Não é possível pensar em nada durante as pouco mais de duas horas de duração de “A Paixão de Cristo”. Cabe ao espectador apenas ver os tapas, socos, zombarias, cusparadas, chicoteadas e flagelos de todo o tipo que Jesus Cristo sofre desde o beijo de Judas até a ressurreição. No cinema, a platéia se comporta como se estivesse em um avião atravessando uma turbulência: se encolhe nas cadeiras, retesa os músculos e torce para aquilo tudo acabar logo.
O filme é extremamente violento e explícito. É possível ver nacos de carne sendo arrancados do corpo de Jesus a cada golpe mais forte, os cravos da coroa perfurando a pele e os pregos sendo introduzidos nas mãos e pés com riqueza de detalhes e closes. Afinal, o espectador precisa passar por isso? Não, a não ser que assim queira.
A violência é justificada? Sim. Por dois motivos: o primeiro é que, segundo consta, foi assim que aconteceu. Segundo, porque talvez a intenção do diretor Mel Gibson seja transmitir ao público o sofrimento de Cristo compartilhando cada detalhe de sua dor e humilhação. E Gibson o faz retomando uma tradição abandonada há mais de 400 anos na cultura ocidental, que havia sido substituída por um retrato mais palatável do calvário e da própria crucificação. É o caso de ver para crer.
Sendo assim, curioso o fato do apóstolo Tomé - que eternizou o “ver para crer” - não apareça no filme para constatar com os olhos e as mãos a ressureição de seu mestre. Isso porque todo o filme é baseado no “ver” sem censura da carne retalhada de Jesus e, paradoxalmente, naquilo que não se vê. Sintomático é o fato de que Jesus permaneça quase todo o filme com um olho estourado.
O que é visto é apenas a retalhação da carne de um humano. O que não se vê é o que interessa ao cristianismo: crer pela fé. Então, sem os olhos viciados de tanto ver e querer ver, aquele homem passa ser “O” Homem, o Cordeiro de Deus enviado para salvar a humanidade do pecado. É preciso fé para crer nessa história.
Recompensa
Durante o filme, que basicamente conta as últimas 12 horas de Cristo a partir dos quatro Evangelhos e de parte do livro de Isaías, episódios como a Santa Ceia e a intervenção de Jesus para defender Maria Madalena são narrados em flashbacks curtos. Um trecho escolhido do Sermão da Montanha para figurar na narrativa, não por acaso, é aquele em que Jesus pede para que as pessoas amem seus inimigos, pois “que recompensa haveria em amar apenas os amigos?”
Ora, que recompensa é essa? Novamente, aquela que não se vê, mantida e garantida apenas pela fé. Há duas conversões no filme. A primeira é a do guarda judeu que vai prender Jesus em Getsêmani. Pedro golpeia o homem com uma faca, decepando-lhe a orelha. Com um toque, Jesus volta-lhe o pedaço ferido como se intocado. O guarda, chamado Malco, tateia a orelha e passa a crer.
Jesus é crucificado ao lado de dois ladrões, como conta a Bíblia. Um deles zomba do “Rei dos Judeus”, que não consegue salvar a si próprio da cruz. O outro pede a Jesus que o salve e o leve a seu reino e tem seu pedido atendido. Não há cura, não há tato, não há milagre. O ladrão apenas tem fé de que será salvo. Para que o espectador médio se certifique disso, um corvo bica os olhos do ladrão que preferiu a zombaria.
Como levantado pelo crítico do Estado de São Paulo Luiz Carlos Merten, o filme é todo baseado em uma coreografia de olhares de Jesus - com Pedro, com Judas, com Maria. Assim, o que não se diz e o que não sai sangue tem tanto ou mais significado quanto a carne retalhada.
O demônio, figura andrógina interpretada pela atriz Rosalinda Celentano, lança seus olhares de sedução todo o tempo. Está presente em Getsêmani, durante o flagelo, junto com crianças de feições assustadoras aterrorizando Judas, na crucificação. No entanto, o demônio mal aparece personificado nos Evangelhos.
Ao que parece, Gibson quer mostrar que o demônio está em toda a parte, tentando (no caso Jesus) e oprimindo (como com Judas) o homem.
Neste ponto, cai por terra a alegação de que o filme seria anti-semita - que, por falar nisso, é polêmica importada pela imprensa brasileira.
São os judeus que entregam Jesus a Pôncio Pilatos, pedindo castigo e morte na cruz, afinal Ele estaria blasfemando, agitando revoltas populares contra o pagamento de tributos, desafiando as autoridades judaicas. Pilatos é um pateta assustado, não quer saber daquilo, manda Jesus ao rei Herodes, lava as mãos. “Ecce homo!” (“Eis o homem”), enfim diz, para delírio do público.
Ora, o que se vê naquela aglomeração de judeus é um caso de histeria coletiva provocado, segundo Gibson, pela presença ubíqua e constante da bizarra entidade demoníaca - vide a gritaria dos judeus para libertar um asqueroso Barrabás.
Numa comparação superficial, o Satanás camuflado entre o povo que pede a crucificação aparece de forma bem mais explícita no filme de Gibson do que nas próprias Escrituras. E, por fim, Jesus é judeu e se apresenta para os judeus numa terra de judeus. Tivesse a Paixão ocorrido no Uruguai, o filme seria anti-urugaio?
Moldura
O filme de Gibson não teria o mesmo efeito sem duas peças fundamentais: Jim Caviezel, o ator que faz o Jesus mais verossímil da história do cinema, e o diretor de fotografia Caleb Deschanel. Já nos primeiros minutos de filme, na escuridão de Jesus pedindo ao Pai que, se possível, afastasse aquele cálice, o jogo de claro-escuro (com doses que mudam a cada cena) emoldura com rara beleza o início do sofrimento.
No decorrer da Paixão, na medida em que se aproxima a crucificação, as cores vão se refugiando nos tons alaranjados e, em seguida, dissipam-se em cinzas e azuis. Até que se prove o contrário, a equipe sabia o que estava fazendo, bebendo na fonte da escola estética que elegeram, a saber, o renascentista Caravaggio, autor de “Flagelação de Cristo”.
A mão de Gibson sabe também evidenciar momentos de maior tensão, como os efeitos de slow-motion dentro de alguns takes, e closes absurdos e silenciosos nos olhos ao mesmo tempo atônitos e resignados de Jesus na cruz.
Do mesmo modo, as caricaturas contribuem para que o espectador sinta-se em solo conhecido. Os carrascos romanos são grandes e malvados, as autoridades judaicas são velhuscos metidos em roupas finas, o rei Herodes e sua corte parecem ter saído de um baile de Carnaval. Nessa história, bem e mal estão em territórios definidos apenas no que se dá a ver.
Assistir a “A Paixão de Cristo” é um duro exercício que começa do lado de fora do cinema e não se encerra quando as luzes se acendem. Mesmo assim, repito: não é possível pensar em nada durante o filme.