Economia & Negócios

Piva cobra ousadia do governo petista

Gabriel Garcia
| Tempo de leitura: 7 min

Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva, já é passada a hora da equipe econômica do governo federal tomar medidas de incentivo à produção e ao consumo, como a redução da taxa básica de juros, estacionada há três meses em 16,5% ao ano.

Piva esteve ontem em Bauru para a inauguração oficial da nova unidade educacional do Serviço Social da Indústria (Sesi) em Bauru. Ele é presidente dos conselhos regionais do Sesi e do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) em São Paulo.

Na opinião de Piva, o resultado negativo do Produto Interno Bruto (PIB) é um exemplo de que o governo petista está exagerando na dose de conservadorismo e precisa tomar medidas de caráter desenvolvimentista e social, como o incentivo à construção civil. Em entrevista ao JC, o presidente da Fiesp também comentou o caso Waldomiro Diniz e a possibilidade de prisão de seu vice na entidade, o empresário Carlos Roberto Liboni.

JC - O PIB brasileiro registrou evolução negativa e já há deflação verificada em São Paulo. Diante desses sintomas claros de recessão, que rumos a política econômica deve tomar para reverter a situação?

Horácio Lafer Piva - Nós começamos o ano de 2003 com a demonstração clara de que era preciso ser feito um ajuste, e esse ajuste foi feito. Em primeiro lugar, porque tínhamos que cumprir determinados itens do tema da responsabilidade fiscal e, em segundo lugar, porque o governo Lula assumiu uma expectativa por parte do mercado financeiro e dos mercados externos de tensão. A preocupação era de que poderia haver quebra nas regras do jogo. O governo assumiu e, obviamente, deu as demonstrações de que trabalharia dentro de um regime adequado. O fato é que esse ajuste, que deveria ter durado seis meses, durou muito mais do que isso. Na nossa opinião, a partir de maio, junho (de 2003) já poderia ter havido uma flexibilização da política monetária, o que não aconteceu. Isso gerou um impacto psicológico negativo nos agentes econômicos, além de certamente um clima de pré-recessão, que fez com que o segundo semestre do ano passado - que costuma ser uma época melhor - tenha tido um resultado muito aquém daqueles que tinham sido planejados pelos próprios analistas.

JC - E essa situação culmina em desemprego e achatamento da renda.

Piva - Nós tivemos um crescimento no quarto trimestre em relação ao terceiro, mas sobre uma base fraca e muito puxado pela questão agroindustrial. O resultado de 2003 acabou aparecendo agora: tivemos um PIB negativo (-0,2%) num País que não consegue crescer já há muitos anos, o que, certamente, é uma coisa que nos preocupa demais. Esse País não vai resolver seus problemas senão pelo caminho do desenvolvimento. Nós estamos falando do tema do emprego, que é absolutamente fundamental, porque não só resolve a questão social, traz dignidade para a pessoa, mas é aquele que vai fazer com que o País possa voltar a ter massa salarial, a ter renda, para ter um mercado interno dinâmico. Você vê que os resultados que tivemos no ano passado estão muito escorados na agroindústria e na exportação. Mas o mercado interno, esse potencial que temos aqui, está absolutamente parado.

JC - A Fiesp defende algum “primeiro passo” específico?

Piva - Nós temos insistido muito com o governo para que, em primeiro lugar, possa reduzir essa taxa de juros. Na minha opinião nós já perdemos muita oportunidade nestes últimos meses, na medida em que tínhamos o risco-Brasil caindo, não tinha pressão inflacionária. Poderiam ter sido testados limites mais baixos da taxa de juros e trabalhado mais na questão do spread, para que a taxa de captação final também fosse menor.

JC - Uma redução mais expressiva na taxa de juros poderia, de fato, provocar crescimento?

Piva - A questão da taxa de juros não é só pelo que ela possa custar de mais barato para as pessoas do ponto de vista de incentivo a tomar recursos para fazer girar sua atividade, mas também diminui o peso do déficit público sobre todos nós e cria uma percepção mais positiva - e isso é importante que aconteça. Não há risco de pressão inflacionária, não há massa salarial capaz de causar inflação de demanda. Nesse momento, você pode reduzir a taxa que as pessoas não sairão comprando loucamente, apesar de haver uma demanda reprimida, principalmente por bens duráveis. Não vai acontecer isso.

JC - O senhor acredita que o governo realmente tema uma inflação de demanda?

Piva - Eu acho que o governo está excessivamente atemorizado com os riscos de inflação, e acaba assim assumindo um comportamento excessivamente conservador, não levando em consideração o que isso cria no tecido empresarial e social do País. O governo teria de ser mais ousado, reduzir a taxa de juros, entrar com medidas de caráter microeconômico, dentro desse conceito da política industrial, apoiando, por exemplo, setores como construção civil, que absorve muita mão-de-obra e não cria pressão em divisas, vendo como poderíamos diminuir nosso déficit na balança de eletroeletrônicos, aproveitando vocações brasileiras, como na área de biotecnologia. E, com isso, fazer com que o Brasil retome o crescimento sustentado. Não adianta mais ficarmos nessa volatilidade de ano que cresce e ano que cai, retomar uma taxa de crescimento sustentado ao redor de 5% ao ano, porque nós colocamos 1,5 milhão de jovens no mercado de trabalho todos os anos e para isso nós teremos que crescer nesse patamar.

JC - E isso coloca em risco o apoio popular ao governo que se vê até o momento, ou seja, o PT fica, mais do que nunca, numa posição de “vidraça”?

Piva - Eu tenho a impressão de que o PT começa a perceber que a sociedade, que até agora tem tido um olhar muito generoso em relação a ele, vai começar a cobrar resultados com mais firmeza. Isso o obrigará a tomar decisões que impliquem mais em desenvolvimento. Agora, é a disputa que sempre acontece dentro dos governos e que nós temos assistido dentro deste também: um lado mais conservador e um lado mais desenvolvimentista, por assim dizer. Se o PT souber ler bem as pesquisas, vai perceber que é hora de ousar.

JC - A Fiesp é a favor de uma CPI para investigar o caso Waldomiro Diniz?

Piva - A Fiesp não tem se envolvido nessa questão da discussão da CPI. A gente acredita que já se tenha no Congresso a inteligência e a representatividade necessária de toda a sociedade para decidir se deve ou não fazê-la. Agora, que deve ser investigada nos seus mínimos detalhes, deve. Se por CPI ou não, nós não opinamos.

JC - O vice-presidente da Fiesp, Carlos Roberto Liboni, é acusado de ter sonegado impostos da União durante 20 anos e pode ser preso a qualquer momento. Como a entidade avalia o fato?

Piva - A situação do Liboni é muito difícil. O que eu tenho dito é que tem sido, na verdade, o dia-a-dia de milhares de empresas, e suscita inclusive um olhar por parte das autoridades das dificuldades pelas quais vêm passando as indústrias brasileiras. É uma questão de Justiça, que vai decidir como encaminhar esse assunto. Ao que me consta, ele já está conseguindo fazer o reparcelamento do INSS, que é o fruto de sua dívida. Mas há uma questão jurídica, de caráter criminal, que nós vamos deixar a Justiça julgar.

JC - A Fiesp elege novo presidente em outubro. A questão do Liboni poderia prejudicar a candidatura de Cláudio Vaz, apoioada pela atual presidência?

Piva - Acho que não. O empresário vai saber dividir bem uma coisa e outra. E tenho absoluta certeza que o próprio Liboni está, neste momento, a fazer uma reflexão a respeito desse assunto. Nós estamos, todos os empresários, todos os diretores da Fiesp, como pessoas físicas, dando ao Liboni todo nosso apoio, toda nossa solidariedade. Como pessoa institucional, como pessoa jurídica, certamente nós precisamos preservar as entidades.

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