A bauruense Daniela Melaré Vieira Barros, que mora em Madri há duas semanas, teme que atentados como os de anteontem abalem novamente a Espanha. Ela demonstrou receio em freqüentar ambientes com grande aglomeração de pessoas.
Por causa da apreensão, além do frio e da chuva, ela não sabia se participaria do megaprotesto contra o terror, que reuniu dois milhões de manifestantes em Madri.
“As pessoas estão com medo de tudo o que é coletivo, até de ônibus. A minha sorte é que eu faço tudo a pé, mas há uma insegurança no ar”, confessa a docente em Educação da Universidade do Sagrado Coração (USC).
O sentimento de medo, no entanto, não se restringe à Espanha. Diversos países da Europa reforçaram a segurança após as explosões que mataram 200 pessoas em Madri.
“A tendência não é de pânico, mas de aumentar a segurança em todo o mundo. Aqui, os policiais com motocicletas passam com mais freqüência e observam com mais rigor. A polícia daqui já estava organizada e fiquei sabendo que conseguiu coibir outros atentados no Natal, mas desta vez não deu”, comenta a moça de 27 anos.
Ela estava em casa no momento da tragédia. Quando ouviu as sirenes dos bombeiros e da polícia, perguntou aos colegas da casa onde mora sobre o que estava acontecendo.
“Muita gente chorava porque não conseguia notícias (de parentes). Era horário de rush e as explosões ocorreram em linhas que transportavam estudantes e trabalhadores. Por sorte, uma universidade estava em greve e o trem parou antes de entrar num túnel. Se não, o número de vítimas seria maior”, explica.
Expectativa
Cerca de três horas após o atentado, ela ligou para mãe em Bauru. Daniela deixou a cidade por quatro meses, período em que dará continuidade ao doutorado que iniciou no Brasil.
“Eu ia pedir para uma colega dela, que também morou em Madri, para telefonar (para a filha). Minhas pernas bambearam quando soube dos ataques pela televisão”, conta Ruth Melaré Vieira Barros.
Preocupação semelhante vivenciou Iraci Borges, que também tem uma filha morando na Espanha, mas em Barcelona. Porém, via Internet, recebeu informações tranqüilizadoras logo após ter conhecimento da tragédia. Já Evaristo Gonzalez, espanhol que mora há anos em Bauru e tem parentes na Galícia, não considerou necessário o contato com a família.
“Eles moram longe. Se tivesse ocorrido algo, teriam me telefonado”, esclarece. Da mesma maneira raciocinou o espanhol Alberto Carrera Ibañez, que está há um ano e meio em Bauru.
“Tenho vários amigos em Madri. Nem tive tempo de mandar e-mail (ontem), mas se tivesse acontecido alguma coisa, minha família teria me informado”, diz.
Quando ainda vivia em Bilbao, ele presenciou um atentado a duas quadras na universidade onde estudava. “O prédio tremeu inteiro. Todo mundo saiu correndo. Deu para ver os corpos pelas ruas. Foi um ataque do ETA”, relembra.
Pela experiência acumulada aos 25 anos, ele arrisca a dizer que desta vez a tragédia não foi provocada pelo grupo terrorista e separatista basco. “Eles negaram. Se fossem eles, assumiriam sem problemas”, argumenta.
Por essa razão, ele não descarta a possibilidade das explosões terem sido promovidas por grupos ligados a Al-Qaeda. Para Ibañez, que veio para Bauru para estudar música na USC, a oposição usará os ataques de anteontem contra o primeiro ministro, José María Aznar, nas eleições ainda previstas amanhã. Aznar apoiou as ofensivas norte-americanas no Iraque.
Porém, ele também acredita que o povo espanhol manifeste apoio ao primeiro ministro, como aconteceu com George W. Bush, nos Estados Unidos, após o 11 de setembro.