RH & Tendências

Sucesso depende de valores humanos

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 8 min

Otimismo, perseverança, honestidade e justiça passaram a pesar (e muito!) na hora de contratar e de impulsionar o mercado. No mundo contemporâneo não basta ter títulos na parede, é preciso colocar em prática os valores individuais em prol da coletividade.

Um dos defensores dessa tese que pretende mudar os rumos da economia e das relações mundiais de trabalho é Luis Henrique Beust, conferencista internacional, diretor executivo da Anima Mundi, consultor da Petrobras, do Programa de Desenvolvimento da Organização das Nações Unidas (ONU/PNUD) e do Ministério de Educação e Cultura (MEC), que amanhã estará em Bauru, ministrando a palestra “Valores Humanos e Sucesso - os desafios da natureza humana e o mercado de trabalho”, a partir das 19h30, no Colégio São José.

A palestra tem como objetivo analisar os principais elementos e dinâmicas da natureza humana que afetam as relações interpessoais e seu impacto sobre a produtividade, o mercado e os negócios. Serão abordados temas como: a natureza humana e o mercado de trabalho, ética e lucro, valores humanos e imagem pública, linguagem não-verbal, o simbólico e o econômico, equilíbrio pessoal e profissional.

“Nós vamos tentar tratar um pouco sobre a questão dos valores humanos na vida individual, nos relacionamentos na família, no ambiente de trabalho, cidadania, bem como o lado da vida profissional, institucional e da ética”, comenta Beust, que conversou com o Caderno RH & Tendências na última sexta-feira. Os principais trechos desta entrevista podem ser conferidos a seguir:

Jornal da Cidade - Valores humanos e sucesso, como fazer para chegar nessa equação?

Luis Henrique Beust - É possível desenvolver duas abordagens. Muita gente se dedica para os valores humanos e mesmo no mundo moderno trabalha em cima de questões como a justiça, a paz, a verdade, a caridade. Existem nomes que transformaram a história como Gandhi, Madre Teresa de Calcultá, o Papa João XXIII e temos aqueles que se dedicam ao sucesso e também influenciaram a história como um Rockfeller. E justamente, a grande questão no mundo contemporâneo é como casar essas duas coisas, como é possível desenvolver uma vida, uma carreira numa empresa ou nos negócios que sejam marcados pelo progresso e como esse mesmo esforço para o empreendimento ter êxito pode ser marcado por valores humanos que ajudem o mundo não só a ficar mais rico, mas a ficar melhor. No mundo contemporâneo isto é muito forte, a gente tem visto questões como os grandes escândalos financeiros dos últimos anos como o da Enron, nos Estados Unidos, agora a questão da Parmalat, na Europa. Se a questão da ética e dos valores não estiverem embutidos na vida profissional e social, assim como deveriam estar embutidos no coração individual, as coisas não têm possibilidade de ir para frente. Os casos recentes são emblemáticos, estão dando um sinal de que a ética e os valores que ficaram muito tempo relegados a segundo plano e que agora as coisas não são mais assim. Hoje, o mundo é diferente e as pessoas têm exigências diferentes, quem estuda marketing, psicologia social percebe isso, mas em geral, o empresário não está muito aberto para essas coisas. O mundo contemporâneo não quer produto, quer espírito. E não estou falando de religião. Mas se te derem dois pares de tênis para escolher e um tiver a marquinha do supercílio virado do avesso, você vai escolher aquele porque é Nike. Hoje os produtos são todos iguais, você compra qualquer clonagem feita na Ásia, mas tem que ter marca e quem tem marca cobra mais. Isso hoje afeta a humanidade inteira. Uma empresa que tem fama de poluidora é uma coisa e aquela que tem projeto social ou um instituto, tem investimento no terceiro setor, está ganhando uma imagem. Hoje é uma exigência. Todas as grandes corporações trabalham pelo bem-estar social e isso vai ser cobrado cada vez mais. Mas isso não pode ser modismo, se não for verdade a máscara cai e o descrédito é maior.

JC - Outro dia, num supermercado, o repositor me pediu para comprar Parmalat para ajudar. Enquanto a empresa estava no apogeu, o seu marketing era tão perfeito que cativou o Brasil inteiro. Mesmo com o escândalo acontecendo, o consumidor final ainda tem pena da empresa. Isso é normal?

Beust - É impressionante. Mas isso retrata um pouco a natureza do povo brasileiro. Eu estava reparando isso em São Paulo. As gelaterias da Parmalat estão todas cheias, mas na Europa estão vazias. Ninguém vai. Então, o brasileiro tem aquilo que o professor Darcy Ribeiro falava do homem cordial. O brasileiro tem essa coisa. A gente perdoa muito fácil. A situação social no Brasil se fosse em outros povos, mesmo da América Latina, já teria feito rolar rios de sangue. Aqui o que acontece é a violência esporádica nos centros urbanos, como uma panela de pressão que levanta a tampinha e deixa sair um pouco de vapor. Mas quando a panela de pressão explode, é uma bomba. Entretanto, também tem gente que não está mais comprando Parmalat, porque o leite azedou... E isso numa empresa comercial traz seus próprios castigos. Aliás é uma lei universal, todos as nossas ações voltam para a gente. Buda já falava dessa causalidade, onde tudo está encadeado e volta para a origem. Então, a falta de ética e a falta de valores acaba destruindo a própria empresa.

JC - Nesse sentido, os valores passam a ser bens?

Beust - Sim, pois à medida em que a sociedade avança não aumentam os males, mas sim os bens e um desses maiores bem é a consciência coletiva e cada vez mais ela vai ser exigida. No passado grande escândalos ligados à pessoas era esquecidos e até ajudavam a promovê-las, hoje em dia não é mais assim. Como os nossos filhos na adolescência começam a nos criticar e ter outros critérios, da mesma maneira podemos ver as massas da humanidade. Na maior parte da história humana, as massas foram mobilizadas come se fosse gado, sob julgo de um bom ou mal pastor. Basta ler Maquiavel e ver como ele é contemporâneo. Mas hoje o que (Carl) Jung chama de inconsciente coletivo também está avançando e a sociedade cada vez mais vai se tornar um adolescente que cobra de seus pais, que são seus líderes uma postura coerente.

JC - E aí, num determinado momento a sociedade também vai ter a rebeldia característica dos adolescentes?

Beust - Sem dúvida alguma, a rebeldia sempre vai estar presente. E isso já se deu, nas últimas eleições, uma revista representou algumas figuras que estavam na política há décadas, como dinossauros em extinção porque eles não tinham sido reeleitos. Essa rebeldia é bem conhecida pelos príncipes e pelos reis. Uma vez um famoso rei da França escutou de um conselheiro: “este povo que agora te aplaude, pode te levar amanhã para a guilhotina”. Mas quando isso se dá, quando o povo acorda, quando ele fica incomodado com a mentira e percebe que está sendo enganado. A mesma coisa acontece com o mundo do dia-a-dia, numa escola, numa firma, numa empresa de serviços. Se ela não honra os seus compromissos e a missão dela não é consolidada pelas suas ações, ela vai ser desacreditada e isso é suicídio comercial e institucional, pensar que se pode enganar as pessoas. Os valores cada vez mais estão sendo testados pela própria sociedade. Nós estamos num período de extrema transparência, nunca houve isso na história da humanidade e isso se deve ao volume de comunicação, ao acesso à informação e a agilidade desse processo. O tempo todo os meios de comunicação mostram tudo e se não houver uma coerência entre o que a pessoa ou a empresa fala e faz, o descrédito, chegará cada vez mais rápido. Em 6 mil anos de história da civilização podemos ver que quem chegou lá era quem tinha substância. Quem tinha o esforço pelo ganho, pelo sucesso associado à convição da nobreza do ser humano, sobre a veracidade, a justiça. Essas pessoas transformaram o mundo e vão continuar transformando.

JC - Hoje a gente vive num tempo em que para ser admitido numa organização empresarial é preciso ter mestrado, doutorado, MBA e tudo o mais. Em um dado momento, os valores humanos vão superar os títulos?

Beust - A educação mundial está passando por uma enorme crise e no relatório da Unesco de 1996, presidido por Jacques Delors que foi ministro da educação na França, e que está publicado em português como “Educação um Tesouro a Descobrir”, existe uma série de desafios e um deles é a flexibilização do estudo formal. A Unesco coloca a necessidade da pessoa entrar e sair do sistema de ensino a qualquer tempo, em que ela possa intercalar períodos de trabalho com períodos de estudo e que as empresas deveriam estar atentas a isso, à especialização de seus funcionários. E mais, deveria haver critérios novos de certificação. A titulação vai sempre existir, pois é uma forma da sociedade se certificar de suas capacidades. Mas o que vai acontecer e o que está acontecendo cada vez mais, especialmente em grandes centros e acredito que em Bauru também já deva estar acontecendo, é que de dez anos para cá, os candidatos começaram a ser avaliados de maneira diferente. Antes quem tinha a maior classificação em um curso, tinha emprego garantido, hoje em dia não. Os administradores das grandes corporações querem saber primeiro se as pessoas sabem trabalhar em equipe. Pois o que ganha a luta é a equipe que é otimista e joga limpo. Tem que ser bom? O melhor possível. Tem que ter titulação? Título pelo título não, mas só se for para fazer o melhor possível pelo desenvolvimento pessoal interno e da comunidade.

• Serviço

Luis Henrique Beust faz a palestra “Valores Humanos e Sucesso - os desafios da natureza humana e o mercado de trabalho”, amanhã, dia 15, às 19h30, no auditório do Colégio São José, informações: (14) 9785-7590. O evento tem apoio do Jornal da Cidade.

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