Ingerir pelo menos dois litros de água por dia para garantir uma boa saúde é uma recomendação que tem sido muito repetida nos últimos anos. Mas este bem tão precioso da Terra é usado, desde a antigüidade, para tratar e curar diversos males e doenças. No Dia Mundial da Água, comemorado hoje, o Jornal da Cidade mostra as principais formas de utilização terapêutica deste líquido, que é sinônimo de remédio caseiro e científico.
Um banho quente para relaxar depois de um dia de trabalho puxado, um banho frio para despertar, uma compressa quente para aliviar um torcicolo, um pouco de gelo depois de uma pancada, um escalda-pés depois de uma chuva - receitas que passam de pai para filho há inúmeras gerações e que todo mundo usa, muitas vezes até sem perceber.
De acordo com o fisioterapeuta Eduardo Aguilar Arca, professor da disciplina de hidrocinesioterapia (terapia do movimento pela água) na Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru, registros do ano 2400 a.C. indicam que o ser humano já usava a água com fins terapêuticos e higiênicos naquela época.
“Mais tarde, por volta do ano 330 a.C., gregos e romanos criaram um sistema de banhos que intercalava piscinas de água quente, morna e fria para tratar as chamadas dores do reumatismo. As piscinas, usadas com fins recreativos, higiênicos e medicinais, só eram usadas por membros da realeza e atletas. Hoje, essa técnica é chamada banho de contraste e é aplicada com bons resultados pela fisioterapia”, comenta.
Arca conta que o potencial terapêutico da água só começou a ser observado cientificamente há cerca de 40 anos, quando os norte-americanos intensificaram seus projetos para viagens espaciais. “Eles usaram tanques com água para avaliar o efeito da microgravidade sobre o organismo humano”, salienta.
Paralelamente, os cientistas começaram a perceber resultados positivos da água sobre outros aspectos do organismo. Então, surgiram os primeiros estudos sobre o uso da água na reabilitação de pacientes que haviam sofrido alterações neurológicas, como o acidente vascular cerebral (AVC ou derrame).
No Brasil, a hidroterapia começou a ser usada como técnica de reabilitação entre as décadas de 80 e 90, segundo o fisioterapeuta. As principais aplicações eram imersão de membros (braços e pernas) em recipientes com água quente ou fria, banhos de contraste, duchas e jatos (hidromassagem), usados para tratar contraturas e outras lesões.
“Até que o cientista Hubert percebeu que crianças com paralisia cerebral, que têm aumento do tônus muscular, apresentavam uma diminuição desse tônus quando imersas em água morna e isso facilitava seus movimentos. Daí surgiu a hidrocinesioterapia, que é a terapia na água para facilitar o movimento”, descreve Arca.
Ele explica que a hidrocinesioterapia utiliza-se de várias propriedades físicas da água para reabilitar pacientes que apresentam alterações no movimento. “Uma das propriedades é o empuxo, que promove uma redução no peso de suporte do paciente. Isso faz com que ele tenha menor pressão sobre as pernas, ligamentos e articulações. Tira o risco de lesões e facilita, por exemplo, a reeducação da marcha (andar)”, explica.
A pressão exercida pela água dentro da piscina ajuda a sustentar o corpo, auxiliando o paciente a manter-se estabilizado e equilibrado. A pressão hidrostática e a temperatura por volta de 3 graus também melhoram a circulação sangüínea e relaxam a musculatura.
“A água torna a reabilitação mais suave, o paciente tem mais facilidade em recuperar a coordenação e isso contribui muito para o aspecto psicológico também. Conforme evolui, ele recupera auto-estima, senso de realização, independência funcional. É uma motivação que vai auxiliar na terapia de solo e mesmo nas tarefas do dia-a-dia”, defende o fisioterapeuta.
Indicações
Segundo Arca, a hidrocinesioterapia é indicada, principalmente, para tratar lesões ortopédicas (pós-fraturas, pós-operatórias), idosos com dificuldades de movimento, doenças reumáticas, gestantes com lombalgia.
Também é usada na reabilitação de pessoas que apresentam lesões neurológicas causadas por derrame, paraplegia, mal de Parkinson, esclerose múltipla, paralisia cerebral, síndrome de down, pessoas que sofreram amputações e muito mais.
“O trabalho feito em piscinas promove fortalecimento muscular, equilíbrio, condicionamento físico e cardiorrespiratório (...) São piscinas especialmente projetadas para isso, com escada especial, três profundidades, barras fixas para apoio, elevador para usuários de cadeiras de rodas e a água numa temperatura considerada terapêutica, que é mais quente do que a piscina da natação e da hidroginástica”, destaca.
Segundo o fisioterapeuta, a hidroterapia só é contra-indicada para pessoas com lesões na pele (micoses, feridas, escaras), infecções urinárias, incontinência fecal, insuficiência cardíaca e respiratória graves e hidrofobia (pânico de água).
Receitas da vovó
Banho frio: uma ducha fria é um excelente remédio para despertar, ativar a circulação e estimular. Também ajuda a controlar a febre.
Banho quente: Um banho demorado sob a água quentinha é excelente para relaxar depois de um dia de trabalho. Ajuda a descongestionar os músculos, trazendo alívio às dores musculares.
Inalação: Respirar o vapor da água fervente ajuda a descongestionar as vias nasais. Muitas vezes, só o vapor - sem remédios - é suficiente para melhorar a respiração.
Compressa: Pode ser fria ou quente. Se você tem uma bolsa de gel, aqueça-a em água quente ou resfrie-a em geladeira e coloque sobre a região lesada. Se não, despeje um pouco de água (quente ou fria) num balde, molhe uma toalha, torça e coloque-a dobrada sobre a região lesada. Repita o processo sempre que a toalha esquentar ou esfriar. A água quente relaxa a musculatura, a fria alivia dores de pancada e estanca sangramentos.
Dica: A pesquisadora norte-americana Dian Dinchin Buchman revela o potencial curativo da água em sua obra “A cura pela água - 500 maneiras de usar a mais antiga das medicinas naturais” (Brasiliense, 1981). Trechos da obra podem ser vistos no Jornal Vida Integral, pelo site www.vidaintegralcom.br, em Medicina Complementar - hidroterapia.
Bons efeitos terapêuticos estão ligados à temperatura correta
A temperatura adequada é essencial para se obter os melhores efeitos terapêuticos da água. De acordo com o fisioterapeuta Eduardo Aguilar Arca, as compressas com água fria e gelo são indicadas para a fase aguda de uma lesão.
“A pessoa acabou de sofrer entorse, por exemplo, colocar uma bolsa de água fria ajuda a minimizar o edema (inchaço) e a aliviar a dor. Você pode repetir a compressa fria por até 72 horas depois”, recomenda.
Para usar o gelo, Arca explica que é preciso colocá-lo num saquinho plástico e envolvê-lo por uma toalha. O contato direto do gelo com a pele pode causar queimaduras ou outros danos. “Você pode quebrar o gelo para que ele se ajuste melhor à área lesada ou usar uma bolsa de gel. Deixe 15 a 20 minutos no máximo. Você pode repetir duas a três vezes ao dia. É importante imobilizar a região lesada por alguns dias”, ensina.
A água em temperatura ambiente (26 graus, em média) é a mais adequada para a prática da natação, segundo Arca. Entre 28 e 29 graus, a piscina torna-se ideal para a prática da hidroginástica. A hidroterapia usa uma temperatura entre 32 e 34 graus, que facilita o relaxamento muscular, aliviando as dores e facilitando os movimentos.
Um pouco mais quentes, as compressas também servem para relaxamento de regiões doloridas e tensas, como ombros, pescoço. É ideal para tratar torcicolos e dores no pescoço por tensão, além de melhorar a circulação sangüínea. “Mas a temperatura deve ser um quente agradável, não deve ultrapassar os 45 graus, pois aí o indivíduo sofrerá uma queimadura”, adverte.