Tribuna do Leitor

Nas águas de João Cabral de Mello Neto e de Tom Jobim


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No dia 24 de março, encerrou-se a programação do “Projeto Vivaldi” - Outonando 2004, promoção da USC e “Ju Machado”, tendo como última atividade a realização de duas palestras: “A água na poética de João Cabral de Mello Neto” e “Os caminhos das águas de março”, sob a responsabilidade, respectivamente, da aluna do curso de Letras da USC - Lívia Maria R. Ramaeh e da profa. dra. Nelyse Melro Salzedas, docente do curso de pós-graduação da Unesp, câmpus de Bauru.

O elemento “água” foi o motivo condutor das duas comunicações, uma partilha com a Campanha da Fraternidade deste ano.

Lívia levantou na poética de João Cabral de Mello Neto três formas de apresentação da água: a “horizontal” - representada pelo rio que desliza, abarcando poças, engrossando-se, rompendo obstáculos, seguindo o seu curso normal; a água na “metalinguagem”, a linguagem falando sobre a linguagem; e por fim, a água “metafísica” (“água parada em si mesma,/ água vertical de poço,/ água toda em profundeza,/ água em si mesma, parada/ e que ao parar mais se adensa/ água densa de água, como/ de alma tua alma está densa” (Quaderna, rio e/ou poço).

A produção temática da Lívia trouxe a mensagem da horizontalidade e verticalidade no plano humano: ou o homem caminha superficialmente, deixando-se levar pela correnteza do mundo; ou, ao contrário, sensível aos apelos transcendentais, verticaliza-se, torna-se “poço”, “água mais densa”, “água viva”, que “jorra para a vida eterna”.

Em “Os caminhos das águas de março”, a dra. Nelyse apresentou a análise da música “Águas de março” de Tom Jobim. Todos puderam inicialmente ouvi-la na interpretação de Elis Regina, para, em seguida, fruí-la só através do som e depois, só da letra, de forma separada. Com essa técnica, a palestrante quis mostrar a harmonia entre a letra e a música, ressaltando o ritmo melódico e o ritmo emotivo. A letra aparentemente desorganizada apresenta uma organização rítmica e sonora. No jogo composicional enfatizado, podemos destacar: as rimas emparelhadas, as anáforas, a enumeração caótica (“é pau, é pedra, é o fim do caminho...”), as frases poéticas fragmentadas evocadoras da pintura cubista, o som agônico do “i” nasal, a polifonia.

A apresentação da dra. Nelyse privilegiou a técnica da construção do texto, ao demonstrar que o significante e o significado são solidários, isto é, forma e conteúdo se harmonizam. Para nós, as “Águas de março” de Tom Jobim trazem a mensagem da concentração dos sofrimentos humanos, no plano físico e/ou moral, que, felizmente, passa: “é o fim do caminho”. Agradecemos o empenho das duas palestrantes e os responsáveis pelo “Projeto Vivaldi”. Pudemos refletir como a água tem servido aos poetas na sua grande luta com as palavras; e, desta forma, ela também chega fundo aos corações, como signo de transformação.

Maria do Carmo de Siqueira Batalha - profa. dra. de Literatura Portuguesa e Brasileira da Universidade do Sagrado Coração, de Bauru

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