Botucatu - A Câmara Municipal de Botucatu (100 quilômetros a Sudeste de Bauru) discute na sessão de hoje um projeto de lei polêmico que quer proibir a participação de estudantes calouros e veteranos nos chamados “pedágios” - prática de arrecadação de dinheiro nos principais cruzamentos da cidade durante as primeiras semanas de aula.
O projeto, de autoria da Mesa Diretora, é uma proposta de emenda à Lei 3.912, de 1999, que dispõe sobre a proibição de trotes violentos. Para ser aprovado, o texto precisa contar com nove votos dos 17 vereadores da Casa, ou seja, a maioria simples. Universitários consultados pela reportagem mostraram-se contrários à iniciativa.
Assinado pelos vereadores Ednei Carreira (PL), Domingos Chavari Neto (PTB), Antônio Carlos Vaz de Almeida (PL) e Ademir Lopes Dionísio (PPS), o projeto prevê a proibição de qualquer tipo de arrecadação por parte dos estudantes, cuja destinação do dinheiro não seja definida pela direção das faculdades.
Os vereadores querem ampliar a abrangência da lei em vigor e alegam que a medida se justifica pelas notícias de que trotes violentos teriam ocorrido este ano na cidade. Até ontem, apenas um registro havia sido formalizado na Polícia Civil.
Segundo os parlamentares, a Lei Municipal 3.912 proíbe a realização de trotes sob pressão, agressão moral e física, ou qualquer outro tipo de constrangimento que possa colocar em risco a saúde e a integridade física dos calouros. “Entretanto, os trotes têm ido além dessas anormalidades. Os calouros têm sido obrigados a sair às ruas e ficar nos cruzamentos realizando arrecadações em dinheiro, cuja destinação ninguém tem acesso. Pintados, os calouros são expostos a situações vexatórias”, justificam no texto.
De acordo com o vereador Chavari, em geral a arrecadação proveniente dessa prática é revertida para a compra de bebidas alcoólicas. “Eles bebem e acabam acontecendo muitos problemas nas repúblicas, como coma alcoólico”, diz. Na avaliação do parlamentar, seria nesse contexto de reuniões “regadas à bebida” que também estariam ocorrendo trotes violentos contra os calouros.
Ele admite que a iniciativa poderá ter uma repercussão negativa por parte dos estudantes. “Mas para a população e principalmente para os pais dos calouros isso trará tranqüilidade”, defende.
Na avaliação do presidente da Câmara, Ednei Carreira, o “trote financeiro” (como está sendo apelidado pelos vereadores) não seria constrangedor apenas para os calouros, mas também para os motoristas que são abordados no trânsito.
Se a lei entrar em vigor, as penalidades para os universitários que não cumprirem a determinação serão tomadas em nível administrativo pela direção das faculdades. Entre elas está prevista, inclusive, a expulsão dos envolvidos.
Botucatu possui cerca de 2,5 mil estudantes universitários em regime de graduação no câmpus da Universidade Estadual Paulista (Unesp), nas faculdades de medicina, agronomia, biociências, veterinária e zootecnia. Segundo a assessoria de imprensa da Faculdade de Medicina, anualmente cerca de 480 calouros são recebidos pela universidade. Grande parte é proveniente de outras cidades e Estados.
A assessoria afirma que a faculdade tem estimulado a realização de trotes solidários e não tem tido problemas com registros de violência envolvendo os alunos de medicina, inclusive em relação à prática de pedágios.
Repercussão
O veterano do 3.º ano de medicina da Unesp e representante dos estudantes na Comissão de Recepção aos Calouros, Leandro Caetano Vilela Lemos, afirma que os alunos do curso receberam de forma negativa a notícia do projeto dos vereadores.
O representante se diz favorável à proibição de trotes agressivos, no entanto, não considera a prática do pedágio algo dessa natureza. “Não tem motivo para proibir o pedágio. Este é um trote muito bem aceito socialmente”, diz. “Nós recebemos a notícia com tristeza, principalmente pelo que ela significa, que é o combate ao trote que não é agressivo”, completa.
Na avaliação do estudante, os vereadores estão tratando a questão de forma indiscriminada. Ele também critica o fato do Legislativo estar defendo a proibição do pedágio, sem a preocupação de discutir o problema com os estudantes.
Lemos defende que a arrecadação de dinheiro nas ruas da cidade é um momento de integração entre calouros e veteranos e que nunca presenciou registros de violência em ocasiões como essa.
A verba conquistada é revertida na promoção de reuniões de recepção, mas não só, segundo o estudante. Neste ano, por exemplo, ele conta que parte do dinheiro arrecadado será aplicado na compra e reforma de instrumentos da bateria da faculdade.
Além disso, Lemos afirma que, se a preocupação dos vereadores é com o consumo da bebida alcoólica, o problema vai continuar existindo, independentemente da proibição dos pedágios. “A bebida alcoólica vai existir com ou sem o trote. Bebe quem quer. Ninguém força os estudantes a ficarem bebendo. É uma questão de consciência”, diz.
Também a caloura Drieli Peixoto, que ingressou este ano no curso de medicina, é contrária à proibição do pedágio. Ela afirma que foi submetida ao trote neste ano e não se sentiu exposta a qualquer situação humilhante. “Se você se sente incomodada, o veterano pára na hora”, assegura.
A estudante avalia a prática como um ritual de confraternização. “O pedágio é uma forma de comemoração. É a hora que a gente vai para a sociedade comemorar o que a gente conseguiu”, destaca.
Denúncias
Apesar de ter recebido informações extra-oficiais de vários casos de trotes violentos que teriam ocorrido no município, o delegado titular do 2.º Distrito Policial de Botucatu, Marcos Sagin Campos, afirma que apenas uma denúncia foi formalizada neste ano.
O caso teria sido levantado por um funcionário da Faculdade de Medicina Veterinária da Unesp, que teria presenciado dois calouros sendo levados no porta-malas do veículo de um veterano.
As vítimas foram ouvidas e negaram que teriam sido obrigadas a ser transportadas nessas condições. Segundo o delegado, que está presidindo as investigações, como os calouros não confirmaram a queixa o inquérito deve ser encerrado.
Na avaliação dele, dificilmente as denúncias envolvendo casos de trote agressivo têm prosseguimento, porque as vítimas, em geral, sentem-se intimidadas pelos veteranos.
O delegado afirma que tem informações de que várias modalidades de trotes violentos estariam ocorrendo na cidade no período de recepção aos calouros. Uma delas é a chamada “lavagem cerebral”, na qual o estudante é obrigado a colocar a cabeça no vaso sanitário, enquanto veteranos puxam a descarga.
Sagin conta que recebeu recentemente o telefonema de um pai de aluno que se mostrou preocupado com a situação. Segundo ele, seu filho, matriculado na Faculdade de Ciências Agronômicas da Unesp, estaria extremamente abalado pelos trotes a que foi submetido (entre eles a lavagem cerebral) e está tendo que realizar tratamento psicológico.
O delegado afirma que o câmpus da Unesp apresenta um histórico de trotes violentos. Há casos de estudantes de outras cidades, segundo ele, que teriam desistido do curso, traumatizados pela recepção negativa.
“Nós precisamos combater essa cultura da violência. Essa tradição que se desvirtuou na história, que começou como uma coisa alegre e hoje tornou-se uma coisa deplorável e violenta”, diz.
Sagin mostra-se favorável à aprovação do projeto de lei que tramita na Câmara, que propõe a extinção dos pedágios. Para ele, essa “brincadeira aparentemente ingênua” estaria expondo os estudantes a situações vexatórias e humilhantes. “Por trás de toda essa concordância aparente dos calouros, nós sabemos que há uma coação, ainda que velada. Ninguém faz coisas ridículas em público por livre e espontânea vontade”, opina.