Eis-me a garimpar na memória fragmentos das lembranças da primeira infância... Ver desfilar, diante dos olhos, a imagem fugidia dos homens fortes da primeira metade do século findado... Revê-los, em sua sobriedade e aparente distanciamento das mulheres e crianças. Tudo aquilo que não os interessava, eram coisas de criança... ou de mulheres...
Como entendê-los poetando?
Como entendê-los cantando a beleza, o amor, a natureza?
Como captar uma alma sensível, apaixonada, capaz de repetir como em uma ladainha, ou como em um mantra... com rima, ou sem rima; com métrica, ou sem métrica... quadras e mais quadras, que repetem... que repetem, sem cessar... que afirmam e reafirmam a presença do “Sereno na Flor†- e que nos permitem, assim, saber do nascimento em 6 de setembro de 1870. Saber de seus amores, de suas dores e de suas graças; e, muitas vezes daquelas situações que na juventude se nos apresentam como sendo de dez-graças... não obstante, lembradas como graças... porque apontam rumos.
Impossível deixar de suspeitar, através das quadras livres e inspiradas, que ali se encontra um coração que se comprometeu por quatro vezes a amar até à morte a alguém, e a quem a morte, sorrateiramente, o surpreende; e, ainda assim, se encanta com o “Sereno na Flor†que lhe sugere sempre um fim de noite... ou um começo de manhã... Um raiar de um novo dia, cheio de promessas...
Promessas, de mais um amor pra preencher o vazio de uma perda tão chorada... Promessas de mais uma conta no colar de 21 pérolas... novos Pereiras. Promessas de mais uma terra a desbravar... Promessas de análises - possíveis - da política local, regional, muitas vezes nacional... Promessas de novos “causosâ€, de tiradas filosóficas, de princípios éticos desfiados em quadras.
Eis o caminho ao qual me conduziu o “Sereno na Florâ€, pequeno livro com sabor de natureza úmida e fresca. No caminho brumoso, é possível perceber - alteando-se sobre as flores cobertas de sereno - um perfil de homem: austero como aqueles que povoam minhas lembranças de infância; belo, como os protagonistas principais dos romances lidos na primeira juventude; terno, como uma criança capaz encantar-se com uma flor... com o sereno... com o Sereno na Flor...
Eis aí. Eu lhes dou o retrato de José Florêncio Pereira, autor de “Sereno na Flor†- precursor da poesia livre, desprovida de qualquer compromisso com normas de qualquer ordem. Aquele tipo de poesia que se havia de impor após 1922, e com a força do modernismo que ali se instalava, chegou até aos nossos dias e com jeito de quem vai ficar... como quiser ficar... porque é livre.
(*) A autora é professora, escritora e colaboradora de Ju Machado - Escritório de Arte.