Tribuna do Leitor

O ex-presidente e o saxofone


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Confesso que até há algum tempo eu ficava intrigado e surpreso quando via pela tv e jornais o então presidente americano Bill Clinton tocando saxofone, em eventos sociais ou como deleite. Aquilo me encabulava pois sempre achei bonito e exemplar o presidente da mais rica nação do mundo encontrar longos minutos para tocar com maestria, segundo críticos, um instrumento muito apreciado como é o caso do sax. Não é caso comum porque é sabido que o domínio e a sensibilidade são fatores fundamentais para que qualquer instrumento seja bem tocado. E, via de regra o político, muitas vezes tenha sensibilidade dificilmente tem tempo para esse domínio. E fiquei mais encabulado ainda quando vi uma foto do candidato Dean que disputa as primárias americanas, também tocando violão. Essas dúvidas foram dissipadas e passei a entender por que tal fato acontece quando eu e esposa fomos passar o Natal em Minneapolis, Estado de Minnessota, com a família de nossa filha em um período que, apesar do frio terrível, das inches de neve e muito gelo, as escolas públicas e particulares funcionam normalmente. Naquele estado e nos outros em que o inverno é rigoroso as escolas funcionam no inverno e as férias ocorrem no verão. Nos vinte e três dias que lá passamos assistimos maravilhosos concertos públicos e religiosos de corais com cantos natalinos e ainda à apresentação da banda na escola intermediária de 5.ª à 8.ª série, onde um de nossos netos estuda e na qual toca trompete. Essa banda formada por uns oitenta alunos regida por um versátil e jovem professor maestro ao qual cumprimentei - e que ganha vinte e seis dólares por hora - desdobrava-se em conjuntos de câmara e jazz. Fiquei sabendo então que no currículo das escolas americanas intermediárias e high school, naquele estado como em outros é obrigatório o estudo da música, durante toda a duração do curso, e o aluno tem duas opções: o aprendizado de um instrumento ou canto. Tem liberdade de mudar de canto para instrumento e vice-versa, como mudar de um instrumento para outro até sua identificação. Mas o estudo é obrigatório e o aluno avaliado periodicamente. Naquela apresentação da banda da escola, alguns alunos apresentaram solos de violino, sax, bateria, trompete e piano arrancando aplausos dos pais e demais convidados presentes. Fiquei sabendo ainda que os instrumentos embora pertençam à comunidade podem ser levados para casa, sob responsabilidade da família, para os alunos praticarem. Comparando-se com a realidade brasileira constata-se que no currículo das nossas escolas existe a obrigatoriedade pela LDB do estudo das artes ou educação artística dentro de um campo do conhecimento humano muito abrangente. “O que estudar” com continuidade em artes ou educação artística, dentro e fora do horário escolar, eis um problema curricular da escola. Dentro desse vasto campo de conhecimento, poucas aulas de determinadas matérias, quase sempre levam a lugar nenhum. E a situação é ainda agravada pelos parcos recursos e excessiva centralização das escolas públicas. Como conclusão pode-se inferir que os nossos alunos não são menos capazes do que os americanos ou de outros países, mas sim de que faltam-lhes oportunidades para desenvolvimento de suas potencialidades artísticas! Quando será que cada escola terá a sua banda ou conjunto musical? E alguém menos avisado poderá questionar - e para quê? E eu proponho, e o que será do homem sem a música?

Professor Joaquim Eliseo Mendes

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