Araraquara - Presos, celas, agentes e todo aquele aparato de segurança fazem parte da rotina dos presídios em todo lugar do mundo. Mas, desde o mês passado, a Penitenciária Regional de Araraquara (125 quilômetros a Nordeste de Bauru), conta com a presença de personagens incomuns nesses locais, como vacas, boi e várias cabras pastando na entrada do complexo.
A novidade faz parte da primeira etapa da mudança proposta pelo diretor geral, Roberto Medina, que está reformando toda a unidade e pretende abrir esse espaço com os animais para a visita de crianças. A idéia é convidar estudantes da rede de ensino para visitar o local. A intenção do diretor é mudar a “cara” da unidade, deixando-a mais limpa e com ambiente bom para que os presos tenham melhor ressocialização e os funcionários não fiquem tão estressados com a pressão de cuidar dos sentenciados.
O projeto está no inicio, mas, em breve, haverá um tanque com peixes e se houver a autorização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) outros animais como capivara, patos e Emas farão parte da “fazenda penitenciária”. Para completar o tanque, basta uma empresa privada, que está retirando a terra, terminar o buraco que será de aproximadamente três metros de profundidade. “Vou colocar uns bancos para as pessoas pescarem por aqui”, adianta o diretor.
Medina explica que a idéia de colocar animais dentro da penitenciária surgiu quando ele era diretor da unidade de Iaras. Lá, segundo ele, já havia convênios para cuidar de animais silvestres como 24 capivaras e o esquema deu tão certo que foi ampliado para a Penitenciária de Mirandópolis e os Institutos Penais Agrícolas (IPAs) de São José do Rio Preto e Bauru.
Sobre as cabritas, o diretor é só elogios. Ele gaba-se de ter ajudado no parto de três filhotes nascidos na última terça-feira, acompanhado do preso Robson, 31 anos. O detento, que ainda tem nove meses de pena para cumprir por um estelionato cometido na Capital, comenta que é interessante cuidar da alimentação dos animais.
“Nunca pensei que estando preso ficaria tomando conta de vacas e cabritos”, diz brincando com os três filhotinhos.
Mudanças
A reportagem percorreu vários pontos da penitenciária para acompanhar as mudanças propostas pelo diretor no primeiro dia de administração. É nítida essa nova “cara” da unidade em alguns pontos já conhecidos pela reportagem. A sala do diretor, que antes ficava fora da área dos pavilhões, foi deslocada para mais próximo das celas dos presos.
Outro ponto que o próprio Medina confessa ser rígido é com relação à limpeza do local. Durante a passagem pelos corredores da penitenciária, que já contam até com vasos de plantas, presos enceravam o chão e outros haviam acabado de lavar vários pontos do presídio.
O servente de pedreiro Maurílio, 35 anos, de Ribeirão Preto, preso por um roubo e há um mês na unidade de Araraquara, disse que nunca tinha feito faxina e admitiu não ter passado por uma cadeia tão limpa.
Com ele, estava também o morador de Ribeirão Preto, Edson, 18 anos, preso por ter cometido um furto. Ele declarou que está gostando de ficar na penitenciária devido à mudança geral, principalmente na área de limpeza.
“Além disso, trabalhando eu reduzo a minha pena”, conta, lembrando que cada três dias trabalhados equivale a menos um no geral da sentença.
Durante a passagem pela penitenciária, a reportagem também notou que presos estavam tirando o bolor dos tijolos e raspando a pintura externa já desgastada para ser refeita. Medina explica que a mudança está acontecendo de fora para dentro e até o telhado e os tijolos serão reformados nos próximos meses. “Essa é uma alteração demorada, mas que valerá a pena.”
Na entrada da unidade, o diretor também está dando uma geral. O muro, que antes estava com a pintura desgastada, e o jardim, que ficava mal cuidado, estão impecáveis, inclusive, um símbolo da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) foi pintado por um preso nas últimas semanas.
O jardim, por exemplo, é administrado por presos como o goiano Daniel, 31 anos, há oito anos em Araraquara, por ter cometido um furto. Ele relata que trabalha esperando a remoção para uma colônia agrícola onde pretende continuar a cuidar do jardim na busca de conseguir a liberdade. “Aprendi muita coisa e uma delas foi cuidar das plantas.”
Medina ainda adiantou que estará reformando a guarita da entrada do presídio. Hoje, o espaço está desgastado e deixa vulnerável o funcionário. Por isso, eles irão pintar toda a parede e fixar insulfilm nos vidros para que as pessoas de fora não tenham visão de dentro da guarita. Além disso, os pátios dos detentos e as celas serão reformados, mas somente daqui a alguns meses.