Sem dúvida, eles são a “bola da vez”. Os veículos bicombustíveis, capazes de rodar com gasolina ou álcool, conquistam a cada dia a preferência e as atenções dos consumidores nacionais. Mas será que tais carros irão dominar o mercado a ponto dos novos modelos a serem lançados contarem exclusivamente com a tecnologia?
Potencial para isso estes modelos têm. Somente em janeiro e fevereiro deste ano foram vendidos 29.510 carros bicombustíveis no País e estima-se que o mercado brasileiro deva adquirir, até dezembro, cerca de 250 mil, o equivalente a cerca de 15% das comercializações previstas para 2004, segundo projeções de fabricantes.
No mercado há um ano, os veículos, também chamados de flexíveis, começam a ocupar o espaço que antes era dos carros movidos a álcool, que chegaram a responder por 80% do mercado nacional em meados dos anos 80.
Por enquanto, apenas três montadoras no País - Fiat, General Motors e Volkswagen - oferecem a tecnologia e vêm ampliando a gama de produtos nessa linha. A GM já conta com Zafira, Corsa, Meriva e Montana com essa opção e, em abril, lança o Astra.
Enquanto a Fiat já possui o Palio, Palio Weekend, Palio Adventure e Siena com a tecnologia, a Volkswagen, primeira a lançar um bicombustível, o Gol, em março de 2003, já tem 30% de suas vendas em modelos com essa motorização, também disponível na Parati, Saveiro e Fox.
Tal desempenho comercial já alimenta estimativas mercadológicas. “Num prazo de dois a três anos, todos os modelos produzidos no País terão essa tecnologia”, previu o diretor de vendas e marketing da Volkswagen, Paulo Sérgio Kakinoff, em entrevista recente à agência Estado.
Apesar de mais comedidos nas expectativas sobre os bicombustíveis, integrantes de concessionárias, executivos de montadoras e representantes de empresas que dominam a tecnologia flex fuel são unânimes ao afirmar: eles vieram para ficar no Brasil.
Um dos que concordam é o vice-presidente da GM do Brasil, José Carlos Pinheiro Neto, que garantiu, no lançamento da Zafira flex, a continuidade de investimentos na tecnologia. “Principalmente as que estimulem o uso dos combustíveis alternativos, como o álcool. O programa brasileiro que incentiva sua utilização é o único sério do mundo, e desprezá-lo é ferir a cidadania nacional”, frisou.
Quem também apóia tal raciocínio é Marcos Munhoz, diretor comercial e de vendas da GM. “Devido ao histórico do programa do álcool no Brasil, e seus altos e baixos, essa tecnologia surgiu para permanecer, pois permite ao consumidor fazer opções. Isso é importante em um País de dimensões continentais como o nosso, cujos preços dos combustíveis variam conforme a região onde se está”, destacou.
Outro que acredita no sucesso dos bicombustíveis é Besaliel Botelho, vice-presidente da Bosch, uma das empresas que domina a tecnologia flex no País. No entanto, ele ressaltou ser impossível garantir que monopolizarão o mercado. “Confiamos em sua expansão, mesmo diante de políticas de preços diferentes e instáveis para o álcool e gasolina, pois o consumidor não será lesado e terá um veículo capaz de rodar com um ou outro combustível”, disse.
Para Botelho, a tecnologia só tem vantagens, principalmente a de ser acessível financeiramente aos consumidores. “Os carros flex lançados possuem níveis de preço iguais aos que não contam com a tecnologia. Além disso, o sistema premia um combustível nacional, o álcool, cuja credibilidade voltou a crescer”, argumentou.
Quem também confirma que a tecnologia “pegou” no mercado é Renato Tâmbara Neto, gerente de vendas de uma concessionária bauruense. Para ele, a idéia dos combustíveis foi excelente e já se traduz em números positivos de vendas. “Nos próximos meses, creio que eles responderão por até 60% dos negócios”, prevê.
No entanto, Renato considera que os flexs só dominariam completamente as vendas e opções de modelos se o mercado nacional não dependesse tanto das exportações. “Devido à retração das vendas internas, as montadoras estão muito focadas no comércio externo, cujos países não utilizam o álcool. Por isso, ainda teremos veículos monocombustíveis por um bom tempo”, conclui.
____________________
Novas pesquisas
Novidade recente no mercado brasileiro, os veículos bicombustíveis podem ter dado apenas o pontapé inicial para uma série de tecnologias, já em processos de desenvolvimento, também tornarem-se realidade a curto prazo para o consumidor.
Uma das possibilidades é o surgimento dos tricombustíveis, carros que rodariam com álcool, gasolina ou Gás Natural Veicular (GNV). O engenheiro Pedro Manuchakian, diretor técnico da GM, ressalta que, tecnicamente, o bicombustível “está a meio caminho andado dele”. “Agora quando e se tal tecnologia estará disponível ao consumidor brasileiro dependerá do comportamento do mercado”, avalia.
Já Besaliel Botelho, vice-presidente da Bosch, é taxativo ao revelar que o tricombustível já é uma realidade na empresa. “Temos esta tecnologia desenvolvida e estamos em fase de namoro com alguns clientes, pois o mercado está demandando tecnologia para esses três compostos”, salienta.
Para Botelho, o GNV será um nicho de mercado interessante no futuro, pois o gás é um combustível alternativo que existe no Brasil com certa abundância. “Há oferta suficiente para manter seu preço como combustível a valores relativamente baixos e competitivos”, analisa o vice-presidente.
Mas outros combustíveis também despontam como futuras fontes de abastecimento dos automóveis, como o hidrogênio, a eletricidade e o biodiesel, obtido através de óleos vegetais, como a soja e o girassol.
____________________
Consumidores
Não são apenas as montadoras que apostam na vida longa dos bicombustíveis no mercado nacional. Principais beneficiados pelo surgimento da tecnologia, os consumidores querem mais é que a oferta dos modelos aumente.
Um deles é o comerciante bauruense Allan Michel da Silva, que adquiriu, há cerca de dois meses, uma Saveiro flex fuel motivado pela liberdade proporcionada na hora do abastecimento. “Não queria ficar mais na dependência da gasolina. Agora só rodo a álcool e estou satisfeito com o desempenho do carro”, enfatiza.
Allan crê que os bicombustíveis dominem o mercado em razão das incertezas sobre a durabilidade das reservas petrolíferas. “O futuro deste componente é imprevisível”, diz.
Outra que mantém igual raciocínio é a professora bauruense Cristiane Melendes de Oliveira, que comprou um Gol multicombustível durante a semana. “Tenho um carro a gasolina e já estava querendo trocá-lo por um flex, pois acho uma tecnologia econômica em vários sentidos e acessível”, conta.
Para Cristiane, não há razão para se ter restrições sobre os bicombustíveis. “As montadoras devem continuar a lançá-los, pois antes de chegarem ao mercado já foram exaustivamente testados pelas fábricas, que não iam colocar à venda um produto de má qualidade”, finaliza.