Tribuna do Leitor

Paixão de Cristo - um filme imperdível


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Começo pelo debate: A Paixão de Cristo, o filme dirigido por Mel Gibson, é violento? A resposta é não. Um filme violento tende sempre a expor e incitar à violência, a provocar sentimentos negativos como ódio e vingança. Nada de bom se constrói com a violência irracional e gratuita. A Paixão de Cristo não é um filme violento, mas expõe cenas violentas, uma violência histórica que aconteceu de fato e cuja veracidade ninguém mais nega. Mas, deve ser mostrada? A resposta é: sem dúvida! Por vários motivos: Jesus é o Homem por excelência, o mais importante da história; sua vida marcou toda a trajetória humana, de tal modo que há um referencial de datação universal presente em todos os povos e culturas: antes e depois de Cristo. E foi o único reformador e líder religioso que teve a ousadia de se dizer Deus. Com efeito, Buda, Confúcio, Maomé, Paulo de Tarso, Lutero, Calvino, Dalai-Lama, Mahatma Gandhi - foram todos grandes líderes, mas jamais tiveram essa pretensão. E foi essa acusação que “legalizou” perante o Sinédrio dos Judeus sua condenação à morte.

Contudo, para os cristãos a razão mais forte que torna sua paixão e morte extremamente importante reside no ato supremo de Jesus se oferecer como vítima para reparar, de modo pleno e total, todas as ofensas que os seres humanos, em todas as situações e épocas, dirigiram e dirigirão a Deus. Suas dores, seu sangue derramado, todo o seu martírio, são matéria prima preciosíssima para elevar cada homem ou mulher do estado de escravidão ao de filhos e filhas de Deus - e como tais - seus herdeiros. Nada é mais importante do que isto.

Mas pode-se ainda perguntar - a morte de Jesus foi realmente precedida dos suplícios mostrados no filme e tão extremamente dolorosa? A resposta é: sem dúvida! Quem afirmar o contrário passa ao largo da teologia cristã autêntica e dos ensinamentos dos Padres da Igreja. E, também, mostrará desconhecer a história. Pelas leituras dos Padres e dos místicos a morte de Cristo na cruz foi o auge da redenção humana, numa luta feroz e dramática, travada entre o Bem Supremo e o mal mais terrível que nossa imaginação nem consegue abarcar. Jesus na cruz, além das dores que o transfixaram, sentiu o abandono do Pai, pior que mil mortes. As cenas do filme, apesar de violentas e cruas, certamente ainda estão mitigadas em relação ao que deve ter realmente sucedido, mesmo se ficarmos só no plano físico.

Quando se tratava de defender o “status-quo” a pseudo elite que mandava em Israel não brincava em serviço. A morte era um castigo sempre presente, vigorando a lei de Talião do olho por olho - dente por dente. E Jesus, aos seus olhos, punha em risco essa liderança, pois fazia muitos milagres, expulsara os vendilhões do Templo e chamara os fariseus de sepulcros caiados. Quanto aos romanos, as execuções e os suplícios dos mártires nos circos, falam por si mesmos. As multidões deliravam com o sangue derramado, quando, por exemplo, se deleitavam no aniversário do filho do imperador ao lançarem homens e mulheres às feras. Para eles a misericórdia constituía um defeito de caráter. Hoje, passados mais de vinte séculos, em que o cristianismo se faz presente em todos os continentes, não nos damos conta do quanto que a revolução cristã levedou o mundo, apesar de muitas vezes ter sido vivida e apresentada de forma desfigurada. Mesmo os povos ainda não cristãos sentiram-lhe o impacto e - quando autenticamente vividos - os valores cristãos são bem aceitos e inculturados.

Para os cristãos que sentido tem as cenas que mostram o sangue derramado por Jesus? A resposta é: tudo. Os escritores do Novo Testamento não cessam de enfatizar que foi pelo sangue derramado pelo Cordeiro (= Jesus) que nossos pecados foram perdoados. Na Santa Ceia, Jesus manda beber o cálice do Seu sangue “que será derramado por vós e por todos, para remissão dos pecados”. Em resumo, quem tem fé e ama o Cristo, independentemente de sua filiação religiosa, ao assistir a este filme estará utilizando a moderna tecnologia cinematográfica para uma reflexão sobre o enorme preço que Jesus pagou para nos arrebatar do maligno, ao mesmo tempo que estará de certo modo presente no drama máximo que selou o destino da humanidade. Pois, segundo o livro do Apocalipse (= Revelação), os eleitos para o Reino Celestial são os que lavaram e alvejaram suas vestes no Sangue do Cordeiro.

Roberto Hamilton Salvadeu Cruz - engenheiro de obras hidráulicas

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