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Saúde oculta morte por leishmaniose

Luciana La Fortezza
| Tempo de leitura: 3 min

A Secretaria Municipal de Saúde ocultou por quase quatro meses a informação sobre a primeira morte por leishmaniose visceral em Bauru. Sob a alegação de evitar o alarde da população, a administração municipal não divulgou que José Carlos Weckwerth morreu no dia 7 de novembro do ano passado em decorrência da doença. A alegada cautela da prefeitura foi criticada por fontes ouvidas pelo JC, inclusive pela família da vítima.

“Eu gostaria de saber por que a morte não foi divulgada. A população foi enganada. Ninguém quer dar a cara para bater”, dispara Ana Rúbia Weckwerth, filha de José Carlos. Foi ela quem levou a público a morte do pai que, aos 47 anos, sucumbiu à doença uma semana após ter a leishmaniose diagnosticada.

Desde o ano passado, 14 casos da doença foram registrados em Bauru, sendo que os dois últimos foram confirmados na semana passada. A moléstia é transmitida a cães e humanos através da picada do mosquito palha infectado. Em humanos ela tem tratamento, mas pode levar à morte porque debilita o sistema imunológico do paciente.

“Ele estava acometido de uma doença de base importante (como diabetes ou hipertensão, por exemplo), que o deixou ainda mais debilitado. O quadro resultou na morte. Não divulgamos para não criar pânico, já que a situação epidemiológica do bairro não é preocupante”, explica o secretário municipal da Saúde, Hanna Saab.

José Carlos tinha um cão e era morador do Jardim América, onde nenhum outro caso da doença em humanos foi registrado. Na época, o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) coletou 106 amostras de sangue de cães, mas todos deram negativo. O cão de José Carlos não foi submetido a testes, informa Ana Rúbia.

Atualmente, os exames em cachorros, além da vistoria do meio ambiente e o trabalho educativo, estão concentrados no Jardim Manchester e Parque Santa Teresinha, região onde mora uma criança de 7 anos que também contraiu a doença na semana passada.

História

“Todos os outros pacientes estão bem. O problema (no caso de José Carlos) não foi a leishmaniose. Ela veio para agravar o caso”, ressalta Saab.

José Carlos sofria de diabetes, confirma a própria filha. Porém, garante ela, a doença era rigorosamente controlada. “Ele não tinha problema no coração, por exemplo. No atestado de óbito consta parada cardíaca, distúrbio metabólico e leishmaniose visceral. Talvez se a doença fosse identificada antes, ele não tivesse morrido”, desabafa Ana Rúbia.

Segundo ela, José Carlos começou a apresentar os primeiros sintomas - como febre e inchaço na barriga - no final de setembro, mas quando procurou assistência médica foi informado de que sofria de problemas nas vias respiratórias. Só em meados de outubro ele foi internado no hospital Manoel de Abreu, porém, os médicos não conseguiam identificar a doença que o acometia.

“Não dava nada nos exames. Ele começou a ter hemorragia no intestino e tomou uns 40 litros de sangue. Só quando repetiram o exame é que a leishmaniose foi constatada. Fomos informados (da doença) depois dele ter sido internado na unidade de terapia intensiva (UTI), no final de outubro. Se o médico fosse mais atencioso no primeiro atendimento, talvez a história fosse diferente”, reitera Ana Rúbia.

Quanto mais tarde o diagnóstico, mais prejudicado o tratamento de qualquer doença, confirma o infectologista Fernando Monti, que já tratou cerca de seis casos de leishmaniose em Bauru. De acordo com ele, o sangramento indica que a doença está num estágio mais avançado. No entanto, se o paciente já é acometido por outra moléstia, suas chances de recuperação são menores, diz.

“Tudo vai depender de como o sistema imunológico reage. A leishmaniose é uma doença potencialmente grave, por isso, não cabe ao poder público omitir informações. É obrigação dele divulgar (casos da doença e mortes provocadas por ela), sem transgredir o direito de privacidade do doente”, defende Monti.

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