Mulher

Líderes comunitárias brigam por benfeitorias

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 4 min

A cesta básica para dona Maria, o remédio do ‘seo’ Pedro e as implantações do asfalto, da creche e da escola. Estas são algumas das lutas de mulheres que atuam como lideranças de bairro em Bauru e procuram, de alguma forma, melhorar a realidade do seu contexto local.

Das 90 associações de moradores existentes hoje na cidade, 23 são lideradas por mulheres, de acordo com dados da Secretaria Municipal das Administrações Regionais (Sear).

Algumas dessas lideranças já conseguiram bons resultados, mas as urgências sociais e de infra-estrutura são tantas que sempre há muito o que fazer. É o que afirma a presidente da Associação do Jardim Solange, Diva Dias, 64 anos.

Ela conta que no seu bairro uma das principais reivindicações dos moradores é a pavimentação. “Eu estou lutando para que eles (prefeitura) coloquem pelo menos o nome do Jardim Solange numa relação de bairros que serão atendidos logo com o asfalto”, diz.

Segundo a líder, os buracos tomaram conta das ruas e, diariamente, a comunidade têm de enfrentar muitos problemas, como a impossibilidade de tráfego de veículos. “Para sair de casa de carro, a gente tem de escolher qual buraco cair primeiro”, diz. “A polícia não vem aqui porque tem buraco. Se alguma pessoa fica doente, a ambulância também não entra”, denuncia.

Diva, que está há seis anos à frente da associação, afirma que a comunidade local é bastante carente e que, apesar da pressão, os moradores não têm recebido atenção do poder público local. Além do asfalto, segundo ela, uma das necessidades mais urgentes é a construção de uma creche no bairro para atender às mães que trabalham durante o dia.

Apesar dos problemas, Diva comemora uma importante conquista da associação: a implantação, recentemente, de galerias de águas pluviais no bairro – uma reivindicação antiga da comunidade. “Nós conseguimos isso há cerca de seis meses”, diz.

Na Pousada da Esperança 1, o início das obras de construção de galerias também foi comemorado pela liderança feminina do bairro Eva Pereira Brandão, 45 anos, vice-presidente da associação de moradores.

Entretanto, segundo ela, obras de infra-estrutura são apenas a ponta do iceberg dos problemas que atingem a Pousada.

“Este é um bairro muito carente, só 10% dos moradores têm condição de sobreviver cobrindo suas necessidades”, diz. “Nessa situação, muitas pessoas não estão tendo uma vida com dignidade porque precisam mendigar e pedir esmola”, lamenta.

Por conta dessas carências, Eva, que mora no local há 14 anos, afirma que é procurada quase diariamente por pessoas da comunidade para resolver problemas de toda a ordem, como pedidos de alimentos, roupas, remédios e até a simples orientação de como marcar uma consulta médica.

Ela afirma que, em média, atende cerca de 20 pessoas por semana na porta de sua casa.

Em algumas ocasiões, de vice-presidente de associação, Eva vira uma espécie de psicóloga, atenta para os problemas emocionais da comunidade. “As pessoas estão muito carentes. Se você conversa com elas, dá atenção e empresta o seu ouvido, elas já se apegam e vão voltando sempre”, diz.

Segundo Eva, além das necessidades emergenciais e reivindicações junto ao poder público para garantir melhor infra-estrutura para os moradores, o trabalho da associação também está voltado para a orientação e conscienti-zação da comunidade. Ontem, por exemplo, estava prevista a realização na casa da vice-presidente de um ato comemorativo ao Dia Internacional da Mulher, no qual seriam abordadas as conquistas históricas e políticas da população feminina.

No Jaraguá, a casa de Aparecida Brito Caleda, a Cidinha, deve servir em breve de sede para um curso de artesanato a partir de garrafas pets, voltado para moradores do bairro.

A residência é a ‘sede’ oficial da escola de samba Azulão do Morro, da qual Cidinha, 42 anos, é presidente.

Com esse curso, Cidinha, que é conhecida pelo seu papel ativo dentro da comunidade, reforça que nem só de samba vive uma agremiação carnavalesca.

Além de atividades como essa, de caráter assistencial, ela tenta desenvolver alguns projetos por meio da escola.

Dois deles, que devem ser colocados em prática neste ano, são a escolinha de mestre-sala e porta-bandeira e o projeto “Bate Lata”, que oferecerá aulas de percussão às crianças e jovens da comunidade.

À frente da entidade, Cidinha ativou em 2002 uma escolinha de futebol, em parceria com o Jaraguá Atlético Clube. Entretanto, no ano passado, por falta de verbas, o projeto foi paralisado. “Nós não tínhamos como pagar os professores. Mas este ano nós pretendemos retomá-lo”, diz.

No último Carnaval, a escola arrecadou cerca de 150 quilos de alimentos para distribuir à comunidade do Jaraguá, uma das mais carentes de Bauru. Cidinha afirma que os moradores do bairro “se viram como pode” e recebem pouco atenção do poder público local. “Aqui para o Jaraguá tudo é difícil. As pessoas esquecem do nosso bairro”, lamenta. Isso, no entanto, não a faz deixar de lutar para melhorar o dia-a-dia de sua comunidade.

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