Cultura

Virgínia Rosa canta Clara Nunes

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

Quando morreu, no dia 2 de abril de 1983, depois de 28 dias em coma após uma cirurgia malsucedida, Clara Nunes deixou uma lacuna como aquelas que resultaram da perda de Elis Regina ou, recentemente, Cássia Eller. A morte de uma artista não altera um gênero musical consolidado, mas o mutila para sempre quando essa intérprete é única. Elis, Cássia e Clara são exemplos, possuíam companheiras dentro dos seus gêneros, mas não concorrentes.

Clara Nunes é homenageada no show “Esse Teu Cantar”, que Virgínia Rosa faz hoje, a partir das 21h30, no Serviço Social do Comércio (Sesc), com os grandes sucessos da cantora.

A combinação dos dois nomes é muito feliz, a começar pela semelhança das vozes de Clara e da intérprete paulistana que transita por todos os meandros da MPB. Virgínia conta que Clara sempre fez parte do seu universo. “Como outras cantoras, como Elis Regina, Elizeth Cardoso e Clementina de Jesus, a Clara faz parte da minha formação musical. Sempre ouvi muito suas músicas para fazer um repertório, me inspirar, achar o meu próprio jeito de cantar, mas ela tinha em especial um jeito muito direto de cantar, muito popular que eu me identifico”, diz, em entrevista por telefone concedida ao JC.

A cantora acredita que Clara Nunes, apesar de ter ficado conhecida como grande sambista, era, antes de tudo, um intérprete completa de MPB. “Ela gravou samba, valsa, chorinho, experimentou vários estilos musicais brasileiros e eu gosto de fazer isso”, compara Virgínia, que começou a cantar na década de 80 com Itamar Assunção, tem dois discos gravados: “Batuque”, de 1997 e “A Voz Do Coração”, de 2001, e este ano deve entrar em estúdio para um terceiro trabalho.

A idéia de fazer um show sobre Clara surgiu depois da participação de Virgínia - como convidada - de um espetáculo que homenageava Alcione, Clara e Beth Carvalho. “Retomei o contato com esse repertório que eu conhecia, mas nunca tinha gravado e resolvi montar um show”, conta. A estréia foi em maio, na Capital e, em dezembro, a cantora gravou um DVD com “Esse Teu Cantar” que deve ser lançado no próximo mês.

No show, Virgínia canta sucessos de Clara como “O Mar Serenou”, “A Deusa dos Orixás” e “Que Seja Bem Feliz”, entre outras. Ao seu lado no palco, apenas um trio formado por Dino Barioni - que também dirige o show -, no violão, Douglas Alonso na percussão e Pedro Macedo no contrabaixo.

“Estou muito feliz por estar homenageando a Clara. Às vezes a gente esquece os grandes artistas da música e eu acho bom lembrá-los”, diz a cantora, que confessa nunca ter tido o objetivo de promover um resgate da obra de Clara.

“Nunca tinha pensado nisso mas acho que isso pode estar acontecendo. O público que comparece nos shows é formado de pessoas que conheceram a Clara e também de jovens que, de um modo ou de outro, ouviram falar dela. Tudo o que ela cantou é muito bom, de qualidade. É importante mostrar isso, mas não foi nada intencional, foi espontâneo, surgiu daquele convite”.

• Serviço

Show de Virgínia Rosa, hoje, às 21h30, na área de convivência do Sesc. Avenida Aureliano Cardia, 6-71. Informações: (14) 3235-1750.

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Operária da música

Mineira de Caetanópolis (a 90km de Belo Horizonte), Clara Nunes nasceu em 1943 e trabalhava numa fábrica quando resolveu participar do concurso “A Voz de Ouro ABC”, em 1959. Venceu a etapa em Minas e ficou em terceiro na grande final, em São Paulo. A partir daí, a jovem, filha do violeiro Mané Serrador, que adorava cantar desde criança, não parou mais.

Conseguiu um emprego em uma rádio de Belo Horizonte e, depois de mudar para o Rio, em 1965, gravou o primeiro disco, com um repertório de boleros e sambas-canções. Na década seguinte se firmou no samba após o estrondoso sucesso de “Conto de Areia”, de 1974. Seu LP vendeu mais de 300 mil cópias e seu sucesso abriu o caminho das grandes gravadoras para sambistas como Alcione e Beth Carvalho.

Clara gravou sambas mas também transitou por outros ritmos. Cantou Caymmi, Chico Buarque, Sivuca, Ataulfo Alves e ficou conhecida por falar de sua religião, o Candomblé, nas músicas. No total, gravou 16 discos e eternizou sucessos como “Ê Baiana”, “O Mar Serenou”, “Feira de Mangaio”, “Portela na Avenida” e “Nação”.

Sua morte, no início da década de 80, chocou o País. Aos 39 anos, ela se internou na Clínica São Vicente, no Rio, para uma cirurgia de retirada de varizes. Um choque provocado pela anestesia a deixou em coma e, menos de um mês depois, uma parada cardíaca a levou. Em 1997, a EMI, sua gravadora, lançou todos os seus discos remasterizados em CD.

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