Economia & Negócios

Mercado de trabalho abraça idosos

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 6 min

Que as pessoas idosas ou de idade “mais avançada” levam uma vida ativa, saudável e muito mais social do que antes, não é novidade. Que a maioria das pessoas dessa idade se livrou do estigma de que aposentado gosta mesmo é de ficar em casa fazendo crochê, jogando dominó ou dormindo, também não é fato novo. Mas outra coisa que também está deixando de ser novidade é o aumento do número de pessoas acima dos 50 anos de idade ocupando postos de trabalho em empresas dos mais diversos setores.

Se por um lado esse fato retrata a realidade da maioria dos brasileiros, que precisa trabalhar depois de se aposentar para complementar a renda familiar, por outro mostra uma conscientização maior por parte do empresariado, que cada vez mais está despertando para a potencialidade desse público.

O próprio aumento da expectativa de vida do brasileiro vem abrindo várias portas no mercado profissional nos últimos anos. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nos próximos 20 anos o número de idosos no Brasil pode ultrapassar a marca de 30 milhões de pessoas, representando quase 13% da população. Ainda segundo o instituto, atualmente a proporção de pessoas mais velhas está crescendo mais rápido do que a de crianças.

Em Bauru há vários exemplos disso, e todas as pessoas consultadas pela reportagem afirmam ser muito felizes no seu trabalho. A rede de supermercados Confiança, por exemplo, emprega 19 pessoas com idade entre 50 e 70 anos de idade. Elas ocupam cargos nas três lojas e na empresa especializada em cestas básicas do grupo.

De acordo com a psicóloga e responsável pelo recrutamento de pessoal da empresa, Ivani Bailoni, o Confiança sempre fez questão de utilizar uma filosofia de trabalho voltada às pessoas idosas.

“Essas pessoas têm um grande entusiasmo pela vida e se aplicam demais no trabalho. Independentemente dos cargos que elas ocupem, sempre desempenham muito bem suas funções e se destacam com um aguçado senso de responsabilidade e dedicação. Além disso, são muito bem aceitas pelo público”, destaca Ivani.

Responsabilidade

No grupo, as pessoas com mais de 50 anos atuam nos mais diversos setores, como magazine, depósito, açougue, serviços gerais, compras, contabilidade, segurança, limpeza, portaria etc, sendo alguns cargos de grande responsabilidade.

Creusa Castro, 51 anos, trabalha há oito anos no Confiança Max no setor de magazine. Dedicada, ela afirma que pelo trabalho coloca até a família em segundo plano.

“Eu adoro trabalhar aqui. Meu trabalho é valorizado e não me sinto pior nem melhor do que as pessoas jovens que trabalham comigo. Meu turno é das 7h às 19h, com pausa para o almoço, e estou sempre disposta. Acho que as empresas que empregam pessoas mais velhas são um grande exemplo para o País”, diz Creusa.

Confirmando a disposição que diz sempre a acompanhar, conta que quando funcionários de outros setores estão precisando de ajuda ela sempre se oferece. “Eu ajudo na floricultura, no caixa e até faço café quando é preciso. Tenho disposição para continuar trabalhando por muitos anos.”

A psicóloga Ivani Bailoni destaca que a empresa sempre fez questão de abrir portas não somente para idosos, como também para pessoas portadoras de deficiências. “Aqui não há nenhum tipo de preconceito. No caso das pessoas de idade mais avançada, além da responsabilidade e da disposição, elas acabam se dedicando bem mais do que muitos jovens, talvez até mesmo para provar que elas são capazes disso e muito mais”, observa.

Na sede administrativa do grupo Confiança, Pedro Sérgio Baptista, 58 anos, se destaca pelo trabalho que desenvolve há 12 anos no setor de compras de produtos perecíveis. A disposição dele para trabalhar é, no bom sentido, invejável.

“Quero trabalhar por mais 12 anos aqui. É claro que me canso com mais facilidade do que antes, mas tenho a mesma disposição para trabalhar de quando era um jovem de 17 anos. As pessoas com mais de 50 anos que trabalham têm mais experiência e acabam se destacando muitas vezes por ter essa maturidade, por analisar as coisas com mais critério. Isso é muito importante na função que exerço, porque eu tomo decisões sobre quais produtos comprar para serem comercializados nas lojas”, analisa Baptista.

"Greeters"

No supercenter Wal-Mart, o diretor de operações Luiz Antônio Tadeu Zacharias diz que a prática de empregar pessoas idosas começou em 1991 nos Estados Unidos, e atualmente, todas as lojas do Brasil aplicam essa política. Em Bauru, desde que a unidade foi inaugurada, há sete anos, a função de “greeter” é desenvolvida por esse público. São aqueles funcionários que ficam recepcionando os clientes nas portas de entrada do supercenter.

“Nós damos total prioridade às pessoas com idade, principalmente acima de 55, anos para que elas encontrem uma chance no mercado de trabalho. Quando o recrutamento não é feito diretamente pela empresa, solicitamos a entidades não-governamentais, como Rotary e Lions, para que eles nos direcionem pessoas que se encaixem neste perfil para fazer uma entrevista. Atualmente o Wal-Mart emprega 70 pessoas acima de 55 anos em todas as lojas existentes no Brasil”, destaca Zacharias.

Segundo ele, em cada loja da rede há uma média de três a quatro pessoas dessa faixa etária trabalhando (em Bauru são quatro), geralmente como recepcionistas. Mas o diretor de operações cita que há casos, como na loja de Ribeirão Preto e de São José dos Campos de sucesso de “greeters” da terceira idade que acabaram conquistando outros postos na empresa.

“A média de idade das greeters gira em torno de 60 anos. Em Belo Horizonte temos uma recepcionista de 82 anos, a ‘dona’ Antônia, que ganhou um prêmio de voluntariado pela sua participação junto à comunidade. Ela está superfeliz com seu trabalho e isso é muito gratificante para nós”, observa Zacharias.

Uma das recepcionistas que trabalham na loja de Bauru, Leonor Martins das Neves, tem 67 anos de idade e trabalha há sete no supercenter. Ela diz que sempre gostou de trabalhar e que, durante esses sete anos, fez muitas amizades com clientes.

“Um dia, vi um anúncio no jornal de uma vaga de emprego no Wal-Mart e vim até aqui. Desde aquele dia, não parei mais de trabalhar e adoro o que faço. Tenho disposição para muita coisa e estou muito contente aqui. Fiz muitas amizades e as pessoas nos respeitam muito”, conta Leonor.

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Surpresa

A rede supermercadista Pão de Açúcar também aplica a filosofia de reservar vagas para funcionários acima de 55 anos de idade. Segundo informações da assessoria de imprensa, um projeto piloto foi iniciado em 1997. A experiência surpreendeu a empresa e os próprios candidatos às vagas e, atualmente, são cerca de 800 funcionários com este perfil trabalhando nas lojas da rede espalhadas pelo Brasil.

Em Bauru existe uma funcionária desta faixa etária na loja do Altos da Cidade, mas não foi localizada pela reportagem por estar em viagem de férias.

Segundo a assessoria de imprensa da rede, o projeto foi lançado após a diretoria perceber que antigos funcionários estavam envelhecendo dentro da empresa e mantendo sua capacidade, muitas vezes tendo a maturidade como aliada no campo profissional. Hoje, o projeto é um sucesso.

Maria da Ressurreição Esteves, funcionária de uma loja do Pão de Açúcar em São Paulo, tem 76 anos e começou a trabalhar na empresa logo que o projeto da terceira idade foi implantado. Hoje, ela diz que não consegue imaginar sua vida sem esse trabalho. “É uma forma que a gente tem de conhecer pessoas, se manter ativo e útil. Hoje não fico mais doente”, conta.

A rede também utiliza alguns programas voltados aos clientes da terceira idade, como aulas de ginástica, medição da pressão arterial e exames de diabetes e colesterol.

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