Ser

Paixão - Substantivo feminino

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 3 min

“Paixão, do latim passio, tem, entre outros, o significado de “grande sofrimento”, “ emoção ou sentimento que ofusca a razão”, “forte entusiasmo”, “furor incontrolável”. Na Grécia, o termo similar páthos é aquilo que se experimenta. Indica algo que vem de fora, que nos acontece, nos submete, uma afecção!”, escreve a jornalista Cristina Rodrigues Franciscato na apresentação do curso “Feminino e paixões no mito grego”, que será ministrado por ela, a partir da próxima quarta-feira, no espaço cultural Dafne, em Bauru.

Quando pensou o curso, Cristina, que é doutoranda em língua e literatura grega pela Universidade de São Paulo (USP) e membro da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos (SBEC) e do Instituto de Psicologia Junguiana de Bauru e Região, quis retratar a alma feminina em sua relação com o masculino.

“Em pensei em trabalhar não só com deusas. A única deusa em questão é Afrodite, que é a deusa do amor, da paixão, daquele fogo que consome na busca da união com o outro. É sob o âmbito dela que essas outras personagens femininas, que não são deusas, mas sim heroínas, de alguma forma, se movimentam e têm uma relação com a deusa do amor, Afrodite”.

Assim, a estudiosa elencou Helena, Penélope, Clitemnestra, Fedra, Dejanira e Medéia para que, com suas histórias, a grande maioria trágicas, apontar o que é ser feminino nos dias de hoje através das características e de seus destemperos.

Dentro do pensamento arcaico ou do pensamento mítico antigo, o que hoje é chamado abstratamente de amor e paixão, um sentimento avassalador, era personificado pelos gregos na figura de Afrodite.

Sob esse aspecto de concretude, a estudiosa acredita que exista uma certa sabedoria, pois ninguém tem domínio sobre amor ou as paixões.

“Falando de outra forma: a gente tem amor por alguém ou o amor nos tem em relação a esse alguém. O foco é sob o controle ou não que a gente tenha da situação. Um grego chamava de deuses aqueles aspectos que interferiam na vida humana e que eram transcendentes, ou seja , sob os quais o homem não tinha controle.” Dessa maneira, Cristina explica que os gregos viam o amor e a paixão como uma deusa poderosa, externa e concreta que atua sobre eles, era uma forma de reconhecer como os seres humanos ficam à mercê dos sentimentos.

Um exemplo prático é o fato de que qualquer pessoa pode estar sujeita a dobrar uma esquina e se apaixonar perdidamente por alguém totalmente inadequado, que, se pudesse escolher, jamais seria eleito.

E, muitas vezes, adverte a pesquisadora, esse sentimento rouba a cena de tal forma que é capaz de “cegar” a quem ele acomete. A pessoa só vê esse sentimento à sua frente.

“Justamente por esse poder compulsivo das paixões e dor amor que os gregos entendiam esse âmbito como o âmbito de uma deusa poderosíssima, a Afrodite, deusa do amor erótico em sentido amplo, do desejo que não silencia”, define Cristina.

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Mitos

Os mitos fazem parte de um repertório muito antigo e é por volta do século 8 a.C. que surgem as primeiras fontes escritas: os poemas épicos de Homero “Ilíada” e “Odisséia”.

“Mas a origem dessas histórias se perdem nas brumas do tempo, porque eram narrativas que se passavam de geração à geração via oral. Por isso, essas histórias fazem parte de um acervo da humanidade que está no inconsciente coletivo do homem”, comenta Cristina Franciscato.

Nesse sentido, as histórias, numa referência ao psicanalista Carl Jung, são arquetípicas. Pois os mitos são formados de arquétipos, essas imagens psíquicas do inconsciente coletivo, que são patrimônio comum a toda a humanidade.

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