“Fui pescar no Pantanal Matogrossense em meados de 99, junto com o dentista pescador Diocélio e mais o pedreiro Betão, iniciando nossa pescaria pelos arredores de Porto Morrinho, um pouco antes de Corumbá, mas durante os dias que ali ficamos não pegamos um peixe sequer.
Tentando salvar nossa pescaria decidimos adquirir alguns galões de gasolina a mais para alcançar a região dos carandazais na tríplice fronteira Brasil-Bolívia-Paraguai, cerca de cinco horas de barco rio abaixo, mas tinha um problema - a casa alugada para toda aquela semana, muitas tralhas, alimentos e muitas bebidas que não poderiam ser transportados para aquela distância. Quem ficaria ali sozinho de guarda em pleno pantanal?
O pedreiro Betão foi o escolhido por unanimidade para ficar, pois conforme disse o Diocélio, ele era principiante, não sabia pescar, portanto, um marinheiro de primeira viagem. Estava decidido, ele ficava e pronto.
Enquanto isso, eu e o Diocélio descemos o rio Paraguai levando muita tralha, 200 litros de gasolina e outras coisas mais e nos alojamos na pousada do Tejada ao lado do Forte Coimbra, de onde sairíamos ao amanhecer de todos os dias seguintes até a citada região dos carandazais.
Durante três dias batemos o rio desde o Porto Stanley no lado boliviano até ao Forte Guarany, já no Paraguai há cerca de uns 30 quilômetros abaixo. Mas quase nada de peixes.
E chegou o dia de ir embora, subindo de volta por outras cinco horas ou mais enquanto discutíamos sobre o que teria acontecido com o Betão durante a nossa ausência:
- Será que ele ainda está vivo, perguntou um.
- Erva ruim não morre, respondeu o outro.
Enquanto subíamos o rio e tentávamos completar a nossa cota de peixes que andava baixíssima, nosso assunto principal ainda era o Betão:
- Não terá sido um erro deixá-lo sozinho? Pode ter acontecido algo, um assalto, um acidente ou uma doença.
- Nada disso. Quando ele bebe pode ser assaltado, pode sofrer acidente, ficar doente que ele nem vê. Aposto que nem saiu de dentro da casa.
- Tomara!
E chegamos ao rancho do Porto Morrinho onde encontramos o Betão deitado dentro de um bote na sombra da casa e nós não resistimos:
- Mas não era isso que dizíamos? Está dormindo e deve estar bêbado.
- Bêbado sim, dormindo não, respondeu o Betão levantando-se.
- Estávamos preocupados com você, respondemos.
- Preocupados com o quê, disse ele. Fiquei pescando por todos esses dias na sombra da casa, praticamente embaixo da minha cama, da comida e das geladeiras com bebidas e só não estou pescando agora porque os nossos freezers e também os dos vizinhos estão cheios de tantas piraputangas que eu pesquei e não tem mais onde enfiar peixe. Disse isso e deu uma olhada pra dentro do nosso barco e perguntou:
- E vocês?”
Eurico de Oliveira é aposentado, pescador e contador de histórias.