Polícia

Inquérito liga mortes no HB à água

Diego Molina
| Tempo de leitura: 3 min

O delegado titular do 3º Distrito Policial, Marcelo Haddad, apresentou ontem a conclusão do inquérito que investigou a morte de cinco pacientes da unidade de hemodiálise do Hospital de Base (HB) de Bauru, registradas entre setembro e outubro do ano passado. Baseado em depoimentos das famílias e prontuários dos doentes renais crônicos, médicos da unidade e laudos técnicos, o inquérito aponta que pelo menos duas das mortes podem ter sido provocadas pela contaminação por bactérias na água utilizada no tratamento.

“O parecer do Instituto Médico Legal (IML) constata que as vítimas tiveram em comum a septicemia, ou seja, infecção generalizada e insuficiência renal crônica. Os laudos comprovam que a infecção foi adquirida através da água contaminada”, afirma o delegado.

Durante o inquérito, o corpo clínico do HB declarou ao delegado que duas das mortes registradas no período em que a água apresentava contaminação com endotoxinas bacterianas podem ter sido provocadas por este problema. Seriam os pacientes João Lopes Sanches, 68 anos, e Archimedes Marins Machado, 75 anos.

“O corpo clínico entende que a contaminação pode ter influenciado (a morte dos dois pacientes), mas com a ressalva de que eles eram pacientes idosos e portadores de outras doenças associadas”, relata Haddad.

O administrador da Associação Hospitalar de Bauru (AHB), responsável pelo HB, José Cardoso Neto, declarou que ainda não recebeu o relatório e que vai aguardar ser comunicado oficialmente dos resultados.

O inquérito será enviado para o Fórum, para apreciação do Ministério Público (MP) e do Poder Judiciário, segundo Haddad. A partir de então, o relatório poderá ser arquivado ou tomar prosseguimento. “O MP poderá solicitar mais diligências que o promotor entenda necessárias, caso faltar algo no inquérito; ou caso ele entenda que alguém teve culpa na área criminal ou cível, pode ser aberto um processo”, explica.

Para o presidente da Associação Bauruense de Apoio e Assistência ao Renal Crônico (Abrec), Nelson Rosa, as famílias dos pacientes mortos devem aguardar a finalização do processo para tomarem qualquer medida judicial. “Temos de aguardar a decisão do promotor. Se ele oferecer a denúncia, elas terão fundamento para pleitear uma indenização, desde que fique constatada a culpa do hospital”, ressalta.

Interrupção

O serviço de hemodiálise do HB teve seu atendimento interrompido por 41 dias, entre outubro e novembro do ano passado, depois da morte de dois pacientes que estavam em tratamento na unidade e das queixas de diversos outros doentes, que apresentaram sintomas como calafrios, tremores e febre durante a diálise.

Na época, o JC ouviu as famílias de três pacientes do HB mortos em decorrência da infecção. Elas relataram que os doentes renais crônicos já vinham apresentando sintomas como febre, calafrios, tremores e tontura semanas antes da infecção ganhar força, quando foram internados.

Os cerca de 105 doentes renais crônicos que faziam seu tratamento no HB foram encaminhados para hospitais de cidades da região, como Marília, Jau, Lins, Botucatu e São Carlos.

O advogado João Henrique de Oliveira Júnior realizou seu tratamento em São Carlos no período em que a unidade do HB estava fechada. Ele conta que o incômodo maior era o tempo de viagem. “No começo, os ônibus eram ruins, mas depois o hospital arrumou ônibus melhores”, diz.

Ele comenta que não se sentiu preocupado quando a hemodiálise do HB foi reaberta. “É uma necessidade que a gente tem de fazer a diálise e se o serviço estava à nossa disposição, é porque estava normalizado”, aponta.

Após a substituição da tubulação que abastecia as máquinas de diálise com água de poço artesiano, análises da Vigilância Sanitária e de laboratórios particulares atestaram a segurança para a retomada do atendimento.

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