Turismo

Geleiras de 20 mil anos

Por Zarcillo Barbosa | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 7 min

Os chilenos chamam de “ventisquero” aquelas paredes de gelo de mais de 20 mil anos e que chegam a 70 metros de altura. Na região de Puyuhuapi, a penúltima zona turística antes do território Antártico, existem duas geleiras formadas pela ação constante dos ventos que congelam a umidade.

O do Parque Nacional da Laguna San Rafael é imperdível pela sua beleza e é o mais próximo da linha do Equador ao nível do mar. Darwin chamou aquela área de “ice end” porque, a partir dali, terminavam os glaciares. Daí, segundo alguns, o nome do Rio Aisén que deu origem a um porto do mesmo nome. A outra geleira é o “Ventisquero Colgante” do Parque Nacional Queulat. “Colgante” significa “dependurado”.

A geleira encontra-se na borda de uma montanha e dá origem a uma cascata e um lago, produtos do seu degelo. Para chegar, há caminhos pela selva e uma ponte pênsil sobre o rio formado pelas águas do degelo, de cor azul-cobalto. Essa nuance é produzida pelos minerais retidos pela glaciação. As geleiras também são de um azul intenso pela ausência de oxigênio. A pressão de milhões de toneladas de gelo durante milhares de anos elimina o ar entre as moléculas, o que dá a cor azul aos enormes paredões.

O glaciar da Laguna de San Rafael, o maior deles, tem 1.742.000 hectares. Está em contínuo retrocesso, calculado pelos pesquisadores em 20 metros por ano. Por isso, é usual o desbarranque dos gelos com enormes estrondos. Os barcos usam botes infláveis para ziguezaguear entre os icebergs conduzindo os turistas até a uma distância segura das muralhas de gelo. É o suficiente para sentirmos uma sensação de pequenez diante dos paredões de 70 metros.

O campo de gelo do glaciar San Valentin, como também é denominado, foi descoberto em 1674. Tem 70 quilômetros de extensão. Padres jesuítas fizeram uma expedição em 1766 “para a conversão dos gentios” que julgavam habitar nessas latitudes. Buscavam também a mítica Cidade dos Césares, uma espécie de Shangri-lá criada pela imaginação dos patagões.

Depois disso, a laguna e o seu glaciar permaneceram perdidos durante um século, até que foi redescoberta por um capitão da Armada do Chile, Enrique Simpson, quando ninguém mais tinha idéia da sua existência.

“É bem difícil fazer uma descrição gráfica da cena que se nos apresenta”, escreveu o comandante em seu diário. “Oxalá tivesse a pena de um Dumas ou o pincel de Vernet para fazê-lo. Mesmo assim não seriam suficientes para dar uma idéia dessa esplêndida realidade. Não há nas regiões polares cenas que possam competir com essa”.

O capitão estava cheio de razões. Felizmente, hoje, dispomos de imagens para mostrar aquilo que é e não pode ser descrito.

____________________

Termas de Puyuhuapi

Quem entra na Baía Dorita a bordo do catamarã Patagônia Express vê de longe o Hotel Termas de Puyuhuapi, todo de madeira e no estilo das igrejas de Chiloé construídas pelos imigrantes alemães no século 18. Até o teto é de madeira extraída de uma conífera chamada alerce, de extrema consistência, e que lhe dá total impermeabilidade.

O hotel está rodeado pela natureza em seu estado original e dotado de um conforto “cinco estrelas”. Christine Kossmann, a proprietária, supervisiona tudo pessoalmente. Ela pertence a uma rica família de origem alemã que mantém estaleiros em Valdívia. Quando perguntam onde fica o seu hotel, ela simplesmente pode responder de forma cartesiana: entre 43º38’e 49º16' de latitude sul, no extremo austral do Chile. Ou então dizer em tom poético: “Al sur del silencio...” O slogan define silêncio não como ausência de sons, mas como ausência dos ruídos provocados pelas máquinas do mundo moderno. A natureza nos deixa ouvir o canto do chucao (melro austral), o passar do vento, o movimento das águas e das folhas.

A idéia da construção do hotel em meio à exuberante vegetação nasceu no tempo em que Christine explorava os fiordes a bordo do veleiro dos pais. Ali, em Poyuhuapi - lugar de peixes, na língua indígena -, descobriram a floração das águas minerais que brotam das rochas com 40 graus de calor.

O hotel tem uma posição estratégica porque serve de ponto de partida para emocionantes excursões. A meia hora de barco, posto à disposição dos hóspedes, pode-se chegar ao Parque Nacional Queulat, para caminhar pela selva úmida e admirar o impressionante “Ventisquero Colgante”. Outro atrativo é remar em caiaque pelos canais e ilhas vizinhas, sair ao encontro de toninhas e lobos-marinhos, ou então praticar pesca com varas, principalmente de trutas arco-íris.

Um dos happenings do hotel é o da caminhada pela trilha da montanha, entre árvores, fontes de água virgem, plantas e flores naturais. De repente, numa clareira com vista maravilhosa para a baía, encontramos o sommelier do hotel convidando-nos para uma degustação de vinhos chilenos. O melhor é que ele explica as qualidades, cheiros e aromas de cada vinho de maneira muito didática. Diferentes recipientes contendo noz moscada, baunilha, pimenta, limão e chocolate servem para as pessoas cheirarem.

A intenção é criar uma memória olfativa em cada conviva. Depois, é só distinguir os aromas que emergem dos copázios de cristal quando agitados. A gente percebe porque um vinho é mais caro que o outro pela complexidade dos cheiros, sabores e persistência.

Outra experiência inesquecível é navegar pelos canais e estreitos austrais a bordo do catamarã Patagônia Express até a Laguna San Rafael e o seu glaciar milenar, onde é possível sentir o movimento e o rugido da massa de gelo, e o desprendimento de enormes icebergs que caem na lagoa.

O catamarã oferece todas as mordomias a bordo. Na parte de baixo, poltronas como as da primeira classe dos aviões garantem o descanso para quem achar monótona a passagem de tantos cumes nevados. Na parte alta, o restaurante serve excelente comida e bebidas à vontade, sob o sistema “tudo incluído”. Quando chega à laguna, os passageiros são baixados aos botes de borracha, devidamente equipados com salva-vidas e capas impermeáveis.

A temperatura, nesta época do ano é de cinco graus positivos. Mesmo no inverno, os passeios podem ser feitos, embora o vento castigue um pouco. Mas nada que um bauruense não possa suportar.

Os marinheiros trazem para bordo blocos de gelo para uma rodada de destilados, por conta da casa. Imagine-se tomando um uísque ou pisco sauer (a caipirinha deles, de aguardente de uva), com gelo entre mil a quatro mil anos de idade.

____________________

O encontro das águas

Depois de um dia de aventura, nada melhor que relaxar-se em uma das três piscinas termais do hotel, cobertas e com ampla área envidraçada dando para o mar e para os picos nevados. O Spa do Puyuhuapi não tem nada a ver com aquelas clínicas de emagrecimento onde os paciente passam fome.

O spa patagônico diz respeito ao “Sanitas Per Aquas” dos romanos que buscavam a saúde pelas águas.

A gastronomia ocupa um lugar especial no hotel sob o comando de chefs internacionais. O salmão, o congrio, os frutos do mar, o cordeiro e o churrasco gaúcho são imperdíveis. A pâtisserie completa o pecado da gula.

A água é naturalmente pura e aflora a poucos metros do hotel. Para o spa convergem as três águas: a do Oceano Pacífico, que banha o Puyuhuapi; a termal, que vem das entranhas da terra; e a água pura e cristalina que corre das cascatas do lugar.

A talassoterapia (do grego thalasso = mar, e therapeuin = curar) é a novidade que atrai turistas de todo o mundo, inclusive muitos brasileiros. No tratamento são empregados produtos do mar, como algas, pedras e água, em um ambiente marinho que contribui para o restabelecimento do equilíbrio fisiológico. Os sais minerais das águas e das algas marinhas penetram o interior das células mediante o calor e as massagens de relaxamento. Isso produz uma imediata sensação de bem-estar.

A variedade de terapias disponíveis nas Termas incluem: banhos de algas, balneoterapia, aplicação de algas, tratamentos faciais e cosmetologia. Jacuzzis com água termal a temperatura de 34 a 36 graus e com água do mar aquecida completam as hidromassagens. Evidentemente a talassoterapia, as sessões de estética integral e cosmetologia são cobradas à parte. Os preços variam a US$ 15,00 até US$ 235,00 para uma série de três dias de esfoliação corporal, tratamentos faciais com algas e massagens.

Comentários

Comentários