faz uma obra ser considerada moderna?

Said - Quando o projeto é feito em bases firmes de concepção, a obra sempre vai se apresentar como atual. Nem digo moderno porque depois do moderno vem o pós-modernismo e os conceitos vão evoluindo. Mas o importante é essa atualidade, porque significa que a obra foi feita baseada em dados da região, no clima, nos costumes... Até porque a maneira como se pensa um apartamento, por exemplo, hoje, é diferente de como se pensava há 10 anos, há 20 anos. A tecnologia muda, os costumes mudam, a época pode mudar, a concepção arquitetônica é que precisa ser definida. Por isso é importante que o arquiteto pense a frente do seu tempo, pense quais são as tendências nas grandes metrópoles. É preciso oferecer sempre as coisas mais modernas, mais atuais. O nosso propósito no Arte Brasil é não só ser moderno, mas ficar sempre atual e, se possível, duradouro, eterno.

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