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Crescem acidentes com motos

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 6 min

A fase atual do trânsito bauruense não é das melhores. Além das dez mortes registradas nos quatro primeiros meses de 2004, índice que já se aproxima do total de óbitos - 17 - durante todo o ano de 2003, um fato tem despertado a atenção das autoridades locais: o crescente envolvimento de motocicletas nos acidentes.

Não faltam números para comprovar a preocupante realidade, que ostenta, somente nos últimos 15 dias, a morte de dois motociclistas. Já as estatísticas da Polícia Militar revelam que, mesmo com a estabilidade da média total de acidentes, só em janeiro e fevereiro deste ano a participação de motocicletas em ocorrências do gênero já superou os percentuais do triênio passado.

Além disso, dados do Corpo de Bombeiros apontam que os atendimentos à motociclistas situam-se entre os “campeões” no ranking das ocorrências. Só na área de abrangência do 12º Grupamento, que congrega os municípios de Bauru, Jaú, Lins, Botucatu, Avaré e Piraju, foram mais de 1.400, sendo 35% deles nas vias locais.

A exemplo das estatísticas, também sobram motivos para explicar as razões da situação atingir tal ponto. Para o capitão Geraldo Aparecido Delmonte, do 12º Grupamento do Corpo de Bombeiros de Bauru, o provável aumento da frota circulante de motocicletas na cidade é uma delas. “Quanto mais delas rodando, maior a probabilidade de acidentes. É algo natural”, analisa.

Além disso, o capitão dos Bombeiros acredita, ainda, que na atual configuração da malha viária urbana, não apenas em Bauru mas em todo o País, a tendência é que o espaço à circulação de veículos seja cada vez menor. “A população cresce e os centros urbanos não acompanham, o que também aumenta a chance de acidentes”, considera.

Delmonte não exagera ao avaliar, mesmo sem informações de órgãos oficiais, a possibilidade do aumento das motos na cidade. A cada ano, milhares de brasileiros adotam as motocicletas em virtude de suas qualidades em relação aos veículos, como consumo mais baixo de combustível, agilidade no trânsito e custo acessível.

Tais preferências se refletiram nos números do mercado nacional, que há anos consecutivos comemora o crescimento das comercializações. A venda anual de motocicletas aumentou mais de 1.100% desde 1993, passando de 68 mil para 848 mil no ano passado. E, só nos dois primeiros meses de 2004, foram vendidas mais de 128 mil unidades.

Desta forma, estima-se que no prazo de três a cinco anos, o número de motos supere o de automóveis, que tiveram 1,17 milhão de unidades comercializadas em 2003. Além disso, a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo) prevê 1,5 milhão de motos vendidas anualmente antes de 2010.

Comportamento

Quem concorda com a linha de raciocínio do bombeiro é o capitão Nelson Garcia Filho, comandante da 4ª Companhia da Polícia Militar de Trânsito. Para ele, as características viárias das cidades, principalmente Bauru, não permitem que os motociclistas andem nas velocidades desenvolvidas atualmente nas ruas.

Apesar disso, Garcia Filho sustenta que os grandes fatores causadores de acidentes entre motociclistas ainda são comportamentais. Neste caso, o comandante destaca que os maiores “vilões” são o excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas e a negligência com equipamentos, como o capacete. “O pior é que muitos não tem sequer a habilidade necessária para trafegar da maneira praticada hoje em dia”, adverte.

Sobre as ultrapassagens, Garcia Filho condena duas “modalidades” muito comuns praticadas pelos motociclistas bauruenses: as efetuadas pela direita, proibidas pelo Código de Trânsito, e as executadas entre dois carros em movimento, que só não foram vetadas pela legislação brasileira, segundo especulações, graças ao “lobby” das montadoras de motocicletas. “Realizá-las é arriscar a vida”, resume.

Já em relação ao capacete, Garcia Filho pondera que o problema não está na freqüência de utilização, mas sim na maneira como é usado. “Graças à fiscalização exercida, a maioria dos motociclistas bauruenses, cerca de 90%, roda com ele. Entretanto, muitos não o fixam corretamente na cabeça e não o prendem próximo ao queixo como obriga a legislação, hábito que pode causar mortes em um acidente”, alerta.

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Direção defensiva

Não é preciso ser adivinho para saber que, quando comparadas aos automóveis, as motocicletas e, principalmente, quem as conduz são muito mais frágeis no trânsito. Por isso, independentemente da gravidade do acidente que envolva motos, é raro não haver vítimas, sejam elas leves ou fatais.

“Dificilmente em um acidente desta natureza a pessoa sai ilesa. Se tiver sorte terá, no mínimo, escoriações. Caso contrário, corre o risco de sofrer luxações, fraturas, traumatismos sérios ou até morrer”, adverte o capitão Geraldo Aparecido Delmonte.

Por isso, autoridades ligadas ao trânsito e motociclistas experientes são unânimes ao apontar que o melhor caminho para evitar problemas ao dirigir uma motocicleta é praticar a direção defensiva. “Andar em velocidade compatível com a via, guiar de forma concentrada e deduzir as reações de outros motoristas são alguns de seus princípios mais importantes”, teoriza o capitão Nelson Garcia Filho, da Polícia Militar.

Além disso, acrescenta o oficial, o fato da motocicleta possuir maior liberdade no trânsito em relação aos carros não significa liberdade para se fazer o que quer na via, como “costurar” em meio aos veículos. “Esta vantagem deve ser aproveitada pelo motociclista nos momentos certos, como em congestionamentos ou em filas de semáforos”, orienta Garcia Filho.

Quem também ressalta a importância de comportar-se preventivamente no trânsito é o piloto bauruense de motocross Marcel Sona Cardoso. Instrutor devidamente credenciado por uma montadora e freqüentador assíduo de cursos de direção defensiva, ele destaca que o motociclista, a exemplo do motorista, tem a obrigação de fazer de tudo a seu alcance para evitar um acidente.

“O motociclista precisa estar sempre um passo à frente e conscientizar-se que, mesmo estando uma via preferencial, por exemplo, ele não está imune de um acidente”, argumenta. Por essa razão, complementa Marcel, alguns cuidados básicos devem ser tomados pelos condutores de moto.

Uma das regras básicas é ver e ser visto. Para isso, é fundamental, conforme o piloto, andar com a luz baixa acesa durante o dia ou à noite. “É um recurso fundamental para que os motoristas vejam a moto na via mais facilmente”, orienta. “Antes de cruzar uma esquina, mesmo estando na preferência, o motociclista também deve checar se outros condutores já o visualizaram”, acrescenta.

Outro cuidado recomendado por Marcel é nunca ultrapassar antes de um cruzamento. “Mesmo que um carro sinalize a intenção de conversão, o motociclista não deve passá-lo porque pode estar em um ponto cego em relação ao condutor do automóvel”, ensina.

Além disso, o piloto enfatiza que nenhuma destas “regrinhas” valerá se o motociclista abusar da velocidade, um ato de irresponsabilidade, conforme Marcel. “A moto já é um veículo ágil e, por causa disso, não há necessidade de correr como um louco por aí. Andar dessa maneira é desnecessário e arriscado, além de colaborar para denegrir a imagem de quem roda certo”, considera.

A bauruense Vânia Regina Guedes de Azevedo, uma apaixonada por motos desde a infância, tem experiência de sobra ao comando de uma máquina de duas rodas. Em razão de sua profissão - coletora de amostras de sangue para exames em laboratório -, ela calcula rodar anualmente cerca de 15 mil quilômetros com sua motocicleta.

Por isso, como anda por todos os cantos da cidade, Vânia sente na pele a realidade das ruas. Para ela, muitos motociclistas desrespeitam as regras por considerarem-se “invulneráveis” no trânsito. “Tem muito motoqueiro abusado por aí, principalmente da velocidade. Estes não se conscientizam que estão montados em duas rodas, e não em quatro”, critica.

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