A relação entre pais e filhos na adolescência não ganha só elementos novos com o espírito natural de liberdade, próprio desta fase. Além da busca da independência, os pais são chamados a se posicionar sobre a vontade dos filhos de pegar ao volante já a partir dos 14 ou 15 anos. A busca pela Carteira Nacional de Habilitação (CNH), que legalmente só chega aos 18 anos, é um impasse a mais a ser contornado em família.
A questão é que, nem sempre, a negociação é pacífica. O AutoMercado & Cia ouviu de estudantes de um colégio privado da cidade que a ansiedade por dirigir é mais acentuada entre os meninos. Em uma classe do 3º ano do ensino médio do Preve, no Centro, ficou evidente que a CNH é uma espécie de objetivo com data marcada para ser alcançado entre os homens.
Foi o que aconteceu na última quarta-feira, dia 3 de março, com Amilton Mauad, dia de seu aniversário de 18 anos. “Minha mãe prometeu. Saio da aula direto para fazer inscrição em uma auto-escola para ter a carta (CNH). É o meu presente”, assegura.
Ele comentou que a negociação foi acertada com a mãe, Cariene Margato Mauad. “Meu pai também prometeu que vai comprar um carro assim que eu tirar a carteira”, emendou. A mãe confirma. “É natural, não há como evitar esse pedido deles. Eles começam a pedir par dirigir muito antes, já aos 13, 14 anos”, comenta.
Mas o jovem, que leva o mesmo nome do pai, conta que Mauad proibiu o uso de moto. “Meu pai descobriu que eu estava aprendendo um pouco sobre como andar com moto com um amigo”, assegura.
Com isso, a estratégia do pai foi partilhar a vontade com o filho. Ele, que já tinha moto, passou a levar o filho para passear na garupa do veículo de duas rodas com mais freqüência. “Ele começou a dar dicas sobre a moto, mostrando que é perigoso. Então prometeu o carro. Valeu”, aprova o filho.
Ao sair da aula da última quarta-feira, Mauad lembrou a mãe sobre a inscrição em uma auto-escola logo ao sair do colégio. “Prometi, vou cumprir. Ele vai fazer aula e poderá dirigir com a CNH”, disse Cariene.
Ela confessa que está preocupada. “Alerto e vou continuar conversando sobre a necessidade de dirigir sem correr e dentro das regras, com segurança. É uma fase a mais. Antes ele preocupava porque insistia em querer dirigir antes da hora. Agora, a preocupação será saber que vai dirigir sozinho”, expõe.
A vantagem, segundo ela, foi o diálogo e outro fator igualmente importante. “Ele não bebe e isso me tranqüiliza. Mesmo assim preocupa a sensação de liberdade que o carro vai proporcionar a ele”, conclui.
____________________
CNH encerra longa fase do ‘pai taxista’
Ao contrário de Amilton Mauad, seus colegas de classe, Rafael Batista Sanches e Jhony Kiyoshi Yanaba (ambos com 17 anos e “alguns meses”), vão ter que esperar um pouco mais para cortar o bolo e o cordão umbilical rumo a liberdade.
Enquanto o esperado aniversário dos 18 anos não vem, eles comemoram a maioridade completada pelo colega Mauad. Além do acesso à CNH, a idade marca o fim do “pai taxista”. “O Amilton poderá me levar para as festas e podemos voltar com ele. Já fazemos isso com alguns amigos que já têm 18”, contam.
Por trás do comentário está escondido certo constrangimento com o fato dos homens-meninos comparecerem a festas com o transporte feito pelos “coroas”. Mas eles resistem a essa definição. “Minha mãe ou meu pai me leva para sair. Costumo voltar com os amigos. Não ligo para essa história de meu pai me deixar em frente à festa. É bom”, cita Rafael Sanches sem demonstrar muita convicção.
Sanches também confessa que sabe dirigir “mais ou menos”. “Minha tia, Vanessa, de 22 anos, me deu uns toques. Só umas dicas ao redor de minha casa”, tenta disfarçar o sobrinho. Ele garante que os pais sabem da aula de aprendizado com a jovem tia. “Tudo tem sua hora”, reagiu a mãe Marlei Aparecida Batista para o filho.
O garoto conta que as “aulas informais” vieram por pressão. “Eu pedi, insisti e sempre dava um jeitinho para que minha tia me levasse para ruas largas e calmas para passear. Lá perguntava sobre frear, trocar marcha. Começou assim”, lembra Sanches.
Jhony Kiyoshi avalia que sabe dirigir “mais ou menos”. Neste caso, as lições vieram da própria mãe, Clarice Yanaba. “Deixava pegar no volante em uma rua calma, perto de casa e ia controlando”. Mas o adolescente seguiu adiante e aproveitou a oportunidade para que alguns amigos com mais de 18 anos também dessem uma mãozinha. “Eles liberam de vez em quando, só para uma voltinha”, admite.
Ele vai e retorna da escola, todos os dias, de ônibus coletivo. A mãe autoriza que ele vá às festas em carros de amigos. “Mas ela fala para tomar cuidado com a bebedeira. No Carnaval, ela não deixou eu ir com dois amigos para Duartina. Disso que estrada era perigoso”, menciona.
Os três jovens ouvidos pela reportagem comentaram que já viram pessoas da mesma faixa etária dando “pega” nas ruas da cidade. “Não digo que chega a ser um racha. Mas já vimos, algumas vezes, unas caras dando um pau e isso é perigoso”, cita Jhony com a confirmação dos colegas.