Tribuna do Leitor

Truques para ganhar uma eleição


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Segundo o jornalista Carlos Chagas, “truques para ganhar eleição, Jânio Quadros utilizou muitos. Para chegar a vereador, deputado estadual, prefeito e governador de São Paulo, não hesitava em espalhar casca de queijo ralado na cabeça e nos ombros, fingindo que era caspa, e nem tinha vergonha de interromper seus comícios, simulando fraqueza e quase desmaiando. Era hora de um auxiliar chegar perto com um sanduíche de mortadela, que ele comia avidamente na frente do povo, ou com uma injeção, que lhe era aplicada sob um simulacro de dor, para depois continuar o discurso. Tudo isso aproximava Jânio do povo. Tornava-o igual a qualquer um da platéia.

Vestia-se deliberadamente mal, com ternos muito largos do que o manequim, gola aberta, gravata desalinhada e, sempre que possível, meias trocadas. Porque o eleitor é danado, verifica tudo. E se um candidato está com um pé de meia preta e outro azul, é o máximo para a massa, que por necessidade obriga-se muito a isso.

No inverno, pedindo votos, queixava-se de frio, mas não usava agasalhos, identificando-se outra vez com o eleitor médio. Costumava-se, até, revelar-se tuberculoso. Bebia tudo o que lhe davam, da cachaça ao café requentado, a cerveja e o suco de frutas.

Os maiores truques de Jânio Quadros, porém, não se referiam à forma cômica como se apresentava, mas ao conteúdo do que transmitia. Foram utilizados em maior intensidade, quando, em 1960, candidatou-se à presidência da República, obtendo 6 milhões de votos num eleitorado de pouco mais de 11 milhões.

Se comparecia a um comício numa cidade do interior de São Paulo, Paraná ou Rio Grande, onde o público era majoritariamente classe média, simples e puritano, Jânio dava a impressão de ser um daqueles monges da inquisição. Pedia o fogo eterno para os ladrões, confundia todos os funcionários públicos com criminosos, falava em inesquecíveis vassouradas que daria na Previdência Social, no Banco do Brasil, nos ministérios e no serviço público em geral.

Anunciava comissões de inquérito para botar na cadeia os gatunos da coisa pública e não se esquecia de pregar uma reforma nos costumes, o fim da pornografia, da licenciosidade, do jogo e do desrespeito aos velhos. Era aplaudido até o paroxismo. Tinha gente que babava, urrava e até zurrava, exigindo logo a ditadura.

Saindo dali, já que visitava de três a quatro cidades por dia, num velho DC3 cedido pela Varig, o candidato ia falar a um auditório onde predominavam operários. Transfigurava-se. Parecia um comunista de carteirinha, prometendo a imediata revolução dos trabalhadores.

Dali, muitas vezes, deslocava-se para um almoço com representantes das classes produtoras, hora de recolher recursos para a campanha. Nova mutação. Era, agora, um capitalista de carteirinha. Só admitia as leis do mercado, a livre concorrência. Apresentava-se como a única opção para evitar o comunismo no país, e cobrava caro, prometendo o nirvana para o empresariado.

Não raro a próxima parada era uma concentração de estudantes, numa faculdade ou centro acadêmico. Outra vez funcionava o “efeito camaleão”. Jânio lançava as bases de uma política externa independente e contrária aos interesses dos Estados Unidos. Malhava o Tio Sam com vontade, elogiava Tito, da Iugoslávia, Nasser, do Egito, Nehru, da Índia, e Fidel Castro de Cuba. Era um delírio, do qual não se livrava o espírito crítico da juventude. O futuro do Brasil estava no Terceiro Mundo, especialmente pela integração com a África Negra. Nada mais de alinhamento automático com os americanos.

Foi assim que Jânio se elegeu. Com os truques de conteúdo, que o faziam dizer a cada platéia ou auditório aquilo que esse auditório ou platéia queria ouvir. Acoplava-se ao sentimento daqueles que o escutavam antes mesmo de começar a fala, e, quando falava, integrava-se. Era o eco dos grupos dispostos ao seu redor, quaisquer que fossem. Deu certo para ganhar a eleição, mas, é claro, deu errado quando ele quis governar desse jeito. Ao tentar agradar a cada um desagradou a todos. Apelou para o derradeiro truque, da renúncia, para voltar como ditador. Não deu certo. Mais cedo ou mais tarde, os truques mandam a conta...”

Odair Machado - RG 4.969.663-4

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