A história política brasileira é desfile fúnebre de partidos políticos. Não tivemos partidos nacionais permanentes com fôlego de renovação e de reprodução, após ciclos de atuação política. O Partido Republicano Paulista, durante a República Velha, no primeiro quartel do século, foi bom exemplo de partido orgânico e dominante, representativo de forças sociais regionais emergentes e hegemônicas.
A ditadura de Vargas, com a máquina do Estado, construiu dois grandes partidos: o PSD e o velho PTB. Deveriam representar, com equilíbrio, as forças políticas tradicionais dos proprietários rurais e as novas forças sociais nascidas com a industrialização e a urbanização. A UDN surgiu como alternativa política inspirada nos partidos radicais franceses e na experiência histórica da União Cívica Radical na Argentina. PSD, PTB e UDN, partidos hegemônicos, duraram enquanto durou a periclitante democracia brasileira. Foram enterrados pela ditadura militar de 1964.
A democracia inglesa inspirou milicos deslumbrados. Imaginaram postiça democracia criando a Arena e o MDB. A Arena sucumbiu com a crise do sistema autoritário. Transmutou-se em de PDS. Travestiu-se em PFL e, recentemente, em PP. O MDB transformou-se no PMDB: imensa frente política nacional, que comandou a luta política pela redemocratização do País. O PMDB pariu partidos progressistas, mas acabou por igualar-se a outros partidos representando oligarquias políticas regionais.
Liberalidade extraordinária na Constituição de 88 permitiu a multiplicação de organizações partidárias. Os partidos, hoje, amontoam-se para compor situação e oposição no Congresso nacional. Nos últimos anos, a hegemonia política foi disputada entre a situação, comanda pelo PSDB, e a oposição coordenada pelo PT. As eleições de 2002 inverteram as combinações.
O PT atingiu a maioridade. Completou 24 anos. Começou lá nos anos 80 como um grupamento de sindicalistas cristãos e trotskistas que pensavam mobilizar as massas trabalhadoras para revolucionar a vida política brasileira. Naquele tempo, já tinha algo de fora de moda. O país saia de uma ditadura. Sofria todas as contradições e diversidades sociais que sofre hoje.
Tensões políticas geraram o líder operário que afirmava, com certa galhofa, que sua ideologia era ser pernambucano. Floresceu, durante e ditadura, lutando pelos direitos dos trabalhadores sindicalizados do ABC. Tempos de glória. Lula da Silva gostava de intelectuais. Intelectuais gostavam de Lula. Lula era líder operário. Lula da Silva aproximou-se de empresários. Intelectuais e homens das comunicações fabricaram e potencializaram sua liderança. Trabalhou sua imagem, como ninguém. Normal e explicável. O PT era Lula. Sem Lula não haveria PT. Lula da Silva conquistava adeptos. Seguidores obcecados. Alguns permanentes. Outros que ficaram pelos caminhos da vida. Lula namorou Fernando Henrique. Fernando Henrique gostou de Lula. Cada um seguiu seu caminho. Adotou Weffort como seu guru por vários anos. Zé Dirceu veio em seguida, com seu pragmatismo avassalador passando por cima de dos intelectuais esquerdistas e sonhadores. Novos tempos, novas práticas. O paradigma da virtude política passou a ser o pragmatismo. Doença congênita das esquerdas no fim do século...
A crise mundial da militância assolou também o PT. O partido continuou a prometer, religiosamente, reformas e mudanças sociais. De vendedor de ilusões, virou espantalho. Pode ter um fim trágico...
O autor, Ulysses Guariba, é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.