Saúde

Reciclagem ainda é restrita no País

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

A melhor maneira de reduzir os riscos de contaminação por mercúrio, segundo o pesquisador Amauri Gouveia Júnior, é incentivar a reciclagem dos produtos que o contêm. A legislação já obriga que isso seja feito em alguns setores, mas ela não abrange todos os equipamentos.

Representante do Instituto Ambiental Vidágua, o vereador Rodrigo Agostinho comenta que o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) publicou em 1999 uma resolução estabelecendo limites máximos para a quantidade de mercúrio em pilhas e baterias e determinando que o descarte destes produtos não poderia ser feito em lixo comum.

O problema é que a resolução não especifica certos itens, o que tem gerado alguns impasses. Na prática, cada município deve regulamentá-la conforme suas necessidades. Para evitar problemas, algumas indústrias até alteraram a composição de seus equipamentos.

“É o caso das pilhas normais. A maioria não tem mais mercúrio. Se você olhar a embalagem, vai ver que há um alerta nesse sentido, dizendo, inclusive, que as pilhas podem ser descartadas em lixo doméstico comum”, comenta Agostinho.

Mas para Gouveia Jr., se por um lado o País evoluiu no setor das pilhas e baterias, ele falhou na crise da energia elétrica, quando a população foi orientada a substituir lâmpadas comuns pelas fluorescentes, que consomem menos energia. Elas contêm mercúrio metálico a vapor.

“Quando uma lâmpada dessas se quebra, o mercúrio cai na atmosfera e se torna fonte de contaminação. O correto seria reciclar essas lâmpadas. No entanto, só existe uma empresa dessas no Brasil, que recicla apenas 800 lâmpadas por dia”, destaca o pesquisador.

Procurado pela reportagem, o titular da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), Luiz Pires, afirma que Bauru não dispõe de um local apropriado para depositar essas lâmpadas.

“Infelizmente, não temos um aterro específico para destinar esse material contaminado e ele acaba sendo recolhido como lixo comum”, lamenta.

O diretor do Departamento de Ações e Recursos Ambientais da Semma, Carlos Alexandre Barbieri, acrescenta que, por lei, cabe ao fabricante de produtos contaminantes recolher e tratar produtos com potencial tóxico. Na prática, porém, essa regra ainda precisa ser aprimorada.

“O correto seria o consumidor devolver o produto ao vendedor, mas sabemos que isso não acontece. O município não tem obrigação de recolher esse lixo, mas é algo em que se precisa pensar, porque também não temos interesse em deixar que isso vá para o aterro sanitário comum”, pondera.

Na opinião de Gouveia Jr., para mudar desse cenário é necessária uma mobilização social. “As pessoas fazem campanha para tudo. Deveríamos fazer uma campanha pela reciclagem dessas lâmpadas também”, sugere.

Enquanto isso, ele recomenda que as pessoas tenham cuidado ao manusear qualquer equipamento que contenha mercúrio. “Em caso de quebra ou vazamentos, abra a casa para ventilar e deixe o local por algum tempo. Depois, limpe o chão com um pano úmido (para não levantar resíduos) e usando luvas para evitar absorção”, encerra.

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Acidentes históricos

A contaminação por mercúrio pode acontecer nos mais diversos graus e regiões. Mas alguns acidentes ganharam grande repercussão na história. Um dos casos mais conhecidos, segundo o pesquisador Amauri Gouveia Júnior, foi o da baía de Minamata, no Japão.

A cidade de Minamata abrigava a maior indústria de plásticos do País. A fabricação de seu principal produto - o cloreto de vinila, usava sais de mercúrio catalisadores. Os resíduos destes produtos eram lançados diretamente nas águas da baía de Minamata em enorme quantidade.

Por volta de 1953, começaram a surgir, numa comunidade de pescadores da região, muitos casos de uma doença incomum, batizada de doença de Minamata. Somente seis anos mais tarde pesquisadores identificaram o metilmercúrio como causador da doença.

De acordo com o livro “Toxicologia do Mercúrio” (Editoras RiMa e InterTox, 2003), o resultado final desse desastre foi de aproximadamente 150 toneladas de mercúrio lançadas na baía de Minamata durante quatro décadas. Alguns estudos apontam números ainda maiores, chegando à estimativa de 600 toneladas.

“Nos anos 60 e 70, danos cerebrais crônicos, retardo mental, distúrbios no desenvolvimento, danos hepáticos, hipertensão e distúrbios metabólicos foram cada vez mais observados em filhos de mães que ingeriram peixes contaminados”, cita o autor, Fausto Antônio de Azevedo.

Segundo ele, até 1984 haviam sido oficialmente documentados 2.578 casos da doença de Minamata pelo Japão, com 656 mortes.

No Brasil, a corrida do ouro no século 17 é citada como um dos principais episódios de contaminação por mercúrio. O metal tem grande capacidade de ligar-se a outros metais preciosos, separando-os facilmente de outros sedimentos.

O livro aponta que o Brasil era o principal produtor mundial de ouro naquela época. Sabendo disso, cerca de 600 mil garimpeiros invadiram o Norte brasileiro na década de 1970. Em 20 anos, o garimpo na região pode ter liberado 3 mil toneladas de mercúrio para o meio ambiente. A quantidade do metal despejada nos rios equivale ao dobro da quantidade de ouro extraída. O uso do mercúrio nos garimpos foi proibido no Brasil em 1988.

Nos Estado de São Paulo, uma das pesquisas mais conhecidas demonstrou, entre 1978 e 1979, a presença de mercúrio nas águas do rio Mogi-Guaçu em níveis superiores aos fixados para preservação da vida aquática.

Em 1998, análises de sedimentos do rio Cubatão realizadas pelo Greenpeace também evidenciaram presença de mercúrio em grande quantidade. De acordo com o livro, uma indústria da região chegou a ser processada pela contaminação do mangue local por mercúrio.

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