Agudos - “Afirmo, como provedor do hospital, que nós não temos condições de continuar tocando o Pronto-Socorro nessas condições”. A declaração foi feita ontem por Roberto Fogagnoli, provedor do hospital de Agudos (18 quilômetros a Sudeste de Bauru).
Segundo ele, a instituição tem cerca de R$ 190 mil em atraso para receber da prefeitura. Para piorar, ele teria recebido a informação de que o governo do Estado planeja reduzir as internações mensais pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e conseqüentemente diminuiria também os recursos que o hospital recebe pelo atendimento.
Das 206 internações mensais permitidas atualmente, o limite cairia para 144. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria de Estado da Saúde a informação é precipitada.
O assunto está sendo discutido nas Diretorias Regionais de Saúde (DIRs), mas segundo a assessoria não há nenhuma mudança definida. Após a discussão em nível regional, o assunto ainda será debatido em nível estadual e federal.
Segundo Fogagnoli, o hospital de Agudos atende hoje até 280 internações por mês, via SUS.
Para evitar um prejuízo ainda maior, caso a redução seja efetivamente implantada, o provedor estuda uma maneira de selecionar as internações, restringindo-as apenas aos casos mais urgentes. Isso, segundo ele, dependeria de uma conversa com os médicos.
Atualmente, passa pelo Pronto-Socorro (PS) de Agudos cerca de 150 pessoas por dia. Muitas das quais não necessitariam ir até lá para serem atendidas. Uma visita aos Postos de Saúde resolveria o problema. Mas por uma questão de hábito, o socorro médico é quase sempre procurado no PS, o que acaba sobrecarregando o local.
Na opinião de Fogagnoli, as pessoas agem desta forma porque se for preciso internar o hospital está logo ali do lado.
Os R$ 190 mil devidos pela prefeitura foram se acumulando ao longo dos meses. O município tem atrasado os pagamentos mensais pelo serviço de urgência e emergência prestados pelo hospital.
O último depósito foi feito anteontem, no valor de R$ 60 mil. De acordo com o convênio assinado entre o município e o hospital, os repasses deveriam ser de R$ 95 mil todos os meses.
No começo do ano, a dívida estava em torno de R$ 300 mil e a direção do hospital chegou a anunciar que o PS fecharia as portas se não recebesse da prefeitura uma parte dos créditos.
O risco foi afastado temporariamente depois que o município fez um depósito de R$ 100 mil.
“Nós vamos caminhar para isso novamente se não recebermos do nosso maior cliente, que é o município, o que ele nos deve”, afirmou Fogagnoli.
“Se o município não pode nos pagar, nós não podemos prestar o serviço”, disse o provedor, reforçando a disposição da associação de suspender o atendimento de urgência.
Segundo o gerente administrativo do hospital, Alberto Alves Lima, existe uma cláusula no contrato firmado entre a prefeitura e a associação que permite a rescisão do convênio mediante aviso prévio de 60 dias.
Quando o motivo é falta de pagamento, a suspensão do serviço pode ser feita imediatamente. Apesar de ter esse direito, Fogagnoli assegura que “jamais fará isso de um dia para outro”.
Na opinião do provedor, falta planejamento nos gastos do município. Caso contrário, o pagamento das cotas mensais para o hospital, segundo ele, não atrasariam.
“Como nós entendemos um pouco de administração, estamos achando que não há como a prefeitura liquidar a dívida conosco e fazer os pagamentos em dia se não mudar radicalmente de atitude”, declarou o provedor.
Ele questiona ainda as prioridades da administração municipal. “Se a prefeitura não tem R$ 190 mil para quitar a conta de um hospital que está atendendo a população, por que nós precisamos duplicar uma avenida de acesso à cidade?”
A obra em questão é a duplicação da avenida Carvalho Pinto, que liga a rodovia Marechal Rondon ao Centro da cidade, numa extensão de aproximadamente três quilômetros. O custo estimado do serviço é de R$ 3 milhões.
____________________
Prefeito contesta
"Enquanto eu for prefeito, eu garanto que o Pronto-Socorro não fecha”, declarou ontem José Carlos Octaviani (PMDB).
Segundo ele, se for preciso a prefeitura assume a administração do atendimento de urgência e emergência da cidade, mesmo sabendo que a despesa para o município será maior.
Octaviani não nega a dívida, mas disse que por enquanto não tem condições de pagá-la de uma só vez. Os planos, segundo ele, é zerar o débito até o fim de seu atual mandato.
No entanto, o prefeito não aceita que só ele seja cobrado. “É muito fácil cobrar do prefeito. Ninguém cobra do governador ou do presidente mais verba para a saúde”, reclamou Octaviani.
“Não é só a prefeitura que atrasa o pagamento (para os hospitais). Isso acontece também com o governo estadual e federal”, comparou.