Ser

Um brinde ao bate-papo!

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 5 min

O termo não existe nos dicionários. Também não está nos anais da psicologia, mas na prática milhares de pessoas fazem das mesas de bares e cafés o divã do analista e dos amigos e, em alguns casos, até mesmo dos desconhecidos “psicólogos”: a “botecoterapia”.

Em outros casos, o botequim é o lugar perfeito para se esquecer dos problemas e relaxar. O encontro com pessoas até então desconhecidas, música, comidinha diferente e até mesmo uma certa e moderada dose de álcool fazem com que a terapia de botequim seja praticada por todas as idades, sem distinção de sexo, crença ou classe social.

Adepto convicto da botecoterapia, o decorador Paulo Keller, 52 anos, tem um ritual diário de fazer um tour por determinados bares e restaurantes da cidade. Na grande maioria das vezes não bebe nada além de sua água mineral sem gás. Seu maior objetivo é bater-papo e ter grandes idéias para seu trabalho.

“Durante a noite você encontra pessoas interessantíssimas. Eu acredito muito em vibração e durante o dia tem tanta gente correndo, trabalhando e voando para lá e para cá, mas à noite 90% estão dormindo e o ar está menos poluído de vibração, está descongestionado, tudo fica mais light”, afirma Keller, que só não sai para papear se está muito cansado e resolve aumentar a estatística do sono na cidade.

O decorador acredita que só vai para o boteco quem é muito bem resolvido e que “jogar conversa fora” não tem nada a ver com conversa fiada, mas sim discussões com inteligentes.

“O papo é muito agradável, você fala coisas que durante o dia não consegue falar, porque a gente anda tão preocupado em pagar contas que acaba não acertando as contas com a intelectualidade própria. Os ombros amigos e a maioria das minhas grandes idéias de trabalho surgiram num banquinho de balcão, num cantinho, tomando água. Eu gosto de uma cervejinha, mas não tenho o hábito de entornar. Não precisa”, pondera.

Paulo Keller conta que, se ficar em casa, acaba muito mais cansado. No ambiente de um bar ou café não se cansa de observar coisas interessantíssimas, ouvir grandes dicas de filmes, livros e música, diz.

Para ele, o melhor horário é o final de noite, sempre bem depois das 22h30, quando as pessoas estão na noite só para serem vistas já estão de saída. “Gosto do horário dos desaparecidos, não gosto de fazer parte da vitrine, gosto mais de ver. E isso vale para lugares da moda ou bons e velhos botequins mesmo. Não tenho preconceito.”

Ainda sobre o lado edificante de freqüentar bares há muitos anos, o decorador conta que na última semana um grupo de amigos que se encontra num tradicional bar na Vila Falcão, o Pé-de-Varsa, realizou um almoço para 250 crianças atendidas pela pastoral da Igreja de São Benedito com direito a ovos de Páscoa, tudo comprado e organizado por esse grupo fiel ao botequim.

Ele também participa de uma outra turma de empresários que se reúne toda segunda-feira, sempre fazendo rodízio de lugares. Mas adverte que as esposas também podem fazer parte do grupo. Entretanto, Keller admite que no balcão do Templo tem a marca de seu cotovelo e o ouvido sempre presente dos donos da casa, Sônia e Fernando Menezes, que estão sempre dispostos a uma boa prosa.

A comida oferecida nesses lugares também é outro fator fidelizador, ressalta Keller, que elenca no cardápio caldinho de mocotó, feijoada, dobradinha e frango de televisão de cachorro temperado com gengibre e shoyu.

As surpresas também fazem parte do rol da terapia das boas lembranças. O decorador conta que uma vez não conseguiu ir a um show de Ella Fitzgerald em São Paulo e foi procurar refúgio para sua tristeza em um bar de jazz. Algum tempo mais tarde, percebe uma movimentação e eis que Ella surgiu no local e com direito a canja. Para ele, uma mesa de bar é o melhor espaço de convivência.

Dose de relaxamento

O assessor Marcelo Toledo, 56 anos, também assume fazer a botecoterapia sempre que possível. “Ao terminar o trabalho, passo num bar, dou uma relaxada, às vezes tomo uma cerveja, fumo um cigarro, jogo conversa fora e vou para casa. É uma visita rápida.”

Para se ter idéia de quão necessária é a manutenção do hábito, Toledo mora em São José do Rio Preto mas já tem um bar cativo, onde marca presença no balcão toda vez que trabalha em Bauru.

Há anos, pelo menos duas vezes por semana, Nilce Regina Canavesi, 46 anos, que preside o Lar para Cegos Santa Luzia, confessa que precisa sentar-se à mesa de um bar para bater papo.

“Na mesa do bar se conversa de tudo e não se chora as mágoas. É terapia mesmo e quem faz terapia duas vezes por semana não tem direito de reclamar e não precisa de psicólogo”, brinca.

Para ela, a sessão dura em média umas quatro horas. Ela assume que faz terapia de grupo, pois junto com ela sempre estão o marido, os filhos, sobrinhos e amigos dos filhos.

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Naquela mesa

(Sérgio Bittencourt)

Naquela mesa ele sentava sempre

E me dizia sempre o que é viver melhor,

Naquela mesa ele contava histórias

Que hoje na memória eu guardo e sei de cor.

Naquela mesa ele juntava a gente

E contava contente o que fez de manhã,

E nos seus olhos era tanto brilho

Que mais que seu filho eu fiquei seu fã.

Eu não sabia que doía tanto

Uma mesa num canto, uma casa e um jardim,

Se eu soubesse o quanto dói a vida

Essa dor tão doída não doía assim,

Agora resta uma mesa na sala

E hoje ninguém mais fala no seu bandolim.

Naquela mesa tá faltando ele

E a saudade dele está doendo em mim.

Naquela mesa tá faltando ele

E a saudade dele está doendo em mim.

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