Regional

Incra assentará 23 famílias em Gália

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Gália - Em menos de três meses, a região está ganhando seu segundo assentamento de trabalhadores rurais sem terra. Depois de Piratininga, onde o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) assentou 25 famílias, em dezembro do ano passado, agora é a vez de Gália (45 quilômetros a Oeste de Bauru) ganhar um assentamento.

O Incra recebeu na semana passada a posse da fazenda Santa Júlia. No local, o governo vai assentar 23 famílias ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Embora a área já tenha começado a ser ocupada, ainda não existe uma data certa de quando o assentamento será oficializado.

As famílias beneficiadas estavam acampadas em uma estrada de terra, que fica às margens da fazenda, havia dois anos e oito meses.

Assim que foram comunicadas pelo próprio Incra de que a área havia sido adquirida pelo governo federal, os sem-terra começaram a desmontar as barracas e colocá-las do lado de dentro da fazenda, guardando uma distância de aproximadamente 100 metros entre elas, como se estivessem demarcando o terreno em lotes.

Apesar da ocupação antecipada, a localização de cada residência, dentro da área, será definida pelo Incra, através de sorteio, que também não tem data para ser realizado.

Peregrinação

Até chegar à conquista da terra, as 23 famílias que deverão ser contempladas pelo Incra passaram sete anos montando e desmontando acampamentos.

O ponto de partida do grupo foi em Bauru, quando acamparam no horto florestal. De lá, foram para uma área próxima à antiga fábrica da Coca-Cola.

Em seguida, foram para Brasília Paulista e depois voltaram para Bauru, quando fizeram parte do grupo que ocupou a fazenda Val de Palmas. Depois disso, seguiram para Presidente Alves, Iaras, Itapuí, Fernão e finalmente Gália.

Já às margens da fazenda Santa Júlia, o grupo chegou a fazer um protesto para chamar a atenção das autoridades para a situação precária em que viviam.

Sem ajuda, as famílias, segundo eles, estavam passando fome. Por isso, decidiram matar um boi da fazenda, para protestar e, ao mesmo tempo, ter o que comer.

Durante o trajeto feito pelo grupo, Neide Alcântara da Silva, 42 anos, revela que muitas famílias desistiram da luta e voltaram para a cidade de origem. Segundo ela, quando o grupo surgiu, há sete anos, eram 78 famílias.

Com o passar do tempo, sobraram as 23 que agora, finalmente, terão um pedaço de terra de onde não poderão ser expulsos por meio de mandato de reintegração de posse.

A maior parte dos sem-terra que fazem parte desse grupo é de Sumaré e Campinas. Mas existem famílias de outras cidades, como Bauru, ou até mesmo de outros Estados.

É o caso de Antônio do Carmo Santos, 40 anos, que veio de São Gonçalo do Sapucaí, no interior de Minas Gerais. Na lavoura desde os 7 anos, ele disse que ainda não sabe o que irá plantar em seu pedaço de terra.

Segundo ele, o projeto de plantio deverá partir do Incra. Só depois, cada família saberá a cultura que deverá prevalecer no assentamento e o tipo de animal que elas poderão criar para comercialização.

Independente da cultura que venha a predominar no assentamento, cada família poderá plantar frutas, verduras e legumes para sua subsistência.

Quanto a infra-estrutura básica do local, os sem-terra, que logo deixarão de ser considerados assim, garantem que receberão do Incra recursos para a instalação de energia elétrica e perfuração de poço para abastecimento de água.

Além disso, os assentados deverão receber ainda ajuda para comprar sementes e adubo para iniciar as plantações. O valor ainda não foi divulgado pelo Incra.

A posse da fazenda Santa Júlia foi expedida pelo juiz Fernando David Fonseca Gonçalves, da 3ª Vara da Comarca de Marília. A área tem 345 hectares de pasto.

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Missa para agradecer

Mesmo tendo sido avisados de que a posse da fazenda Santa Júlia poderia sair a qualquer momento, os trabalhadores rurais sem terra acampados próximo ao imóvel receberam a confirmação de que o negócio estava concretizado de formas diferentes.

“Uns choravam, outros gritavam. Tinha gente que falava que ia ter um ataque do coração. Foi muito gostoso”, relatou Neide Alcântara da Silva, 42 anos.

Para comemorar a conquista, após sete anos de reivindicação, as 23 famílias que deverão ocupar a área marcaram uma grande festa para o dia 21, próximo domingo.

Segundo Neide, um padre de Marília e freiras de Garça deverão estar no assentamento para celebrar o batizado de todos os “pagãos” e o casamento de quem ainda não oficializou a união.

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