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Mortadela


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Já deu um filme com Sofia Loren, dirão os mais antigos - como eu. Eu sei. Vi e adorei. Sofia Loren foi, e é, um dos ícones de meu tempo de moleque. Falo da mortadela por ser um “prato” que, acredito, fosse melhor explorado, seria um dos mais pedidos em restaurantes e lanchonetes do País. Mas, e infelizmente, é visto (ainda) como “coisa de pobre”. E não é. De jeito nenhum. Lembro-me de minha mãe enfiando um sanduíche de mortadela em minha lancheira, ainda no antigo primário. Quando botava também um ovo frito, o lanche ficava muito melhor, mesmo frio. Em meus primeiros meses de São Paulo, grana contada, eu apelava para o “sanduba” de mortadela frita com cebola picada, quando não tinha os trocos para o hambúrguer, com queijo e salada.

Há uns 10 ou 15 anos, eu tinha uma Vespa e, mal saía do trabalho, pegava a avenida São João para ir para casa, mas, antes da esquina com a Ipiranga, parava num pérfido botequim, do lado esquerdo, para traçar um “sanduba” no respeito, de mortadela com muito queijo, cebola em rodelas, salsa e cebolinha. Hoje, aprendo pelas folhas da televisão que um botequim de rodoviária em Sorocaba (talvez tão pérfido como o da avenida São João), um dos maiores pólos econômicos do Estado de São Paulo, tem um “cardápio especial”, só com sanduíches “baseados” na velha e boa mortadela.

Uma opção, particularmente, me fascinou: inclui rúcula e tomate seco. Adoro uma e outro. Este, com esta peculiar combinação, como em uma pizza, ainda não provei, mas deve ser bom. Muito bom. Amigos e conhecidos dizem, debochados que são, que meu prato preferido é o fundo e cheio, independente do que contenham. Não é bem assim. Apenas aprecio comidas simples, mas não as renego quando preparadas com algum requinte, algumas frescuras. Aprendi que comida não se nega, é preciso “lamber” o prato, já que comida é uma dádiva. O Brasil é um País muito simples e é de simplicidade tudo o que a gente mais precisa para viver bem. A mortadela (não sei como é feita, falam em carne de cavalo, não me interessa - assim, como algumas leis, melhor não saber), dizem-me, vem da Itália, talvez venha. Sua origem também não me interessa.

Sei apenas que me satisfaz o apetite. Sei ainda que, apesar de desprezada, é também uma fonte de prazer e sustância da massa trabalhadora. A mesma massa que, apesar de apenas alguns poucos (geralmente magnatas) serem glorificados, é a massa que faz crescer este meu amado, “idolatrado salve-salve” e querido (e tão menosprezado) País. Falo da mortadela, mas poderia falar de qualquer outro prato consumido aqui; melhor, não. O leitor sabe o que pretendo dizer. Já me basta.

O autor, Diorindo Lopes Júnior, é jornalista e autor de “O Sol em Capricórnio” e “Cesta de 3”.

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