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Golpe de 64 ainda ‘vive’ no Brasil

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 3 min

Quase quatro décadas após - exatos 39 anos e 362 dias - o movimento que culminou com a queda forçada de João Goulart da Presidência da República, o golpe militar de 1964 ainda está “vivo” na sociedade brasileira, que padece com seus resquícios nocivos.

É o que confirmam especialistas ouvidos pelo JC sobre o triste aniversário de uma das fases mais terríveis da política brasileira, iniciada em 31 de março de 1964 e marcada como o “período de chumbo”. Este caracterizou-se pela alternância no poder durante décadas de generais e marechais, como Castelo Branco, Geisel e Médici, e por prisões, desaparecimentos e assassinatos ocorridos em clima de terror absoluto.

Segundo o historiador bauruense João Francisco Tidei de Lima, o golpe prejudicou o amadurecimento democrático nacional. “Temos tradição autoritária e os momentos de liberal democracia no País são curtos e rápidos. Qualquer ditadura é ruim e causa maus terríveis”, considera.

Um dos que se manifesta até hoje, exemplifica Lima, é a falta de identidade dos partidos políticos nacionais. “Estes têm uma vivência muito curta, bem como nossa democracia liberal. Por isso, padecemos até hoje dessa imaturidade, ao contrário de países que são democracias centenárias, como as que vivenciam os partidos da Inglaterra, dos Estados Unidos, Alemanha e França”, ressalta.

A edição de medidas provisórias pelos presidentes da República também são resquícios do regime militarista de 1964, conforme o historiador. “Elas foram usadas por todos os governantes que se sucederam após o golpe”, destaca Lima.

Outro fato citado pelo historiador que se encaixa na mesma condição é a falta de organização popular. “Só recuperamos a liberdade democrática depois de 1985. É pouco tempo para as instituições se mostrarem maduras e em sintonia com as necessidades da opinião pública e da população. E, diante da inexistência de uma tradição democrática, o povo também padece com estes problemas”, sustenta.

Para Lima, a lembrança do golpe traz à tona a necessidade de retomar discussões, interrompidas durante o regime militar, realizadas na época em diversos setores da sociedade que pregavam reformas de base.

“Só nos organizaremos se perseverarmos nas liberdades públicas desfrutadas hoje, que precisam ser aperfeiçoadas para superarmos os escandalosos desafios do País, dono dos números sociais mais degradantes do planeta”, enfatiza o historiador.

Além disso, continua Lima, o Brasil ainda está em um estágio democrático incipiente. “Temos de testar a solidez desta democracia, ampliando-a e aperfeiçoando-a a partir de propostas e estratégias. E, neste sentido, os partidos políticos terão de ser instituições com programas e coerências, e não meras siglas como atualmente”, critica.

O historiador defende também que o caminho para as respostas das tensões sociais brasileiras não é o de outra ditadura ou golpe contra as instituições democráticas. “É preciso que os setores que se sentem prejudicados em seus interesses apelem, prestigiem e confiem na democracia para resolvê-los, independentemente do presidente da República que estiver no poder”, conclui Lima.

Outros reflexos

O estudioso e memorialista bauruense Antônio Pedroso Júnior é outro a ressaltar a “herança maldita” do golpe para o País. Entre os reflexos que são sentidos até hoje no Brasil, ele cita o fato de estudantes que não tiveram seus diplomas reconhecidos após concluírem os estudos no exterior durante o regime militar. “Casos como esse, causados pelo excesso de burocracia governamental, se repetiram aos montes”, frisa.

Pedroso Júnior lembra também a situação de funcionários demitidos sumariamente de seus empregos públicos durante o período ditatorial. “Até hoje as vítimas destas arbitrariedades não tiveram seus direitos respeitados e preservados”, salienta.

No entanto, o memorialista discorda da tese defendida por historiadores que a população herdou a passividade do golpe militar de 1964. “A maior prova disso foi a intensa resistência contra o movimento surgida em diversos segmentos sociais, como os estudantes, intelectuais e categorias organizadas. O brasileiro não é cordeirinho e há vários exemplos recentes, como o impeachment do Collor”, argumenta.

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