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Troca de canoa


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Tenho insistido muito em lembrar nesses comentários semanais que o desenvolvimento econômico (isto é, o aumento continuado da produtividade da mão-de-obra empregada) depende muito fortemente dos investimentos. O investimento de hoje é o emprego de amanhã, é preciso lembrar sempre. O desenvolvimento é um processo que tem que começar com um aumento dos investimentos públicos e privados.

Um fato importante é que se está recuperando a noção que o Estado tem que ter participação extremamente ativa nesse processo. Uma das idéias “simples” que mais atrapalhou o crescimento brasileiro desde o governo Collor até FHC (com pequenos intervalos de lucidez), rezava que: uma vez estabelecida a estabilidade monetária e “algemado” o Estado, o todo poderoso “mercado” produziria a volta do desenvolvimento... A queda nas exportações não era problema de governo, o endividamento não devia preocupar, pois seria coberto com a venda do patrimônio nacional e a “mania” de política industrial era coisa de “jurássicos”. A obediência a esses “princípios” resultou no medíocre crescimento da economia brasileira nos últimos dez anos. De reboque veio a economia latino-americana. É surpreendente como o debate econômico foi fraudado nesse período. Como se explica que uma boa parte da academia e da grande mídia embarcou alegremente nessa canoa furada, quando é conhecido o fato que nenhum país do mundo (nenhum!) cresceu com a sinistra combinação de “mercado” e Estado “algemado”?

Parece evidente que sem políticas públicas adequadas o Brasil jamais voltará a crescer. A dificuldade atual é que, a despeito do enorme aumento da carga tributária nos últimos anos, o Estado brasileiro perdeu sua capacidade de investimento e ainda está extremamente endividado. Desta forma, deve o governo aplicar-se permanentemente na contenção dos gastos de custeio para ir reconstruindo a capacidade do investimento público e mobilizar tudo o que ainda funciona na máquina estatal para estimular os investimentos privados. Um bom começo foi o lançamento da política industrial, ainda em embrião, mas que mostra a disposição do Estado de assumir alguns riscos junto com os potenciais investidores privados, o que significa o “descolamento” da atual política econômica do viés anticrescimento que vigorou nos últimos dez anos. O que não significa abandonar a estabilidade, mas o reconhecimento que ela é necessária, embora não suficiente para produzir o crescimento. Também não quer dizer que tem que reduzir o superávit fiscal ou coisa parecida, porque a dívida imensa está aí e precisa ser honrada, mas sim que o caminho certo é garantir direitos (propriedade, contratos) e dar estímulos aos investimentos privados, com o Estado retomando seu papel indutor.

O autor, Antonio Delfim Netto, é deputado federal pelo PP-SP, professor emérito da USP.

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