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Sintonia certa!


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Todos sabemos que ler é muito importante. É uma forma prazerosa de se enriquecer espiritualmente. Ainda assim, para ingressar nesse universo encantador é necessário um cuidado mais que especial na seleção das palavras. Para o poeta Mário Quintana, existem palavras que, pelo seu desuso, caem no porão do nosso inevitável esquecimento. Observe:

Há palavras que ninguém emprega. Apenas se encontram nos dicionários como velhas caducas num asilo. Às vezes uma que outra se escapa e vem luzir-se desdentadamente, em público, nalguma oração de paraninfo. Pobres velhinhas... Pobre velhinho! Em outro momento Quintana brinca com o uso da palavra corriqueira e, com ela, faz humor. Há palavras que parecem exatamente o que querem dizer. “Esparadrapo”, por exemplo. Quem quebrou a cara fica mesmo com a cara de esparadrapo. No entanto, há outras, aliás de nobre sentido, que parecem estar insinuando outra coisa. Por exemplo: “incunábulo.”

Em sintonias diferentes, a palavra pode ser bigúmea, pois pode tanto nos unir quanto nos separar. Assim como a flecha lançada e a oportunidade perdida, a palavra anunciada desconhece o seu retorno, o seu caminho regresso. Por isso, qualquer desleixo pode ser a pedra a estilhaçar a nossa frágil vitrine. Proporcionalmente à roupa, pode cobrir ou descobrir um corpo, oferecendo prestígio ou desgosto a quem delas se vale. Maliciosamente pode ser a fonte de todas as intrigas, o início de todos os processos e a mãe de todas as discussões. Pode separar a humanidade, dividir povos. De forma despudorada, funciona também como canal da mentira, da discórdia, das guerras, da exploração. É a palavra que mente, que esconde, que explora, que blasfema, que insulta, que se acovarda, que xinga, destrói, que corrompe. Nos governos despóticos, podemos com ela tingir os brancos muros da consciência coletiva. Por meio dela, dizemos “morra”, “canalha”, “demônio”.

Por outro lado, se bem usada, proporciona-nos – felizmente – bom gosto, refinamento cultural, podendo cantar e encantar pessoas. É a palavra que nos une a todos, quando falamos. Sem ela, não poderíamos nos entender. A palavra oferta-nos a verdade, a razão. Graças a ela, constroem-se cidades, graças a ela podemos externar o nosso amor. É o fio condutor da ternura, do amor, da compreensão. É por meio da palavra que os poetas eternizaram os versos e os escritores, seus pensamentos. Com ela, persuadimos, oramos, descrevemos, elogiamos e afirmamos. Como educadores, educamos. Com a palavra, dizemos “mãe”, “querida”, “meu irmão”, “saudade”, “eu te amo” e, é claro, “Deus”. Por tudo isso, nas mais adversas situações, quantas palavras não nasceram e morreram no mais íntimo momento que a pronunciamos. Pense nisso. (O autor, Alexandre Benegas, é professor de Língua Portuguesa do Colégio Fênix)

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