Lisboa é a principal entrada de Portugal, depois de nove horas e 50 minutos de uma viagem iniciada em São Paulo, sem escalas. Normalmente, as decolagens são feitas à tarde, por volta das 17h, e a aterrisagem pela manhã, quando o sol ainda nem amanheceu na “casa da velha senhora”.
Velha só em história e arquitetura, já que Lisboa surpreendentemente se modernizou nos últimos tempos, remoçou e está mais bela do que nunca. Uma cidade que é pura poesia, com casas de fachada azulejada, telhados vermelhos e ruas limpas com calçadas de pedras brancas e pretas corretamente assentadas.
Emoldurada pelo Tejo, que de tão imenso parece o mar, pode-se dizer que Lisboa é uma cidade dividida entre o novo e o histórico. Este, clássico, pode ser conhecido pelos turistas nos bairros históricos de Alfama (onde visitar e jantar numa casa de Fado é obrigatório), Castelo, Mouraria, Bairro Alto, Bica, baixa Pombalina e Belém.
É a Lisboa genuína habitada pelos autênticos “alfacinhas” e hoje também muito valorizada pelas novas gerações. Neles se percebe a estrutura primitiva da cidade, de origem moura e medieval, com os seus pátios, ruelas estreitas e escadinhas.
Os bairros de Alfama, Castelo e Morauraria, que ficam na colina coroada pelo Castelo de São Jorge, são encantadores. Neles encontram-se restos das muralhas, vestígios da antiga Judiaria, a Torre de Alfama, as igrejas de São Miguel e de Santo Estevão, pórticos e fachadas de velhos palácios, becos, arcos, escadinhas, miradouros e pátios.
O Bairro Alto e a Bica são as zonas mais pitorescas da Capital, misturando lojas mais tradicionais com as mais vanguardistas, prova da coexistência da vida típica de pequeno bairro com a cosmopolita vida noturna. O “ascensor”, como é chamado o elevador em Portugal, construído em 1892, proporciona uma encantadora subida pela colina.
Já o Chiado é um elegante bairro comercial e residencial, que atingiu o seu auge no século 19, quando era ponto de encontro de intelecturais e artistas como Fernando Pessoa e Almada Negreiros. É nele que ficam o Teatro Nacional de São Carlos, o Teatro São Luís e o Museu do Chiado.
Depois de caminhar, tirar fotos e descobrir que Lisboa só foi reconquistada pelos portugueses em 1147, depois de 300 anos sob domínio muçulmano, pare para tomar uma “bica” (café expresso) no lugar preferido por Fernando Pessoa.
O café A Brasileira, construção em estilo “art decó” é charmosíssimo. Fica no coração do Chiado. Depois da “bica” (lá você também pode pedir um “carioca”) suba a colina pelo elevador Santa Justa ou pare para ver as vitrines, mesmo sabendo que o euro anda na casa dos R$ 4,00. Afinal, uma lembrancinha não mata ninguém.
Belém, os pastéis e o Rossio
Belém também faz parte da lista de bairros históricos lisboetas. É ali que fica a torre do mesmo nome, o Mosteiro dos Jerônimos (diz-se em Portugal, Jerónimos), o Padrão do Descobrimento e, claro, a doceria mais visitada da cidade: A Pastéis de Belém, onde os pastéis crocantes são atração especial.
Para se sentir o próprio alfacinha, esqueça o táxi e vá a Belém de “elétrico”, pegando o 15, na “paragem” (parada, ponto). Antes de se entregar às delícias gastronômicas visite a Torre de Belém, construída entre 1515 e 1521.
Um dos cartões-postais da cidade, a obra é imponente com decoração externa que chama a atenção. São cordas esculpidas na pedra, sacadas trabalhadas e torres mouriscas. Se estiver com as pernas em dia, suba as escadas para deslumbrar-se com as paisagens. De um lado, Lisboa; de outro, Cascais, Estoril e o Atlântico.
Atravesse a rua e entre no Mosteiro dos Jerônimos, construção em estilo manuelino que foi encomendada por Dom Manuel I em 1501, época em que Portugal nadava em dinheiro com a venda de especiarias. Dentro do mosteiro estão os túmulos de Vasco da Gama, entalhado com símbolos das viagens do navegador, e do poeta Luís de Camões, autor de “Os Lusíadas”.
Depois, é só se entregar sem medo da balança às delícias quentinhas servidas na quadra ao lado, polvilhadas com canela.
Produzidos desde 1837, com receita guardada a sete chaves, os pastéis de Belém são verdadeira instituição nacional. Esqueça os pneuzinhos abdominais e peça sem cerimônia “quatro pastéis de Belém, se faz favor”.
A casa é acolhedora e o gerente Vítor Domingos uma simpatia. Há várias salas abertas ao público e lá no fundo, no cofre, os confeiteiros - Henrique e Ramiro - a abrir a massa seguindo a receita secular que não é divulgada de jeito nenhum. O doce é maravilhoso. A massa folhada é finíssima e o recheio cheiroso e quentinho, feito à base de creme de ovos, leite e baunilha.
Fome e curiosidade saciadas, siga em frente rumo ao Rossio (pronuncia-se Russíu), o coração de Lisboa. Chega-se a ele a partir da Baixa Pombalina que foi traçada no fim do século 18 pelo marquês do Pombal para reconstruir a zona do centro da cidade depois do devastador terremoto de 1755.
Depois de visitar a praça do Comércio onde há uma magnífica estátua de dom José I, almoçar no restaurante Martinho da Arcaida (um dos preferidos de Saramago e, outrora, de Fernando Pessoa) e cruzar o arco da rua Augusta, você chegará ao requintado bairro comercial. Um charme.
Modernidade do século 21
Quem esteve em Portugal há mais de seis anos e retornar agora à terra-mãe vai se surpreender com o progresso e a modernidade. Integrante da União Européia, o país abriu os braços para o futuro, provando seu lado vanguardista.
Isso pode ser sentido desde a realização da Expo 98 que teve como conceito o Oceano Global, em que toda a vida marinha se cruza.
No meio da doca dos Olivais no Parque das Nações, num novo centro urbano que se ergueu dentro da cidade, o Oceanário de Lisboa salta facilmente à vista, uma vez que sua arquitetura exterior joga com a imaginação: há quem jure que parece uma ilha cravada no oceano, há quem aposte que é um navio ancorado, pronto a partir.
Composto por dois edifícios ligados por uma ponte, é no seu corpo principal - constituído por três pisos técnicos e dois de visita - que o Oceanário abriga a sua vasta coleção de aves, peixes e mamíferos distribuídos por diferentes habitats.
São mais de 16 mil animais e plantas de 450 espécies diferentes. O tanque central, com cerca de 7 milhões de litros de água salgada, representa o Oceano Global. Há ainda quatro habitats costeiros: o Atlântico Norte, o Pacífico Temperado e o Índico Tropical.
O parque é tão grande que tem até teleférico. E ao seu lado, um excelente shopping (chamado lá de centro comercial), o Vasco da Gama, que em nada fica devendo aos norte-americanos. Embora não seja o maior de Lisboa - o Colombo é o maior de toda a Europa - tem bela arquitetura e lojas de todos os tipos.
À frente do tempo, Lisboa também remodelou a doca de Santo Antônio, hoje transformada em “point” da moçada. O então velho cais e ancoradouro, localizado no bairro de Alcântara, ganhou dezenas de “tascas” (bares) e restaurantes, à semelhança do que foi feito em Londres, Buenos Aires e em Boston, oferecendo mais uma área de lazer ao público.
Ferveção de bar em bar
Além dos shoppings, dos bares nas docas, das casas de fado, dos botequins onde bebe-se imperiais (chope), vinho e ginjinha (licor), Lisboa oferece outros pontos de ferveção para a moçada.
A exemplo do que ocorre em Madri, na Espanha, onde a noite é uma criança, Lisboa apresenta para a galera que tem pique agitos noturnos (movida), de bares em bares no Bairro Alto, no Chiado, na avenida 24 de Julho, junto às Docas e no bairro de Santa Apolônia.
Há uma infinidade de discotecas caso do Dock’s, Kapital, Lux, Hipercool e B. Leza.
Sinal da revolução cultural por que passa a Capital lusitana apelidada pela moçada de “baril”, ou seja, “pra lá de bacana”. A maioria das discotecas abre depois da meia-noite, muitas só às 3h, acolhendo um público variado que passa pelos mauricinhos e patricinhas (lá chamados de betinhas e betinhos) entre tantas outras tribos como os “punks” e “darks” chegados num rolê “underground”.
Peça, sem medo de errar, uma “caipirinha”, nossa bebida mais popular, dance ao som dos melhores “DJs” europeus, deixando um espacinho no estômago, quando a fome apertar para tomar um caldo verde devidamente acompanhado de pão com chouriço, num dos endereços mais disputados da 24 de Julho: a Merendeira.