Ele queria ser o Zorro. Rasgava um vestido preto da mãe para fazer a capa e levou muita surra quando ela descobriu. O menino João Batista Mourad desde cedo foi seduzido pela magia do circo mambembe, das ferrovias e dos cavalos. Enquanto criança, ganhou um prêmio pela maquete da Estação da Noroeste do Brasil, que fascinava o garoto em suas vindas a Bauru. Já rapaz, foi presidente do grêmio estudantil, virou comunista, pichou muro e levou Luiz Carlos Prestes para São José do Rio Preto, sua cidade natal. Um de seus primos e companheiros de aventuras era Jamil Murad, hoje deputado pelo PCdoB.
A vida de João Batista mudou. Aos 18 anos ele saiu de Rio Preto com seu cavalo Faísca, que sabia empinar, e seguiu pelo País fazendo shows sobre quatro patas e cantando em emissoras de rádio.
Hoje, ele é o Beto Carrero, empresário reconhecido internacionalmente não só pela habilidade com os cavalos e as aventuras heróicas de seu personagem, mas por ser dono de um dos maiores parques temáticos do mundo. Ele comenta que se um dia copiou os parques estrangeiros, hoje se orgulha de ser referência.
Em meio à polêmica sobre a proibição do uso de animais em espetáculos com uma situação particular em Bauru, ele conversou com o Jornal da Cidade e ressaltou as virtudes da cidade e do País para investir no turismo.
Jornal da Cidade - O senhor trabalha com circo há muitos anos. Qual a preocupação que o senhor tem com a parte ambiental, com o seus animais dentro e fora do espetáculo?
Beto Carrero - Olha, eu acho que ninguém cuida da parte ambiental mais do que o Mundo Mágico de Beto Carrero, o Beto Carrero World. Para se ter uma idéia, antes de fazer o parque, eu comprei sete quilômetros de praia em frente ao parque para preservar. O parque hoje é uma cortina verde de mata Atlântica, porque eu preservei. Se não tivesse preservado, seria favela, casas, loteamentos, prédios, mas é tudo verde porque o meu diferencial em relação aos parques do mundo inteiro é o meio ambiente. Eu tenho essa preocupação. Os animais de Beto Carrero são muito bem tratados. Hoje nós abrigamos algumas das dezenas de animais que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) pega em circos sem condições de tratamento. São leões, tigres e outros animais que o instituto não tem onde colocar e nós abrigamos a um custo altíssimo. Um leão come cinco quilos de carne por dia. Eu acho que a preocupação dos ambientalistas locais é muito certa. Os animais não sabem reclamar e tem circo que não tem condição de ter um animal, se muitas vezes a própria família não tem condições de se alimentar.
JC - Mas todo mundo aponta que para domar os animais, acaba por se maltratar o bicho?
Carrero - Eu fiquei revoltado quando vi na televisão uma ONG americana que projeta filmes de um elefante dizendo que era adestramento de circo. O elefante estava sendo laçado por 10 pessoas, derrubado, agredido de todas as formas. Não, aquilo não é adestramento. O elefante nesses países da Índia e da África é usado como animal de tração e para você pegar um paquiderme de duas, três toneladas, não deve ser fácil. Tem armadilhas, tudo o que você imaginar para capturar esse animal para trabalhar na lida do campo, para puxar madeira. No adestramento de circo você tem que dar carinho, senão o animal te agride. Se você agredir um tigre, uma patada dá 240 quilos, ele te arrebenta. Então, o animal de circo tem que ser tratado com mais carinho. Agora, o circo está sendo usado como pano de fundo porque o que se quer proibir são rodeios. Se você ler a lei, ela também proíbe o uso de cães pela Polícia Militar para a captura de um bandido; ela proíbe uma madame de sair com o cachorrinho vestido e fazer uma graça com ele no colo; ela está proibindo o ruralista de desfilar com o seu cavalo, está proibindo prova de tambores usada no campo. Essa lei está com todas essas proibições possíveis e imaginárias. O que eu peço é o direito de entrar com o meu cavalo Faísca porque Beto Carreiro é um herói conhecido pelo cavalo e o chicote; é um herói que não usa armas. Eu sempre usei um chicote como o Zorro. Por essa lei todos os filmes de Hollywood estariam proibidos em Bauru, não só Beto Carrero. Se são organizações americanas, proíbam o rodeio nos Estados Unidos e depois venham para cá.
JC - Um ponto forte do parque temático são as apresentações teatrais. Qual é a preocupação social e cultural dentro do seu circo?
Carrero - É muita. Hoje nós temos a Fundação Beto Carrero, creches de mais de 100 crianças. Hoje não tem mais meninos de rua na Penha porque nós tiramos. Hoje Beto Carrero é mais teatro do que circo. Nós temos o circo tradicional e o novo circo que nós estamos lançando agora é mais teatral, é mais expressão do corpo, que é o circo que vai sair no próximo ano com menos animais, porque nós estamos fazendo no Beto Carrero World um parque para que as pessoas visitem os animais em seu habitat natural. Hoje já é assim, os animais vivem em ambientes com lagos, árvores, uma cozinha e uma equipe de biólogos extraordinária. Os meninos de rua de Penha são ginastas olímpicos e eu quero levar isso para a Broadway, além da expressão corporal, eles estão tirando som. A inspiração veio do Stomp, grupo americano que dos sete integrantes, quatro são brasileiros. Temos artistas brasileiros no Cirque du Soleil. Eu acho que o circo é uma forma de divulgar o parque e a arte do povo brasileiro. Afinal, também sou a favor do circo sem animais, adoro circo com animais como os grandes circos europeus que ainda possuem centenas de animais, e amo o circo mambembe, principalmente aquele que estreou em frente a minha casa e me fez conhecer a família Santana, Dedé e Dino. Foi aí que fiquei gostando do circo, que é a mãe de todas as artes, do teatro, da televisão. Eu sou conhecido internacionalmente pelo circo e pelo meu cavalo Faísca, que viaja de avião e com ar condicionado.
JC - Beto Carrero então foi um menino que queria fugir com o circo e que sonhou ganhar o mundo em cima de um cavalo?
Carrero - Foi. Eu vou contar uma história que vai ser transmitida no circo todo dia. Quando eu tinha 11, 12 anos, eu pegava o trem e vinha para cá, para Bauru, porque eu adorava os trens de Bauru. Tanto é que a maior atração do meu parque hoje é uma ferrovia. Tenho brinquedos do mundo todo que valem milhões, mas as pessoas saem falando da ferrovia. Então, o Beto Carrero, quando criança freqüentava Bauru e um dia eu fiz um trabalho sobre o entroncamento ferroviário de Bauru e fui premiado como o melhor trabalho da classe. Então, eu acho que aquela Bauru que eu via antigamente, hoje deveria ser um País. Hoje fiquei triste quando cheguei e não vi mais a ferrovia. Dá para chorar. Eu sempre gostei de aventura e sempre achei que um dia iria fazer um trabalho que ia ser reconhecido. Eu sempre sonhei isso.
JC - E hoje como o senhor se sente sendo considerado um super-herói brasileiro?
Carrero - Eu acho que isso ajuda no meu trabalho. Eu fiz um parque que hoje recebe 1 milhão de pessoas. Ontem foi inaugurada uma via expressa em frente ao meu parque que foi manchete em todos os jornais. Tem um viaduto Beto Carrero na BR-121, para que a pessoa entre por ela. Eu acho que o meu trabalho está sendo reconhecido, porque não adianta fazer um trabalho que não é reconhecido pelo público. Nós já gastamos mais de R$ 150 bilhões naquele parque porque o que eu ganho é revertido no parque. Fazemos um trabalho importante com a criança e a gente tem sempre que trabalhar para que a criança nos reconheça, nos admire e admire o nosso trabalho. Eu procuro agir da melhor forma e fazer muita coisa por esse País.
JC - Como um empresário do turismo, o senhor acredita que Bauru tenha potencial no setor?
Carrero - Eu acho que Bauru e essa região têm vocação para turismo, tem vocação para atrair pessoas. Para você ter uma idéia, o terceiro mercado consumidor, o terceiro maior volume de turistas do meu parque, vem desta região. O primeiro é Santa Catarina e Paraná, depois São Paulo e logo em seguida, o Interior, que quase empata com a Capital. Quanta gente sai daqui para ir à Disney? O poder aquisitivo daqui é alto. Dezenas e dezenas de ônibus saem daqui e vão para Beto Carrero e outros centros de entretenimento, semanalmente. Mas não pode deixar morrer aquela estação, aquele entroncamento ferroviário precisa ser recuperado, nem que seja para o turismo. É de chorar ver a estação naquele estado. O Ziraldo esteve no meu parque e foi na nossa fábrica de locomotivas. Ele encostava a cabeça nos vagões e chorava...
JC - O seu parque é comparado à Disney. Ainda há mercado para outros empresários investirem também no setor, integrando as belas paisagens a empreendimentos de diversão?
Carrero - Eu acho que a diversão é a salvação do País, como foi a salvação do México. Quando o México estava na maior crise, inventaram Cancun. Cancun foi inventada! O governo e o empresariado fizeram uma pesquisa sobre o que o povo queria e o resultado foi: o povo quer gastronomia, compras, sol bonito e meio ambiente e Cancun foi feita. Assim como agora eles inventaram a Riviera Maia. O turismo salvou a Espanha. Eu acho que a solução para o desemprego no Brasil é turismo e pode acreditar que o turismo daqui, se você fizer um restaurante espetacular, verá quanta gente das cidades vizinhas vem para cá. Hoje a gente tem a terceira idade. Antigamente a gente mal chegava aos 60, mas vem aí geração Matusalém que ultrapassará aos 100. Mas você tem que fazer o melhor, tem que priorizar qualidade. Eu acho que o empresário brasileiro tem que olhar para essa indústria do turismo.
JC - Para finalizar, qual a recompensa disso tudo? Aparentemente, você é um homem que realizou todos os seus sonhos. O que falta para realizar?
Carrero - Eu acho que o sonho está começando porque tudo está dando certo. Eu tenho muita coisa para fazer. Eu quero ver o que eu vi na Penha, uma cidade daquela, transformada do que era ao que é hoje no Brasil. Um País sem desemprego, um Brasil do turismo, com pessoas passeando, com a volta da ferrovia... Está começando o sonho! A cada dia eu sonho e gosto de acordar com muitos problemas. Eu faço a minha agenda e escrevo 20 problemas, chega a tarde e resolvi 8, 10, 12 e esse é meu game. Eu acho que você tem que sonhar todo dia com um sonho novo.