Articulistas

O carioca


| Tempo de leitura: 3 min

Nascido no Morro da Providência “onde Machado de Assis também foi parido”, conforme fazia questão de frisar, Callado era um mulato charmoso, de linguajar folclórico, orgulhoso da sua função de cobrador de propinas entre os empreiteiros da Prefeitura do Rio de Janeiro. Impunha respeito pelo tamanho e a fala grossa: “Quem quer receber tem que clarear mermão”. Deixava claro que “sem o leitinho dos bacuris, ninguém ia ver a cor da grana, morô”. Mais ou menos assim começa o conto “O cobrador de propinas”, de Marques Rebelo (1907-1973), notável cronista carioca que começa a ser redescoberto pela atualidade da sua obra, num país que pouco ou nada mudou em matéria de privatização do público. Ele é bem mais sério do que o autogozador de espírito lúdico Arthur Azevedo (1985-1908), cuja peça “A Capital Federal” acaba de ter sua releitura lançada no Rio, por coincidência com o título de “O Carioca”, numa adaptação musical do grupo Os Fodidos Privilegiados. Veja como uma coisa puxa a outra...

No início do século passado o Rio de Janeiro passava por um surto de progresso. Começavam as primeiras grandes obras que iriam alterar a paisagem carioca como a Avenida Central, a abertura do primeiro túnel e o desmonte do Morro do Castelo para fornecer materiais para aterros. O Rio era um canteiro de obras, paraíso dos empreiteiros. Nada pode ser concluído tão depressa porque o objeto superfaturado iria desaparecer. Chocam-se a modernidade e a província. Marques Rebelo constrói a sua crônica com uma clareza grega e explosões de realidade. Callado é um ex-braçal que sobe na vida pela simpatia que exala e o papo que convence. Executa seu novo papel com perfeição. Morde os empresários e presta contas aos chefões, direitinho. Recebe sua gratificação, é claro, porque “bobo só relógio que trabalha de graça”. O rapaz é promovido e corre comprar um corte de linho branco irlandês dos seus sonhos. Encomenda ao alfaiate da Rua do Catete o terno jaquetão com calça balão, boca dezoito. Deixa o morro, dá de freqüentar os bares da Lapa e torra o dinheiro fácil com as bonecas francesas de olhares lânguidos. Depois de alguns copos torna-se vítima do próprio discurso. Perde-se em jactâncias e bravatas. Rumores começam a chegar aos gabinetes. O diz-que-diz-que ganha os salões da burguesia. Callado fala demais a cada desabafo e torna-se inconveniente. A cobiça lhe sobe à cabeça: “Por que eles ficam com o grosso da grana e eu só com os trocados?” - raciocina. Decide inverter a posição e tornar-se empreiteiro também. Começa com uma obra modesta: numerar as casas da Av. Central. Foi um desastre: achou que podia pregar as plaquinhas aleatoriamente. Do lado esquerdo, 6, 121, 32, 78... Do lado direito, 2, 10, 6, 80, 12... um escândalo. Obra glosada. Capital perdido. Prejuízo irrecuperável. Nem com propina consegue receber por causa do erro grosseiro. Callado endividado. Quer voltar à antiga função, mas a vaga tinha sido preenchida por um “minerim”de Barbacena. A corrupção só havia mudado de sotaque. Grana virou “dinheirim”. Quem sabe, hoje, a mesma tarefa esteja a cargo de alguém com sotaque da Mooca - “ôrra meu”.

Em resumo: Callado é preso acusado de tentar achacar empresários, numa atitude moralizadora das autoridades que jamais admitiram esse tipo de procedimento. É atirado à enxovia do Estado com seu terno já bem maculado. A alvura do “York Street 120” vira uma metáfora. É o receptor da sujeira das elites. A barra da calça vive salpicada de lama. Decide dar com a língua nos dentes. Revelar os esquemas mafiosos. Ninguém o ouve. São desculpas de um crioulo malandro, traidor. Ele o único culpado.

Os anos passam, a deterioração biopsíquica do prisioneiro segue num contínuo até que, trajando farrapos, vê da janela da cela, entre as grades, as obras de desmonte do Morro do Castelo e imagina quanto não estariam faturando em propinas os poderosos de plantão.

“Nada mais real do que a ficção”- sentenciava Gabriel Garcia Marques. Corruptos sempre haverá em qualquer instituição, cidade ou país. O importante é manter os índices de delinqüência em níveis aceitáveis. Essencial é confiscar-lhe a impunidade. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)

Comentários

Comentários