Turismo

Ao Sul do silêncio

Por Zarcillo Barbosa | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

O país, comprido e estreito, estende-se por mais de 4 mil quilômetros apertado pelos Andes e o Oceano Pacífico, desde a zona tropical até o frio polar do limite sul do continente, “o fim do mundo”. Dado esse “fator lingüiça”, para conhecer um pouco do Chile o turista precisa de pelo menos três incursões: uma pela região central onde se concentra a maioria dos 15 milhões de habitantes do país inteiro (população equivalente a da área metropolitana de São Paulo), com Santiago, Viña Del Mar, Valparaiso e os vinhedos mais famosos; outro, ao Norte, para ver os “vales lunares” do deserto mais seco do mundo, em Atacama; e outra viagem mais ao território austral. Justamente onde está uma das áreas menos exploradas do mundo e, talvez por isso, das mais surpreendentes: a Patagônia.

Com o dobro do tamanho da França - mas menos habitantes por quilômetro quadrado que o Saara Ocidental, a Patagônia segue remota 170 anos depois do Beagle baixar âncora numa das suas baías trazendo a bordo Charles Darwin, então com 25 anos. A área maior está na Argentina só que a mais bonita pela sua proximidade com o mar é o terço chileno. “O lado de lá é mais desolado” - dizem os “do lado de cá”. Uma das causas da decadência da Patagônia argentina foi provocada pela erupção do vulcão Hudson, em 1991. A montanha está do lado chileno, mas ajudado por forte vento oeste o vulcão vomitou milhões de toneladas métricas de cinzas na faixa que vai dos Andes ao Atlântico. A cinza abrasiva destruiu a vegetação natural. “Raspava os dentes das ovelhas até deixar só tocos e obstruía seus bebedouros”, diz um relato. Resultado: perdeu-se mais da metade do rebanho ovino. Os estancieiros abandonaram suas casas com as cozinhas atulhadas de cinzas e a mobília saqueada. Os argentinos, que vivem em eternas disputas territoriais com os chilenos, desta vez não puderam reclamar prejuízos diante da força inclemente da natureza.

Para executivos de grandes empresas internacionais que querem privacidade e para os ecoturistas, essa terra inculta, cheia de mistérios e lendas, tem valor inestimável. A natureza ainda dita a vida na Patagônia, a fronteira dos vastos panoramas onde picos de granito coroam lagos glaciais e os sonhos dos pioneiros ainda têm espaço para acontecer. Cidadãos de todo o mundo, empresas estrangeiras querem se estabelecer ali em busca de oportunidades ou de terras baratas. A vastidão oferece as mais incríveis paisagens: estepes, rios, canyons, bosques, fiordes, montanhas e vulcões.

Mesmo o homem se sentindo pequeno diante da imensidão que assusta, é possível viajar pela região com todo conforto e segurança. Qualquer aldeia patagônica está ligada ao mundo por uma rede de telecomunicações de excelência. A Carretera Austral é dotada de boa infra-estrutura. É possível desfrutar de aeroportos internacionais, hotéis de luxo, boa comida, navios e catamarãs com sistemas de navegação sofisticados, assistência de guias e sentir-se em casa com a acolhida carinhosa do seu povo.

____________________

O paraíso das excursões

Tudo começa em Santiago, uma das mais bonitas e civilizadas cidades da América do Sul, com um nível de vida de fazer inveja a qualquer outro país latino-americano. De lá saem vôos para Puerto Montt, onde a Patagônia chilena se inicia e o território se estilhaça em milhares de ilhas e fiordes. Aqueles golfos estreitos e profundos, entre montanhas altas, como na Noruega, Suécia e outros países. Para os que querem ir mais para o Sul onde estão os glaciares, aviões da Lan Chile deixam os turistas em Balmaceda ou Punta Arenas. Há pacotes com o sistema “tudo previsto” mediante os quais viajantes de qualquer idade, sexo ou condição física não têm com o que se preocupar, a não ser admirar as paisagens e registrá-las com suas câmeras. A temperatura neste verão chegou a 32 graus centígrados.

Ali está o paraíso do trekking, dos esportes náuticos, da pesca, do rafting, das termas. Ainda que a maior graça esteja na natureza cheia de verde, montanhas coroadas de neve, lagos de águas límpidas e rios cascateantes, os povoados lembram postais com a arquitetura de suas igrejas e casas de madeira, estilo trazido por colonos alemães no século passado.

A presença de Darwin

Darwin dedicou o último capítulo do seu livro sobre “A viagem do Beagle” para perguntar a si mesmo por que as paisagens da Patagônia tinham tanta ascendência em sua memória. Suas observações sobre a fauna e a flora da Patagônia, hoje considerada Reserva Mundial da Biosfera, serviu para embasar muitos aspectos da sua teoria sobre “A origem das espécies”, livro publicado em 1859. O naturalista fez uma viagem ao redor do mundo a bordo do HMS Beagle, sob o comando do igualmente célebre capitão Fitzroy. Chegou ao Chile em 21 de maio de 1834, quando o navio entrou no Estreito de Magalhães e depois prosseguiu rumo ao Norte, com várias paradas. A Rota Darwin pode ser reeditada hoje pelos turistas em qualquer época do ano. Charles Darwin disse no seu diário que “o tempo nunca me pareceu passar tão rápido como na Patagônia vista dos altos montes”. É a sensação que se repete no visitante que percorre a região de barco pelos infindáveis canais e fiordes ou por terra, pela Carretera Austral, uma rodovia que entremeia trechos de asfalto e de cascalho.

Comentários

Comentários