Senhor, os homens me chamam “ancião”, isto soa um pouco melhor do que “velho”, “coroa”, “passado”, “já era”. E até instituíram um dia para lembrar de mim: o Dia do Ancião. O maior sofrimento que sinto, Senhor, não é o cansaço que me abate... não é a doença, uma contínua companheira... não é a beleza que já não tenho... não é a juventude que se foi, há tanto tempo.
Maior sofrimento que sinto é saber que ainda sou presente, e ser tomado como um passado. Tu compreendes, Senhor, aos jovens, os homens chamam “futuro”, e eles são a esperança. A mim chamam “passado”, e eu só sou “saudade”. Nesse dia, Senhor, eu venho agradecer. Agradecer tudo o que a vida me trouxe de bom... Também todas as pedras - e foram tantas - que encontrei em meu caminhar. Tranqüilo, Senhor, vou descendo da passarela da vida, no acaso de meu caminhar. Tranqüilo, digno, consciente, sorrindo... na certeza interior de que, se me fosse dado tudo recomeçar, eu caminharia os mesmos caminhos novamente. Obrigado, Senhor, por tudo em minha vida. E desculpe estas duas lágrimas que teimam em brincar nos meus olhos: elas se chamam... Saudade e Esperança. Eu te agradeço meu lar, minha família, meus amigos... Eu te agradeço todas as flores que colhi no jardim do amor...
Izabel Ramos