Uma das histórias mais conhecidas de mulheres bauruenses que tomaram a frente dos negócios e tiveram sucesso é a de Marinez Conticelli Manflin, uma empresária que em pouco mais de dez anos de profissionalização já exporta seus modelos de lingerie Provence para os Estados Unidos, Suíça e Portugal, tem quatro lojas em Bauru, revendas em todo o Brasil, emprega quase 100 profissionais no setor de produção (a maioria mulheres) e tem software exclusivo para desenhar e cortar as peças. Mas tudo começou com a venda de porta em porta.
Assim como ela, o trabalho artesanal no segmento de vestuário também foi o escolhido pela comunicadora visual Mônica Rothberg no início dos anos 90. Ao regressar de uma temporada em Londres, ela começou a desenhar camisas masculinas com modelos exclusivos, tendo apliques de tecidos e texturas nas palas, bolsos, punhos, linhas e botões coloridos.
“Eu e minha irmã Valéria (que na época era engenheira civil e hoje é também uma bem-sucedida comerciante) desenhávamos as camisas, que eram bem loucas na época. Compramos uma máquina de costura, contratamos uma costureira para fazer as peças e a gente vendia para outras lojas. Lembra da Office e da Soft Cotton? Só depois achamos que deveríamos ter uma loja própria, a Roth, para dar idéia de uma coisa maior. Mas com o tempo foi mudando a moda, as camisas foram ficando mais básicas, e percebemos que vender roupa dava certo”, relembra Mônica, que na época ainda fazia faculdade.
Depois de formada, a comerciante foi morar em São Paulo e começou a vender modinha feminina e chegou a ter três lojas. “Nessa época, a gente separou a sociedade, mas uma sempre trocava informação com a outra. Eu em São Paulo, a Valéria aqui.”
No retorno para Bauru, há cinco anos, Mônica trouxe a loja, que mixava moda feminina e, tempos depois, masculina, e mudou o nome para Musa, para não ficar igual às lojas da irmã.
“Cada uma tem a sua para não dar briga de família”, brinca a lojista. “Mas a gente quer muito o bem da outra, trocamos muita informação sem problemas. Afinal, já aprendemos muita coisa no tapa.”
Quem também conquistou seu espaço no até então mundo masculino dos negócios foi a farmacêutica industrial Paula Renata Carazzatto, 45 anos.
Ela lembra que, durante décadas, a indústria farmacêutica dominou o mercado e o profissional responsável por uma farmácia apenas assinava por isso.
“Nessa época, os boticários desapareceram. No início dos anos 80, os cursos de farmácia começaram a colocar um maior número de mulheres no mercado, que acabaram resgatando a manipulação também da alopatia e não só dos remédios homeopáticos”, explica a empresária, que há 20 atua no mercado em Bauru. “Acho que sou uma das comerciantes mais antigas da cidade”, completa.
Paula começou em 1983 com uma farmácia pequena e hoje tem duas grandes lojas e um laboratório moderno comandado por ela, que é responsável técnica por todos os seus produtos.
“A minha proposta na Pharmácia Specífica foi ir atrás até daquilo que a gente não tivesse e sempre oferecer novas opções para a classe médica. Na época, eu, mulher, estava à frente da única farmácia alopática de manipulação da região. Aliás, a minha avó contava que mulher que fazia farmácia era considerada rebelde.”
A farmacêutica confessa que o começo foi difícil, mas hoje sente-se feliz por ver nos bancos de faculdade e, até mesmo, no mercado um número de mulheres cada vez maior.
Herança genética
Ela poderia ser uma dondoca, mas Vera Lúcia Tobias Siqueira, 34 anos, aprendeu a arregaçar as mangas desde cedo com os pais e não tem vergonha de dizer que começou a trabalhar com 13 anos numa locadora da família, a Vídeo Inverso.
“Fiquei quatro anos trabalhando na locadora e depois vim para a Everest, quando nem existia a Sukest. Eu entrei como telefonista, depois trabalhei um pouco no RH, no departamento pessoal, um pouquinho na contabilidade. Fui passando em departamentos que queria conhecer. Eu era curiosa e fui gostando, tipo uma doença. Cheguei a trabalhar até na produção, onde só atuavam homens. Mas caí no financeiro e estou aqui até hoje.”
No começo, ela se revezava entre as três indústrias da família, entre as quais a Malharia Monza. Depois, o pai, Moussa Tobias, ficou apenas com a fábrica de sucos e balas, onde trabalhou com ele por 18 anos, até que a morte os separou no último mês de dezembro.
“A gente brigava bastante, mas ele me ensinou que todo ser humano, qualquer que seja, deve ter um objetivo na vida. Pois sem isso se perde toda a graça e todo o encantamento da vida, não se tem vontade de trabalhar, não se tem vontade de fazer nada. Então, se ele levou a vida inteira para construir isso, o mínimo que a gente tem a fazer é continuar. Mas isso também é fruto do amor que você acaba criando pelo trabalho”, define a empresária.
Antes de assumir totalmente a diretoria financeira da empresa da família, que tem 347 funcionários, Vera Lúcia foi eleita presidente da Associação de Lojistas do Bauru Shop-ping, onde tinha com a mãe uma loja de roupas infantis e artigos para bebê.
Apesar da venda da loja, Vera ainda pensa em aceitar o pedido de permanecer por mais um tempo no comando da associação.
“Quero tanto ver o shopping ir para frente, tem tanta coisa para fazer por lá”, comenta a empresária, que sente prazer em trabalhar, mas lamenta que ainda exista preconceito.
“Eu vejo que muitas pessoas na fábrica e até mesmo fornecedores preferem conversar com meu irmão do que comigo, por ele ser homem. Isso eu sinto claramente. Os homens ainda não estão acostumados a lidar com a mulher quando ela está num patamar acima. Mas a mulher tem de se impor no que está fazendo e ponto. Assim adquire respeito e até confiança no seu trabalho. Afinal, só a gente tem o dom de resolver cinco, seis, sete coisas ao mesmo tempo”, diz, e aponta a mesa cheia de papéis.
Mesmo trabalhando dia e noite e até de sábado e domingo por conta do shopping, Vera não deixa de dar atenção aos filhos Otávio, 11 anos, e Giovana, 7 anos. Todos os dias levanta cedo, leva-os para a escola, chega tarde da noite e vai conferir e ajudar na tarefa e, se no meio do dia um deles liga perguntando onde está o durex, ela sabe responder.