Mel Gibson vai de Bosch a Caravaggio e o resultado final é um contundente sucesso. O início do filme mostra Cristo entre as forças do bem e do mal, num embate com Deus e com sua consciência. Revela o drama interior do homem considerado como a encarnação do redentor da humanidade. Cristo luta contra si mesmo e com o demônio que está dentro e fora dele. No desenrolar das cenas a representação-tipo da ação diabólica encontra-se no adversário e em cada um de nós...
Mas, imagens podem ser lidas? Sim e dispensam um vocabulário muito técnico. Platão acreditava que todo conhecimento não passava de recordação.
Ao longo dos séculos, a obra de Bosch (1450-1516) tem suscitado diferentes interpretações. Cultivou fervorosamente a arte, que transformou em um instrumento de sua pregação cristã e moralizante. Explorou com requinte de detalhes, as regiões mais sombrias da psique humana e visualizou os tormentos que aguardavam o pecador no outro mundo.
Caravaggio (1571-1610) era o oposto de Bosch, um amoral. O mais influente pintor do século 17 com seu traço vigoroso e o uso dramático do claro-escuro criou um novo vocabulário pictórico: o realismo. Dentro do contexto da Contra-Reforma existiam teorias estéticas que estavam em íntima correspondência com os ideais naturalistas do artista. Os episódios do Evangelho deveriam ser representados de forma real para despertar identificação com o público.
Os pés sujos, o rosto enrugado são tentativas de mostrar personagens da Bíblia como pessoas comuns. Essa intenção é percebida no filme dirigido por Mel Gibson. Sua releitura da obra de Caravaggio é proposital e toda carga psicológica derivada do claro-escuro é usada no sentido de provocar no espectador a mesma emoção pretendida pela arte da Contra-Reforma: atingir os sentidos.
O objetivo do diretor de “A Paixão de Cristo” é alcançado através de sua sensibilidade e do absoluto controle da iluminação para obter o máximo impacto. Ele focaliza os atores principais com fortes raios de luz concentrada destacando suas feições.
Mel Gibson secularizou a Via Crucis, fazendo Maria parecida com gente como a gente, os milagres como eventos do cotidiano e homens que parecem saídos de cortiços sórdidos, confirmando a habilidade do diretor em lançar um novo olhar sobre um tema tradicional. Alguns teólogos europeus têm afirmado que está em curso uma mudança fundamental na herança religiosa judaico-cristã, produzindo uma crescente humanização no filho de Deus. O filme de Gibson evidencia isso ao eliminar a idéia de sua divindade.
Igualmente eficaz é o uso da perspectiva obliqua, onde os pontos de fuga por estarem fora da tela obrigam o espectador a ver o conjunto. Enquanto o olhar dos atores parece estar diretamente sobre o espectador criando uma dualidade que se pretende seja notada, pois as figuras estão convertidas em nossos auto-retratos. A tela é um espelho com um ponto de vista psicológico nos espectadores e tem por objetivo forçar uma reação, fazer-nos participantes dos acontecimentos.
Mel Gibson não foi inspirado pelo Espírito Santo como declarou, mas pelo tratamento pouco ortodoxo que Caravaggio dispensava a temas religiosos e pelas lições de moral e pelo austero código de Bosch nas denúncias dos pecados de seus contemporâneos. Em um mundo onde o instinto pela violência tornou-se básico, o subtexto do diretor sobre a regeneração da humanidade, parece-me claro.
A autora, Janira Fainer Bastos, é doutora em Estética e História da Arte e professora do Instituto de Ensino Superior de Bauru (IESB).