A edição de ontem do Diário Oficial do Município (DOM) trouxe mais um capítulo sobre a “disputa” pelo canil construído nas dependências do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), no Jardim Redentor, e que há 15 anos vem sendo usado pela União Internacional Protetora dos Animais (Uipa). O prefeito Nilson Costa (PTB) revogou um decreto de março de 1989, que permitia à entidade o uso da área e a Secretaria de Negócios Jurídicos não descarta pedir a reintegração de posse caso o prédio não seja desocupado.
A direção da Uipa, no entanto, anuncia que não vai retirar os cerca de 280 gatos e 128 cães achados abandonados ou doentes e que atualmente estão no canil. “Não vamos sair. Eles terão que ir para a Justiça, mas nós também vamos tomar algumas medidas”, diz Ângela Maria Heiffig da Silva, presidente da entidade, sem revelar quais são os seus planos.
A Secretaria Municipal de Saúde, por sua vez, informa que desde 1999 está solicitando à Uipa a desocupação da área para reforma e ampliação, que se tornou prioridade em função do aparecimento de casos de leishmaniose na cidade. Em outubro do ano passado, após receber verba do Ministério da Saúde para reforma e ampliação do Centro de Controle de Zoonoses, a prefeitura notificou a entidade a entregar a área em 30 dias, o que não foi cumprido.
A alegação da Secretaria de Saúde é que o CCZ precisa do canil que vem sendo usado pela Uipa para abrigar cães sob suspeita de doenças, inclusive leishmaniose, enquanto aguarda resultados de exames para confirmação ou não da patologia. Antes, porém, o espaço deve ser reformado e dividido em celas para que os animais fiquem isolados um dos outros.
Cerca de 150 animais aguardam resultado de leishmaniose, doença que pode ser transmitida ao homem através da picada do mosquito palha contaminado. Só entre janeiro e fevereiro foram colhidas amostras do sangue de 687 animais. Do total, 47 deram positivos, 187 negativos, 95 animais foram sacrificados, 18 morreram por razões naturais e dois tiveram de repetir o exame.
Em humanos, foram registrados 14 casos desde o ano passado. Um paciente morreu e outro, que já havia obtido alta, voltou a ser internado nesta semana. Para Ângela, que faz uma série de críticas à política de saúde pública da atual administração, ao invés de reformar o canil da Uipa, a Secretaria de Saúde deveria construir um outro. “Eles receberam entre R$ 200 mil e R$ 300 mil da União para o CCZ. Então deveriam fazer a obra completa, não tirar o canil da Uipa”, diz
A Polícia Militar chegou a ofertar à Uipa o seu canil, que fica ao lado das penitenciárias 1 e 2. Porém, a direção da entidade não aceitou. “O canil tem 20 celinhas, o que não comporta um terço dos nossos animais. Não tem gatil e é muito longe. Como é que as pessoas vão levar doações de ração lá?”, questiona Ângela.
Críticas
Ela critica, também, o projeto da Secretaria de Saúde, de manter os animais sob suspeita de doenças na área urbana. “É um perigo isso”, diz. Concorda com ela Carla Alexssandra Nogueira, que é vizinha do CCZ. “Cachorro sadio não tem problema, mas doente acho que é perigoso. É um bairro que tem muita criança”, diz.
Outro morador da região, Antônio Cândido Oliveira, acha que cães com suspeita de leishmaniose deveriam ser mantidos em locais afastados da área urbana. “Do jeito que está hoje já sentimos medo”, revela.
Também com verba federal, a Secretaria de Saúde está quase terminando um outro canil no Centro de Controle de Zoonoses, destinado a animais sadios. A informação da pasta é que no espaço ficarão abrigados cães errantes que vierem a ser capturados pelo órgão, serviço não realizado atualmente. Se não forem procurados por seus donos, esses animais seriam destinados à adoção.
A diretora do Departamento de Saúde Coletiva, Maria Helena Abreu, garante que o CCZ passará a recolher animais errantes. “Não fazíamos a recolha por falta de veículo e espaço. Agora, o primeiro canil está quase pronto e já foi aberta licitação para comprar um veículo especifico para recolha”, diz.