Depois de nove anos de crescimento consecutivo desde a entrada em vigor do Plano Real, o mercado de consumo de massa no Brasil apresentou estabilidade em 2003. Os dados são da empresa de consultoria AC Nielsen, de São Paulo, que realiza há dez anos o levantamento Mudanças no Mercado Brasileiro.
De acordo com informações da assessoria de imprensa da empresa, em comparação com 2002 o consumo de bens não duráveis apresentou estabilidade de -0,6%.
A pesquisa é baseada no acompanhamento de 153 categorias auditadas regularmente pela AC Nielsen.
Dois fatores foram fundamentais para essa alteração nos hábitos de compra do brasileiro, segundo a consultoria: queda do poder aquisitivo e aumento de preços acima da inflação da maioria dos produtos pesquisados.
A empresa divide os produtos em categorias, as quais chama de cestas. Segundo informações de sua assessoria de imprensa, as bebidas alcoólicas, não alcoólicas e os materiais de limpeza, embora tenham ficado com seus preços abaixo da inflação, não conseguiram aumentar o volume de vendas. “Já as cestas de mercearia salgada e perecíveis aumentaram seus preços acima da inflação e tiveram queda nos volumes”, destaca o órgão de imprensa.
A exceção foi a cesta de higiene e beleza, que cresceu 4,5% em volume de venda no ano passado, mesmo depois de reajustar seus preços em 4,7%. Para entender porque alguns produtos com preços contidos não aumentaram as vendas, enquanto outros, que tiveram reajustes nos valores, subiram na preferência do consumidor, a AC Nielsen aprofundou o estudo.
De acordo com as suas conclusões, o que ajudou a categoria de higiene e beleza a a ter o seu consumo elevado foram os investimentos em promoção, publicidade e distribuição. “Isso comprova que investir na marca, através de ações mercadológicas, continua sendo o caminho seguro para a fidelidade do consumidor”, explica Arthur Bernardo Neto, diretor-geral da AC Nielsen CBPA, divisão de pesquisa da empresa.
Mais crítico
Bernardo Neto ressalta que o consumidor tem mudado o seu perfil ao longo dos anos. “As pessoas passaram a ser mais críticas, a comprar novos produtos, a experimentar mais”, salienta.
Outro ponto levantado pela pesquisa dá conta de que as pessoas também alteraram seus hábitos de consumo. “Elas buscam locais de compra mais próximos de sua casa e com preços mais atraentes”, ressalta o diretor.
Ele diz que foi surpreendente constatar que 87% dos consumidores pesquisados se mostraram hábeis em alterar as listas de compras no supermercado, cortando, diminuindo ou trocando produtos.
A dona de casa Anna Peron Ferreira representa bem esse novo perfil. Ela conta que, antes de comprar, tem o costume de pesquisar bastante os preços. “Não dá para ficar apegada a determinadas marcas. Tem que variar para encontrar o melhor valor, sempre levando em conta a qualidade”, afirma.
Ela explica que costuma mudar bastante de marca e que não vê problemas em testar produtos em lançamento. “As marcas mais famosas são muito mais caras”, destaca.
Até mesmo de supermercado Anna troca com freqüência. “Procuro observar onde estão as promoções mais atraentes”, afirma.
Já a também dona de casa Daucira Rufato Pavani destaca que nem sempre o que está em promoção compensa. “Se o produto for muito ruim, você acaba jogando dinheiro fora”, alerta.
Ela só abre exceção quando o assunto é produto de limpeza. “Nesse quesito, aposto no mais barato”, frisa.
Daucira salienta que, do ano passado para cá, reduziu consideravelmente a sua lista de compras. “Os preços subiram muito e foi preciso diminuir a lista de produtos.”
Táticas de compra
Para driblar a alta dos preços e não deixar faltar nada na despensa, os consumidores tiram da cartola alguns truques importantes no momento da compra.
Um deles é levar uma lista do que precisa ao supermercado. “É importante fazer isso, senão a gente leva o que não precisa e gasta muito mais”, destaca a professora Mariângela Garcia de Almeida. Outra dica dela é diminuir as idas ao supermercado. “Deixo para fazer compras a cada dez dias.”
Produtos considerados supérfluos, como doces, biscoitos e chocolates, estão sendo recusados no carrinho de alguns consumidores. “Eu cortei essas coisas que não são essenciais. Assim, consegui reduzir o valor das minhas compras”, destaca a comerciária Márcia Zaitun Gomes.
A pesquisa da AC Nielsen mostra que 35% dos consumidores ouvidos afirmaram ter cortado das compras itens como iogurte, bolachas/biscoitos, refrigerantes, queijos e industrializados de carne.
Pesquisa
A AC Nielsen é uma empresa multinacional que está no Brasil há 32 anos trabalhando com pesquisa de mercado.
O levantamento Mudanças no Mercado Brasileiro - Entendendo o Consumidor é realizado anualmente e destinado aos clientes da empresa, fabricantes e varejistas.
Foram auditadas 153 categorias de produtos, entre elas creme dental, cerveja, pães, iogurte, arroz e café em pó.