Tribuna do Leitor

Os órfãos da ditadura


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Passados quarenta anos do golpe militar que tantos males causou ao país e ao seu povo, torna-se impressionante que alguém, em sã consciência, ainda possa ocupar esta Tribuna para defender uma época de trevas que somente deve ser lembrada para que nunca mais seja repetida. Refiro-me à carta do sr. Ivan Garcia Goffi, publicada em 11 de abril último.

Ao contrário do que afirma o missivista, a tomada do poder pelos militares não foi legitimada pelo “manifesto popular”, mas sim insuflada por setores conservadores e do empresariado, temerosos de perder os seus privilégios milenares, com a interferência do governo americano e tendo o apoio equivocado de parcela da classe média, sempre vacilante, em razão das reformas que buscavam maior justiça social, propostas pelo governo Goulart.

Por outro lado, a história do povo brasileiro é marcada pela resistência que sempre travou contra os poderosos, na busca de melhores condições de vida e, durante a ditadura militar, não foi diferente: a “marcha dos 100 mil”, em 68; as grandes greves do ABC; a campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita, que trouxe de volta ao país milhares de brasileiros e a campanha das “diretas já”, entre outros momentos, reuniu operários, estudantes, intelectuais, artistas, enfim, pessoas de vários segmentos e pensamentos políticos, que buscavam o retorno da democracia.

Esta trajetória de lutas não pode ser vilipendiada por uma carta desconexa, sem a mínima relação com a realidade e em total desacordo com a história. A memória daqueles que lutaram, muitos tombados em confrontos com a repressão ou em sessões de tortura deve ser reverenciada, pouco importando quantas foram as vítimas, mas sim lembrar para sempre a forma covarde com que foram executados, pela insanidade impune dos que tomaram de assalto o poder no país. O golpe militar de 64 trouxe um retrocesso profundo a uma nação que florescia política e culturalmente, um prejuízo incalculável que vai se prolongar por décadas.

Sr. Goffi, ditadura não se mensura, todas são igualmente execráveis, pois são todas covardes e pusilânimes, principalmente para a maior parcela da população que vive em condições sub-humanas. No entanto, democracia não é só o livre exercício do voto num país de famélicos. Democracia não é defender interesses mesquinhos que apenas privilegiam parcela ínfima da sociedade, enclausurada em seus castelos, com medo da multidão de miseráveis. Democracia é antes de tudo, o direito precípuo da grande massa de trabalhadores se expressar livremente, para arrepio da burguesia fétida, que ainda detém o poder econômico da nação. O mal do país não são as ocupações de terra organizadas pelo MST, consequência do secular descaso dos governantes para a questão agrária, mas esta elite que detém o poder, desde o descobrimento desta terra, pouco importando quem seja o governante. Lembre-se ainda que o mal uso do dinheiro público não é privilégio do governo Lula, para tanto basta lembrar dos escândalos Coroa-Brastel, Delfin, da Ponte Rio-Niteroi e da Transamazônica e verá um manancial de falcatruas realizadas nos tempos verde-oliva. A desonestidade e a impunidade somente terá fim com a ampla participação popular organizada e consciente, exigindo nas ruas, praças e avenidas uma sociedade justa.

Em tempo. Sr. Goffi: Salvador Allende foi eleito presidente do Chile democraticamente, através de eleições diretas, passou a maior parte do seu governo sofrendo terríveis e ardilosas pressões financiadas pelo governo americano, aliado da elite empresarial chilena, até ser derrubado e morto covardemente por um golpe militar comandado pelo general fascista Augusto Pinochet, o resto da história todo mundo conhece. (Arthur Monteiro Junior – OAB/SP 91.638)

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