Barra Bonita - Durante uma rápida visita a Barra Bonita (68 quilômetros a Sudeste de Bauru), o deputado federal Luís Eduardo Greenhalgh (PT) classificou de justa a pressão que deputados da base aliada estão fazendo sobre o governo federal para a liberação de verbas do orçamento.
“Os aliados reclamam que votaram a favor das reformas e mesmo assim o governo não libera o dinheiro de suas emendas. São pleitos legítimos”, disse ontem o deputado durante uma teleconferência na Rádio Emissora da Barra, da qual o JC participou.
Nos últimos dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assistiu a uma rebelião em sua base aliada comandada por PMDB, PTB, PP e PL, que exigiam cargos, liberação de emendas e mais prestígio no governo.
Greenhalgh falou também sobre a Frente das Oposições pela Ética e pelo Emprego criada anteontem no Senado por parlamentares do PSDB, PFL e PDT.
As implicações do caso Waldomiro Diniz, ex-subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, o novo estatuto do desarmamento, do qual foi relator, e um balanço dos 15 meses do governo Lula também fizeram parte da lista de assuntos que foram abordados pelo deputado.
Acompanhe a seguir os principais tópicos da entrevista concedida ontem por Greenhalgh, em Barra Bonita.
Rebelião da base aliada
“O governo Lula está tendo dificuldade para se relacionar com o parlamento. A velha política do toma-lá-dá-cá é uma cultura que se choca com a cultura do PT. Os aliados reclamam que votaram a favor das reformas e mesmo assim o governo não libera o dinheiro de suas emendas ao orçamento da União. São pleitos legítimos e eles precisam ser atendidos rapidamente, senão isso gera crise. Tem ministro que demora seis meses para receber um deputado. Isso não pode acontecer. Eles têm de tratar bem os deputados e senadores porque o governo precisa de votos para implantar seus programas e fazer as reformas avançarem no Brasil.”
Frente das Oposições
“O PFL (um dos partidos que formam a frente, junto com o PSDB e o PDT) nunca ficou fora do poder. Agora alguns interesses estão sendo contrariados. Mas não são todos os setores do partido que estão participando dessa frente de oposição. No caso do Brizola (Leonel Brizola, presidente nacional do PDT), ele sempre teve um relacionamento de amor e ódio com o Lula. Se a frente for para dar sugestão ao governo, elas (sugestões) serão acatadas. O que não pode é fazer frente de oposição para golpe. Setores de extrema direita no Brasil são sempre golpistas.”
Caso Waldomiro Diniz
“Acho que qualquer governo está sujeito a encontrar dentre seus funcionários algum tipo de acusação. O que distingue o nosso governo de outro é que providências são tomadas. Quando existe a denúncia, havendo comprovação, o governo tem que agir imediatamente para apurar e punir. O presidente Lula leu a matéria (sobre a denúncia de propina e doações ilegais de um suposto bicheiro para campanha) às 10h30, ao meio-dia o funcionário estava fora da administração, (Lula) tinha mandado abrir inquérito na Polícia Federal, tinha pedido a participação do Ministério Público para acompanhar o inquérito e tinha aberto uma sindicância. O governo tomou as providências. Agora, nós estamos fazendo uma operação pente fino em todo o segundo e terceiro escalão do governo para que não sejamos surpreendido amanhã ou depois com um novo caso.”
Resistência à CPI
“Nós ficamos muito atordoados diante da denúncia. Não somos contra a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) no Congresso Nacional, mas as fitas (que comprovariam as denúncias) dizem respeito à época em que ele (Waldomiro Diniz) era presidente da Loterj (Loteria do Estado do Rio de Janeiro). Ou seja, antes de participar do nosso governo. Se o caso aconteceu no Rio, então que seja apurado lá. Mas a oposição quer trazer o caso para dentro do Palácio do Planalto. Por isso, nós fomos contra. A CPI não se justifica porque as investigações estão sendo feitas no local dos fatos e porque a Polícia Federal e o Ministério Público também estão investigando.”
Desarmamento
“Falava-se (na época em que o estatuto estava sendo elaborado) que nós iríamos desarmar os homens de bem e manter armados os bandidos. Hoje, três meses após a aprovação do estatuto, nós vemos que as primeiras estatísticas e pesquisas mostram exatamente o contrário. Quase 85% das pessoas que foram presas com armas clandestinas já tinham passagem pela polícia. Ou seja, não eram primárias. Ter sido o relator do estatuto do desarmamento foi o grande trabalho que eu fiz no ano passado. Do jeito que era, se uma pessoa fosse presa com uma arma e não tivesse porte ou a arma não tivesse origem, ela era levada para a delegacia, pagava uma fiança de R$ 200,00, na média nacional, e meia hora depois estava na rua atrás de outra arma clandestina. Agora, o crime é inafiançável. O acusado poderá até responder o processo solto, mas por ordem judicial.
Balanço do governo
“Quando Lula tomou posse, as expectativas do Banco Central era de que nós chegaríamos no fim do ano com cerca de 45% de inflação. Quando assumimos, o juros estavam em 26,5%, o risco Brasil em 4.000 e o dólar estava batendo na casa dos R$ 4,00. Hoje, um ano e três meses depois, o risco Brasil diminuiu. Está em torno de 500. Ontem (anteontem), bateu em 485, o dólar está em torno dos R$ 3,00, a inflação em torno dos 11%, e os títulos da dívida externa brasileira estão aumentando. A máquina administrativa brasileira está emperrada, mas eu acho que agora nós estamos preparado para acelerar um pouco mais. Acredito que em seis meses vamos conseguir dar o ritmo que queremos.”