Nos debates sobre os grandes temas nacionais, parece que a redenção econômica brasileira depende apenas da escolha certa entre três caminhos: desvalorização do Real para estimular exportações; redução da Selic; e manutenção do atual câmbio e taxa de juros. Porém, a ciência econômica e o bom senso indicam haver possibilidades muito mais amplas para a conquista do crescimento, prosperidade, distribuição mais justa da renda e redução do desemprego.
É insensato submeter o destino de uma nação imensa e potencialmente rica à mesmice de três alternativas meramente monetaristas, em especial se considerarmos o fato de que todas elas, embora apresentem algumas vantagens, implicam riscos e não suscitarão crescimento sustentado a taxas acima de 4% ao ano, como na China e Índia. Deveríamos tentar entender como estes dois países conseguiram esse notável feito. Então, perceberíamos que ambos jamais foram reféns de políticas macroeconômicas semelhantes às genericamente implementadas nos emergentes latino-americanos.
Na China, por exemplo, há muitos anos o governo fez levantamento acerca dos principais gargalos existentes nas cadeias produtivas e criou mecanismos para eliminá-los. Assim, cada setor recebeu apoio diferente. Alguns tiveram financiamentos subsidiados; outros, incentivos fiscais; e a maioria, apoio à formação de mão-de-obra. A Índia tem política industrial há 15 anos. Todos conhecem as regras. Há poucos anos, o governo lançou programa de microcrédito, pelo qual os pobres puderam equipar-se com bens capazes de gerar produção e renda (máquinas de costura para alfaiates, bicicletas para entregadores...). Este programa é um dos responsáveis por crescimento anual médio de 6,5 % nos últimos cinco exercícios.
Na verdade, boa parte do problema brasileiro está no fato de que nossos economistas e formuladores de políticas de desenvolvimento só têm dado atenção ao macroeconômico. Este é importante, mas sua solução não é suficiente. É fundamental focar o microeconomico em nível das empresas, ajudando-as no aumento das exportações ou na obtenção de tecnologia e mais produtividade. Nesse sentido, o governo tem muito a fazer. Afinal de contas, não existe país competitivo sem empresas produtivas.
É vital, por exemplo, definir quais setores têm vantagens que lhes permita sucesso no mercado internacional. Para estes deve ser feita cuidadosa análise da cadeia produtiva, identificando-se todos os gargalos, como o atraso do nível tecnológico de um dos supridores de matéria-prima. Se for este o caso, não seria ótimo se o governo facilitasse a modernização tecnológica? Para alguns setores, principalmente nos que predominam micro e pequenas empresas, o problema pode estar na incapacidade gerencial dos administradores, ao não saberem lidar com as questões de comércio exterior. Não seria o caso de o governo criar programa de capacitação?
No Brasil, sabe-se que as micro e pequenas empresas respondem por menos de 5% do total das exportações. Não seria o caso de fazermos como a Itália, onde as pequenas e microempresas têm a maior parcela das exportações e são objeto de esforço de coordenação em cada setor produtivo, no sentido da criação de cooperativas voltadas às vendas externas? Bem-sucedido exemplo é a chamada Terceira Itália: em vilas e cidades, na região Central e Noroeste do país, formou-se rede de pequenas indústrias, criada nos anos 70. São fábricas de calçados, cerâmica, têxteis e confecções, motocicletas, equipamentos agrícolas, autopeças e máquinas-ferramenta.
Hoje, as tecnologias da informação favorecem modelos de cooperação, alianças estratégicas e redes internas e externas, como nos “keiretsu” japoneses, nos “chaebol” sul-coreanos e no “guanxi” chinês. Michael Porter, conceituado professor de Harward (Estados Unidos) diz que não são os países que fazem sucesso na economia mundial, mas sim as suas empresas. A conclusão é obvia: temos de atuar diretamente favorecendo nossas empresas a conquistarem condições de atuar no mercado mundial.
O neoliberalismo fracassou em praticamente todos os países em desenvolvimento. Até economistas norte-americanos importantes, como Paul Krugman e Joseph Stiglitz, defendem a tese de que os governos devem intervir na economia para favorecer as empresas. Para aumentar exportações, temos de ser mais competitivos. Sem a indução do Estado, corremos o risco de ficar estagnados.
Já no início da década de 90, quando o advento da globalização — teórica e filosoficamente ancorado no neoliberalismo — tornou a competitividade uma exigência superlativa, estabelecendo novas regras de sobrevivência das empresas, o escritor alemão Robert Kurz, no livro “Colapso da Modernização”, fazia incisivo alerta: “A concorrência no mercado mundial torna obrigatório um novo padrão de produtividade, configurado pela combinação de ciência, tecnologia avançada e investimentos”. É o acesso a esse novo padrão, como ocorre na Índia, China e outros emergentes, que deve ser aberto e facilitado às pequenas e microempresas brasileiras. E não podemos esperar mais uma década para cumprir esta missão...
O autor, Paulo R. Feldmann, é diretor da consultoria BearingPoint e Professor da Faculdade de Economia e Administração (FEA) da USP. Foi presidente da Eletropaulo (1995/96).